confúcio e a fuga das galinhas

Confúcio sempre foi e continua sendo um perfeito exemplo de como a filosofia chinesa é profundamente diferente da filosofia ocidental. É muito provável que qualquer cidadão brasileiro com um grau médio de letramento já tenha ouvido falar do sábio chinês ou tenha se deparado, então, com alguns de seus ensinamentos e máximas. Ao passo que a filosofia ocidental progrediu construindo sistemas muitíssimo elaborados de compreensão do mundo e dos seres humanos, a filosofia chinesa se perpetuou através da prática dos seus comentaristas. Assim, a busca pela formulação de um sistema mais original e mais completo que o de seus antecessores, como se tornou comum no ocidente, sobretudo a partir da entrada da Europa na modernidade, não cabia na tradição da filosofia chinesa – cujo sentido compreendia uma reverência quase que absoluta ao clássicos. Deste modo, mais importante do que inventar uma nova possibilidade de significado, convinha interpretar e esclarecer aqueles ensinamentos trazidos ao mundo pelas palavras dos antigos mestres. No caso de Confúcio essa sabedoria, cristalina e simples, encontra grande lastro na literatura de auto-ajuda. Sem qualquer preconceito ou prejuízo, há, de fato, uma afinidade possível entre aquilo que os velhos mestres tinham para ensinar, e aquilo que os leitores de hoje em dia buscam para acrescentar às suas vidas. Veremos neste pequeno texto como que essas afinidades são mais amplas do que imaginamos, e às vezes até um tanto divertidas.

A leitura dos textos de filosofia chinesa nunca se desdobrou num método de leitura tão racionalmente obcecado como o dos ocidentais. É verdade que essa obsessão, maravilhosa em seus desenvolvimentos, favoreceu uma miríade de articulações de pensamento imbuídas de ceticismo e dedicadas a desvendar as limitações de suas próprias leituras e entendimentos, permitindo, então, que alguns campos filosóficos florescessem precisamente por conta das incertezas: a hermenêutica e a epistemologia são algumas destas áreas inseminadas pelos problemas típicos da mente ocidental. Não cabia, portanto, para os orientais, pensar o próprio pensamento – ainda que algumas práticas de meditação efetuassem exatamente isso. A isso acrescentamos a diferença entre os idiomas: o chinês antigo era claro e conciso, e não abria tanto espaço assim para argumentações. Não havia, para o filósofo do extremo oriente, a necessidade de sustentar uma tese ou defendê-la de seus opositores. Nada parecerá mais estranho à filosofia ocidental, arvorada nas suas dialéticas e escolásticas, do que a simplicidade das palavras de Confúcio, principalmente se temos em vista o fato de que esta simplicidade, que já alcança dois milênios, continua a render comentários riquíssimos da parte de seus leitores.

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buda, heráclito e o fogo

É claro que não sou o primeiro a estabelecer comparações entre a doutrina de Sidarta Gautama, o Buda, e a de Heráclito de Éfeso. Também pelo fato de terem sido, muito provavelmente, contemporâneos, a similaridade entre suas ideias chama atenção porque ambas se apresentam, em seus contextos, com um elevado grau de originalidade – e criam condições para uma certa compreensão da realidade à qual não podemos permanecer indiferentes. Um insight que revele a impermanência das coisas, da matéria e da forma, e que sirva de plataforma para uma percepção mais profunda das mudanças e, por consequência, do vazio subjacente a tudo, é algo que atrai a atenção de qualquer um que tenha tendência para a filosofia.

            As análises comparativas da filosofia antiga não se restringem a colocar Buda ao lado de Heráclito. Também um grande representante da filosofia chinesa, Lao Tsé, tem, na sua mensagem, palavras que se assemelham àquelas proferidas pelo filósofo pré-socrático.

            Neste pequeno ensaio, contudo, dedicarei minha atenção à ideia de fogo, tentando compreender o papel que este elemento cumpre, enquanto metáfora, analogia ou imagem, na doutrina espiritual de Buda, e na doutrina filosófica de Heráclito.

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brazilla

Foram duas as vezes em que sonhei com o Godzilla.

Quer dizer: eu não sei se era realmente O Godzilla. Era um monstro gigante (um kaiju, ou algo assim). Não me lembro exatamente do seu formato, se era um lagarto, um macaco, um robô, não dava pra ver. Devo dizer, aliás, que essa é a questão mais curiosa que envolve ambos os sonhos: a perspectiva.

Com exceção do filme Hospedeiro, de 2006 e Cloverfield, de 2008, desconheço qualquer outro filme sobre monstros gigantes que se preocupe tanto assim com a questão da perspectiva, o local do observador, e o ponto de onde é possível testemunhar a ação do monstro. No caso do Hospedeiro, o monstro não é tão grande; no caso de Cloverfield, é um dos maiores já retratados no cinema. Ora, pois estamos falando de criaturas que são maiores que edifícios, verdadeiros colossos abissais capazes de sacudirem um continente. De que modo elas podem se tornar terríveis, se não através de uma perspectiva que acentue o seu tamanho impressionante?

