das atribuições psiconáuticas

O que é a psiconáutica?

É a habilidade de experimentar com os estados da consciência. Por “estados da consciência” compreendo algo diferente das nossas disposições físicas, como a aptidão e o cansaço, ou anímicas, como a histeria e a tristeza. Refiro-me às diversas capacidades perceptivas, sensoriais, de intuição, raciocínio e expressão deflagradas e liberadas pela digestão química de certas substâncias que as estimulam.

A psiconáutica não depende, contudo, destas substâncias. Digamos que a capacidade natural para sonhar, e o nosso interesse de refletir, interpretar, e investigar as camadas do sonho são, é claro, um tipo de psiconáutica, uma vez que envolvem a navegação pela psiquê – como assim sugere a própria etimologia do termo.

O objeto da psiconáutica, portanto, é aquele conjunto de atribuições conferidas à entidade mente-alma (psiquê). Ou, como dissemos anteriormente, a consciência. Se a metáfora apresentada na definição etimológica do termo envolve algum tipo de navegação, então é justamente na movimentação das ondas que devemos pensar quando chegar a hora de tentar elaborar alguma imagem da consciência. Se a psiconáutica envolve uma disposição para experimentar com os estados da consciência, isso nada mais é do que a vontade de explorar os infinitos mares que se abrem ao seu alcance.

É notável que o uso de certas substâncias possa aprimorar a nossa capacidade exploratória, ao mesmo tempo em que abre novos territórios para explorarmos. Não precisamos ir longe ao falar dessas substâncias – se mesmo as disposições corporais mais simples envolvem um determinado estado de consciência, então até a digestão corriqueira de alguns alimentos pode envolver variações neste estado.

Todavia, como estas variações não são significativas, diluindo-se na normalidade da vida, elas não exigem reflexões a seu respeito. Não paramos pra refletir sobre uma certa euforia desencadeada pela capsina (da pimenta) ou pelo açúcar. Na verdade, o nosso consumo destas substâncias já é tão banal que sequer notamos os seus efeitos.

Assim, não é qualquer substância que está associada à capacidade de produzir uma disposição psiconáutica nos indivíduos. A capacidade reflexiva decorrente do uso do tabaco e da nicotina, muito provavelmente, não envolveria grandes saltos de percepção da realidade – a não ser, talvez, nos momentos de abstinência. O mesmo vale, acredito, para a cafeína.

Se falarmos de outras substâncias com uso mais difundido em nossa sociedade, como o tetrahidrocanabinol (maconha) ou alguns calmantes, antidepressivos, remédios tarja preta etc., também não seremos capazes de encontrar grandes exemplos psiconáuticos. A metáfora da navegação continua valendo. Pensemos nos grandes feitos da navegação, como a descoberta de uma rota por mares desconhecidos ou a conquista de uma passagem por mares revoltos, enquanto equivalentes da aventura psiconáutica. Nem a maconha nem qualquer um destes remédios poderia garantir quaisquer grandes viagens marítimas pelo mar da consciência, posto que seu uso, a longo prazo, se estabiliza terapeuticamente. Em outras palavras, certas substâncias têm uma ótima capacidade para redefinirem novas normalidades.

Isso quer dizer que a boa psiconáutica deve ser, na maioria dos casos, uma ciência do extraordinário. As melhores embarcações para cruzar o mar da consciência são aquelas mais fortes, e com maior autonomia – capazes de nos levarem mais longe, até a circunavegação dos nossos hemisférios. Eis algumas destas substâncias: a psilocibina, a dimetiltriptamina, a dietilamida etc. Mas até mesmo algumas dessas substâncias podem ter seu uso estabilizado dentro de determinadas subculturas. Ora, a ayahuasca e o mariri, certamente, em contextos mais institucionais, não dispõem de uma abertura tão grande assim para a psiconáutico – seu uso está mais aplicado a um sentido devocional.

Para além disso, é, pois, curioso que a psiconáutica também envolva alguma familiaridade com a própria palavra substância – palavra tão filosófica.

Não me lembro onde foi que li que os únicos campos do conhecimento em que a palavra substância encontra algum uso é nas áreas da filosofia, química e biologia. Substância é aquilo que subsiste apesar de tudo, apesar de todas as mudanças. No hilemorfismo aristotélico, substância é a essência, a natureza de um ser – dividida em forma (ato) e matéria (potência). É aquilo do qual as coisas se predicam – aquilo sem o qual as coisas não existem e que, uma vez destruído, leva a coisa junto consigo. Na química e na biologia é um desenho molecular que deixa de existir quando se altera, tornando-se, é claro, outra substância – exatamente o que acontece às muitas substâncias, alucinógenas ou não, quando processadas e digeridas pelo nosso corpo.

As substâncias são, portanto, essências desencadeadoras da consciência. A disposição para experimentar com elas deve envolver, necessariamente, o interesse, o gosto, e, é claro, a dose certa de ceticismo.

