pequeno ensaio sobre o homem-formiga

Seria possível realizar mentalmente os poderes do Homem-Formiga?

Imaginemos a sua figura.

Imaginemos o Homem-Formiga tornando-se infinitamente pequeno, reduzindo seu tamanho.

A cada segundo, metade do que era.

Consideremos, então, a pequenez. A pequenez enquanto um delírio. O delírio de alguém que se põe a admirar a sua criação em seus mínimos detalhes. Um artífice, um matemático, um arquiteto, um filósofo. É preciso diminuir o tamanho do pensamento, dobrá-lo sobre si mesmo, reduzi-lo a uma simulação microscópica de si mesmo.

A vontade que cria o superpoder do Homem-Formiga é a da sabotagem e da infiltração. Uma ideia microscópica poderia imiscuir-se no pensamento de alguém. Sem que se perceba. A sabotagem depende de frestas e de falhas que tornam a estrutura vulnerável. O Homem-Formiga tem a possibilidade de verificar de perto a estreiteza, e a espessura de cada fresta de seu próprio pensamento.

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100 perguntas (algumas não tão boas) para os nossos tempos

1. O que acontece a uma pessoa se ela não se interessar por política?

2. Por que gostamos de perder o controle em algumas situações?

3. Qual foi a festa mais divertida já celebrada?

4. Como nasce um vício?

5. Por que tornou-se tão difícil convencer alguém sobre qualquer coisa?

6. Algum dia as religiões desaparecerão?

7. Como se descobre um deus?

8. Qual foi o funeral mais triste em volume de lágrimas?

9. Qual é a melodia mais cantada secretamente?

10. Qual será a primeira palavra inventada por um animal a ser acrescentada em um dicionário?

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o brasil dos vampiros psíquicos

Venho do futuro para dizer aos habitantes deste século que as coisas mudaram e que as coisas continuarão mudando.

Não gastei a viagem à toa. Pelos caminhos que levam para dentro do Brasil os nativos deixaram um pouco de tudo sob a poeira.

Sei por exemplo que ainda vigora o feitiço de um selvagem que do meio da selva para sempre amaldiçoou os invasores desta terra, e que a catiça foi braba o bastante pra ninguém percebê-la.

Ninguém sabe bem o que tem lá pra dentro do país. Nem índio, nem preto, nem europeu. A tinta vermelha que dá nome à pátria não aparece na bandeira.

Dizem que não aparecerá jamais.

Sei que até o ano de 2100 os grupos de compartilhamento de mensagem terão formado profundas galerias de arquivos a serem escavados e reescavados por inteligências artificiais eternamente dedicadas à fabricação de feiquinius, emaranhadas em grandes nodos de informação que se coligiram por vontade própria.

Os comitês de engenharia ideológica, espalhados no multiverso digital, semeiam logaritmos que disparam trilhões de mensagens para infinitos planos de dimensão possíveis, programando-os para fixarem-se apenas naqueles onde sucedem-se segundos turnos tão terríveis quanto este do atual presente que visito.

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todo o plástico que há nos oceanos

Começou com uma pessoa só caminhando em direção ao mar e entrando na água até sumir sob as ondas. Era um funcionário do departamento de trânsito, homem de cabelo calvo, aqueles traços típicos do sul da Índia. A cena se deu na avenida costeira de Mumbai, onde anos antes uma baleia jubarte fora encontrada morta, asfixiada por um emaranhado de fios e plástico. Ainda que tivesse sido testemunhado por uns poucos, aquele gesto de morte vinha dotado de um extremo poder de contaminação. Não demorou para que outras pessoas imitassem o suicida. Em poucos dias o fenômeno se alastrou por todos os litorais do mundo, San Francisco, Rio de Janeiro, Marselha, Sidney,  e no final do mês grandes massas de seres humanos já se tinham afogado nos oceanos.

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ocultas técnicas de reorientação sexual adaptada

 

Eu já sabia que era viado muito antes de dar o primeiro beijo.

Desde pequeno eu ficava olhando pras mãos calejadas dos homens mais velhos, e pros ombros dos rapazes na puberdade. Ombros largos, eu gostava. Quando fiquei mais velho, passei a procurar por mãos com anéis de noivado. Dependendo das mãos, eu ficava de pau duro só de ver uma aliança ali no meio.

