o brasil dos vampiros psíquicos

Venho do futuro para dizer aos habitantes deste século que as coisas mudaram e que as coisas continuarão mudando.

Não gastei a viagem à toa. Pelos caminhos que levam para dentro do Brasil os nativos deixaram um pouco de tudo sob a poeira.

Sei por exemplo que ainda vigora o feitiço de um selvagem que do meio da selva para sempre amaldiçoou os invasores desta terra, e que a catiça foi braba o bastante pra ninguém percebê-la.

Ninguém sabe bem o que tem lá pra dentro do país. Nem índio, nem preto, nem europeu. A tinta vermelha que dá nome à pátria não aparece na bandeira.

Dizem que não aparecerá jamais.

Sei que até o ano de 2100 os grupos de compartilhamento de mensagem terão formado profundas galerias de arquivos a serem escavados e reescavados por inteligências artificiais eternamente dedicadas à fabricação de feiquinius, emaranhadas em grandes nodos de informação que se coligiram por vontade própria.

Os comitês de engenharia ideológica, espalhados no multiverso digital, semeiam logaritmos que disparam trilhões de mensagens para infinitos planos de dimensão possíveis, programando-os para fixarem-se apenas naqueles onde sucedem-se segundos turnos tão terríveis quanto este do atual presente que visito.

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bolsonaro

Bolsonaro ouve John Coltrane.

Bolsonaro já brincou de passa-o-anel.

Bolsonaro já fez carinho em gatos.

O deputado Jair Messias Bolsonaro já riu assistindo o Pernalonga.

O Bolsonaro gosta de pimenta.

O Bolsonaro já mediu seu pinto com o de outro homem.

Bolsonaro jogava de volante.

Bolsonaro entra no banho primeiro com os pés e depois com o restante do corpo.

O candidato Jair Bolsonaro faz yoga.

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o deus que existe

Alguns cientistas tântricos compartilham de uma mesma ideia segundo a qual a criação do cosmo é um adensamento de vontades que até então permaneciam contidas em um eterno estado de sutileza.

Assim, do Nada teria surgido alguma coisa, que é a Matéria – do não-manifesto ao manifestado. Da energia à matéria. Da matéria aos elementos do universo, a natureza, e os animais.

Muitos veem nisso um gesto da Grande Mente Cósmica feito na tentativa de entender a si mesma, produzindo a multiplicidade a partir da unidade.

Este gesto poderia ser descrito de forma circular. Noutras vezes já foi descrito como uma dança. O alcance mais extremo deste gesto é o ponto em que Deus se diferencia de si mesmo. Nesta diferenciação se amplia a distância entre o criador e a criatura, e, por meio dela, é dada à criatura a liberdade de se esquecer do criador, e, portanto, de sua origem divina. Após a ação criativa, há, ainda um movimento de retorno. O que se entende por um movimento de retorno, depois da culminação da multiplicação da vida, da qual resulta, por exemplo, a espécie humana, é uma vontade de regresso ao seio divino.

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já temos tecnologia pra isso

Sou minha própria ciência e religião.

Coleciono gênios guardados em lâmpadas. Não sei quantos livros já deixei que me roubassem.

Temos tecnologia pra criar qualquer alimento a partir do nada. Por sobre toda a Terra correm os nossos cabos, nossos dutos, nossos sentinelas, os olhos de nossos vigias. Temos a tecnologia que nos permite antecipar o mais imprevisível dos imprevistos.

Fui domesticado por minha magia. Estou aprendendo a respirar corretamente.

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o bom samaritano

Toda vez que vou à Avenida Paulista, me filio a uma ONG diferente.

Nesta última semana, por ocasião de uma visita que fiz a uma loja de artigos religiosos católicos, fui abordado pela patrulha de uma organização ambiental.

Os métodos são absolutamente os mesmos para todos os grupos, não interessa a causa. Eles recrutam jovens que fariam qualquer coisa por uma pequena remuneração, e ensinam a eles técnicas que supõem funcionar. Assim esperam atrair novos contribuintes.

Interpelar pessoas apressadas que andam pela capital não me parece o mais gratificante dos serviços a serem prestados. A coisa começa sempre com uma piada, com alguma observação sobre o modo com que me visto ou ando, o mesmo veredicto sobre o meu chapéu, e que todos julgam estiloso, ou então perguntas inapropriadas sobre como eu faço pra deixar minha barba tão vistosa.

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todo o plástico que há nos oceanos

Começou com uma pessoa só caminhando em direção ao mar e entrando na água até sumir sob as ondas. Era um funcionário do departamento de trânsito, homem de cabelo calvo, aqueles traços típicos do sul da Índia. A cena se deu na avenida costeira de Mumbai, onde anos antes uma baleia jubarte fora encontrada morta, asfixiada por um emaranhado de fios e plástico. Ainda que tivesse sido testemunhado por uns poucos, aquele gesto de morte vinha dotado de um extremo poder de contaminação. Não demorou para que outras pessoas imitassem o suicida. Em poucos dias o fenômeno se alastrou por todos os litorais do mundo, San Francisco, Rio de Janeiro, Marselha, Sidney,  e no final do mês grandes massas de seres humanos já se tinham afogado nos oceanos.

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o mestre da mandala secreta

Os ritos da cerimônia denominada A Infinita Destruição e Concepção dos Mundos, já praticada pelos monges budistas tibetanos há mais ou menos seis séculos, ainda se encontram envoltos num manto de mistério e alegoria para a maior parte dos ocidentais.

Tendo se originado na porção oeste do Tibete, os ritos sobreviveram à disputa entre as distintas seitas que conviviam na região, ao final do século XVI, e foram devidamente lapidados pelos seus continuadores, os membros da escola Gelug, e discípulos de Tsongkhapa. Mais tarde, sobreviveram também ao ateísmo do Partido Comunista Chinês, e foram acolhidos no Nepal, onde, desde então, a cerimônia tem acontecido.

Os procedimentos são secretos, e apenas os monges mais graduados estão admitidos na cerimônia. A data é escolhida durante a primavera, e acontece na primeira lua cheia da estação, sendo precedida por um jejum de três dias, durante os quais os participantes permanecem reclusos, sem a autorização de deixarem o monastério.

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