A psiconáutica é uma auto-etnografia. A experiência exige que só experimentemos com a nossa consciência, e não com a dos outros. A experiência alheia é importantíssima na medida em que nos serve como modelo, porque sempre existe o perigo de nos extraviarmos quando não temos os outros servindo de referência. Além disso, certas substâncias como o LSD ou a ayahuasca, dispõem de uma capacidade natural para constituírem pequenos núcleos e comunidades de sentido – aí as trocas são importantes para a formulação de uma superconsciência experimental colocada no nível transpessoal. É importante, portanto, ter com quem compartilhar os insights. Como qualquer outra atividade, é possível desenvolver uma habilidade, ou técnica. O aprendizado, aqui, é definido pelas mesmas leis que governam quaisquer processos de aprendizado na natureza: o feedback.

Digo isto porque o feedback é, provavelmente, a primeira lei da consciência em si mesma. Pensemos na evolução das espécies e em como a natureza levou os seres a desenvolverem os inúmeros órgãos sensoriais e perceptivos voltados para a leitura e rastreamento dos estímulos ambientais à sua volta – para auxiliá-los, é claro, em sua sobrevivência, ora fugindo de predadores, ora correndo atrás das presas. Isto não aconteceu sem que milhares de relações de feedback estivessem, aos poucos, se construindo biologicamente.

A metáfora da navegação retorna com mais eficiência. Pensemos no termo cibernética, derivado do grego Κυβερνήτης (kybernetes), que significa timoneiro. Norbert Wiener escolheu este termo para nomear todo um novo campo do conhecimento porque, segundo ele, a primeira e mais importante relação de feedback estabelecida entre ser humano e máquina deve ter sido, provavelmente, aquela entre o timão, o leme, e a água que sustentava a embarcação.

A psiconáutica, portanto, envolve não apenas a passagem pelos diversos mares da mente, mas também a capacidade para conduzir-se sobre eles. Isso quer dizer o deslocamento de si para uma consciência extra, não apenas sensorial, mas uma perspectiva que seja capaz de testemunhar e de formular intuições ou raciocínios a respeito da consciência mais abaixo. Falo, aqui, de um sujeito extra, introspectivo, à semelhança daquele que nasce naturalmente da meditação: a mente pensando no pensamento. Isso quer dizer um deslocamento da consciência, uma certa habilidade em se ver de fora.

É por isso que o estudo de algumas tradições religiosas também é do interesse da psiconáutica. Ora, sabemos que algumas religiões, tais como o budismo e os iogues hindus, desenvolveram inúmeras reflexões e simbologias importantes para a navegação da consciência – e sem que fosse necessário o auxílio de quaisquer substancias mencionadas aqui. Nos Sutras de Patañjali encontraríamos definições ainda mais sofisticadas do que é a mente e a consciência. Isso diz respeito também ao misticismo, que é um arcabouço de linguagem referente aos estados alterados muito anterior ao da ciência. Isso porque, em certos períodos da história, estes estados alterados encontravam grande ressonância de significado na vida religiosa, nas funções do xamã ou do profeta em seus transes.

A psiconáutica, assim como o misticismo, é bastante individual. Ela não precisa ser contida ou limitada pela linguagem científica. Muitos dos seus insights e epifanias, na verdade, estão muito além de qualquer linguagem ordinária – e seria mesmo preciso inventar toda uma outra linguagem se quiséssemos ser fieis à verdadeira dimensão aberta por essas experiências. A metáfora da navegação pode, mais uma vez, ser usada para explicar aquilo que acontece aqui: mesmo quando os insights são falsos, fantasiosos, desprovidos de qualquer realidade, eles estarão revelando uma parte do indivíduo. Perder-se no mar da psiconáutica é, afinal, perder-se em si mesmo. O que se perde é a capacidade de navegar – perder-se, seria, nos termos dessa metáfora, algo próximo a naufragar. Se feedback significa uma retroalimentação então o retorno se faz sempre necessário. Em termos metafóricos, a “descoberta da América” não teria acontecido se Colombo jamais tivesse retornado à Europa.

A psiconáutica está fundada na relação de feedback não apenas em virtude dos elementos relativos à autoobservação, ou ao aprendizado de sua técnica, na investigação de si mesmo, na relação da consciência individual consigo mesma. A relação de feedback também se apresenta na própria função simbiótica constituída pela função agregadora da vida. O nosso corpo sequer teria desenvolvido um terminal capaz de processar quimicamente tais substâncias e traduzi-las em estados específicos de consciência se uma tal relação de estímulo e resposta não tivesse se estabelecido muito antes da espécie humana vir à baila. Poderíamos simplesmente comer um cogumelo cubensis e não acontecer nada – mas algo acontece! Aqui temos a chance de verificar, afinal, a bela relação de amizade que existe entre os animais e os outros reinos da natureza, posto que o efeito garantido pelo uso de certas substâncias naturais é, evidentemente, uma troca de informação no nível mais precioso da matéria, ou seja, no interior de sua consciência.

Estes são, acredito, alguns dos motivos que justificam a psiconáutica, sua aventura e a sua adoção enquanto estilo de vida por parte de alguns indivíduos curiosos. É claro que essa aventura pode ter muitas implicações políticas, mas ainda é muito difícil saber aonde elas nos levariam, dado o caráter permanentemente experimental da viagem.

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