Trocar de roupa no meio de uma turma de meninos foi, de longe, o evento mais regozijante de toda a minha tediosa pré-adolescência cristã. Lembro-me de cada uma das vezes em que tive a oportunidade de compartilhar do vestiário com os meus colegas que jamais souberam de meu interesse pelas suas partes pudendas e demais zonas corporais visitadas pelo olhar de meu recatado interesse erótico. Eu ficava tímido, mas prestava atenção em tudo pra poder me lembrar bem depois. Olhava pros volumes nas cuecas.

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o teste de personalidade do dr. zao

Dentre as inúmeras e excêntricas contribuições do cientista húngaro Dr. Ivan Zao para a psicologia contemporânea do século XXI, consta o vasto teste de personalidade que ele sabiamente chamava de “Teste de Imaginação”. Por meio de um questionário bastante heterogêneo, o Dr. Zao intentava oferecer aos seus pacientes um numeroso e abrangente rol de perguntas que pudessem funcionar como gatilho para uma profunda investigação da paisagem pessoal de seus pacientes tendo como pano de fundo a cultura humana, anseios e capacidades de criação e imaginação ajustadas a hipóteses e situações sociais reais e/ou impossíveis.

A ideia combinava técnicas extraídas do psicodrama, da psicomagia, testes de personalidade disponíveis na Internet, do tarô, da mitologia, contos populares antigos, além de diversas outras formas de aparatos lúdicos e narrativos, e, em sua versão original, possuía um repertório de 436 perguntas percorrendo as mais variadas áreas da vida, da história, das atividades, gostos e crenças gerais.

Após ter submetido ao teste inúmeros pacientes seus, além de voluntários, intelectuais e celebridades, o Dr. Zao também trabalhou para a elaboração de um amplo mapa simbólico das respostas possíveis para cada uma das perguntas, muitas delas sugeridas por aqueles que haviam participado das primeiras versões. O mapa acabou resultando num dicionário-guia com mais de 6.500 verbetes, além de outras 90.000 combinações possíveis de respostas, geradas por computador.

Uma das características centrais do teste era a sua total abertura para a intervenção do público, seu caráter permanentemente adaptável à inventividade do participante. Além disso, o seu criador, o Dr. Zao, dizia orgulhar-se de ter criado um procedimento ao final do qual era o próprio paciente quem produzia seu veredito e diagnóstico, conquanto aprendesse a entender o seu poder de sugestão.

Aqui encontramos uma seleção de 62 perguntas que constavam na versão original do questionário:

1. Um sábio talhou uma série de figuras em uma mesa de madeira. Dentre as formas geométricas, qual parece mais completa ou melhor preenchida?

a) Um quadrado;

b) Um círculo;

c) Uma pirâmide;

d) Um prisma;

e) Outro: qual?

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a ficção pré-histórica

Entendemos como ficção uma narrativa sem pretensões de verdade.

Por mais problemática que seja a palavra verdade, todas as outras derivações e consequências daquilo que entendemos como ficção são secundárias diante deste pressuposto.

O número de personagens, o conteúdo dramático, o suporte ou mídia para o qual foi feita, quando, onde, e por quem tenha sido escrita ou contada, nada disso importa para o uso do termo ficção. Basta que seja uma história sabidamente inventada por alguém – quantos tenham sido tampouco é determinante para o emprego do vocábulo.

Imaginamos que, antes de depararem-se com a importância de saberem falsas ou verdadeiras suas narrativas, os povos do passado, ao redor de suas fogueiras, já tinham se acostumado a contá-las e a ouvi-las nos momentos certos.

Isso antes de serem cantadas pelos bardos, individualizadas e colocadas no papel, postas em circulação, antes de serem organizadas em bibliotecas e tudo o mais, quando ainda eram gestadas sob a inspiração de entorpecentes ou de entidades sobrenaturais – a partir do momento em que são destinadas ao público, tudo isso é de interesse para a divisão que será feita, quando postos em circulação no mundo moderno. A disposição dos textos ao gosto.

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