Pois bem: nos dois sonhos que eu tive, a perspectiva foi fundamental para as sensações que desfrutei ali.

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buda enquanto um fenômeno da natureza

Este pequeno ensaio, ou exercício, é uma tentativa de interpretar a realização de Buda, ou seja, sua iluminação, como um fenômeno da natureza, e não enquanto conceito derivado de um dado específico de uma cultura específica. Essa premissa, com certeza, se insere bem no meio de uma dicotomia que muitos gostariam de considerar superada, posto que a separação entre natureza e cultura remete a formas específicas de se fazer antropologia e sociologia. Uma tal dicotomia traz enormes consequências para a nossa compreensão do que vem a ser o humano, e de qual é a sua relação com os outros seres e as outras coisas que o cercam, sobretudo, qual é o momento em que a sociedade se funda e quais são as primeiras formas sociais próprias de um tempo ou de um lugar, das quais se destacam as coisas particulares em contraste com as universais – mas não quero, aqui, me atentar para uma discussão metodológica ou conceitual. De qualquer forma, tentarei completar o raciocínio sem apresentar uma definição final de natureza – e aí já temos um desafio que, na brevidade de uns poucos parágrafos, será muito difícil de superar. Deixarei então que o próprio termo “natureza” se defina ao longo do texto, conforme a exposição for adquirindo algum sentido. Até lá, tiraremos proveito de algumas ideias de dois filósofos franceses: Henri Bergson e Gilbert Simondon. O primeiro, Bergson, comumente associado àquilo que se chamaria de intuicionismo e, então, espiritualismo; e Simondon, provavelmente um dos maiores fisicalistas do século XX – não havendo nenhuma tentativa de conciliação entre estas ideias, gostaria apenas de buscar alguma inspiração em suas palavras.

O que quero dizer, então, quando estou sugerindo que a realização do Buda possa ser interpretada como um fenômeno da natureza, e não da cultura? Quero dizer que vou tentar apreender essa realização segundo conceitos que não aportem diretamente nas formas socioculturais que ligam o Buda à sua época e ao seu lugar, mas que ascendam filosoficamente na direção de um sentido que se construa por sobre a própria vida. Quero dizer, então, que as causas que levam à iluminação do Buda se originam numa etapa anterior à existência humana e, portanto, sua realização responde a certas condições existenciais que são compartilhadas também pelos outros seres da natureza sem que eles disponham, tal como os seres humanos dispõem, de uma capacidade igual de ação e consciência. Não se trata, portanto, apenas de uma limitação linguística – a própria concepção budista da existência presume que apenas os seres humanos estão qualificados para a iluminação, e não os animais. Isso acontece porque eles, os humanos, dispõem de um grau a mais de consciência sobre os seus próprios apetites e desejos. Essa ideia, entretanto, não é um consenso total por parte dos budistas. Na verdade, num texto importante como o Sutra do Lótus, podemos encontrar afirmações a respeito da possibilidade de todos os seres estarem destinados à iluminação. Mas penso que esse texto responde a uma ramificação do budismo e o seu conteúdo, demasiadamente alegórico, é, para mim, de difícil interpretação.

Se interpretássemos a ação deo Buda através das categorias sociológicas, poderíamos chamá-lo de profeta, e veríamos na sua primeira ordem de discípulos a reunião de uma comunidade religiosa, ou uma seita dissidente e desviante, portanto, original em relação às tradições hindus. Os estudiosos apontariam para a história social do movimento dos anacoretas e dos buscadores religiosos das florestas da Índia, do qual também são contemporâneos Mahavira e Gosala. Seríamos levados a pensar nos códigos culturais que fundamentam e dão significado à realização do Buda, e que são próprios de um contexto – a saber, a Índia Antiga, no interior da cultura hindu. Concluiríamos então que a cultura se constrói a partir de um referencial que é imediato: o meio. Todas as realizações da cultura também seriam , e nisso incluímos as outras religiões além do budismo, uma realização da natureza em certa medida. É sob a proteção da cultura que a realização do Buda pode se abrigar – como se uma janela se abrisse por um momento muito breve e um pássaro adentrasse a sala. Há outros indivíduos semelhantes a ele, mas, em matéria de compreensão sobre a física da mente, dificilmente encontraremos uma originalidade tão inteligente num indivíduo só, e concordaríamos em dizer que tal aparição não seria possível em nenhum outro lugar e nenhuma outra época. A natureza esperou a cultura abrir certas janelas para poder entrar. Mas se quisermos nos fiar em outra comparação que leve ainda mais em conta a passagem do tempo, o quadro temporal a que estes fenômenos se abrem, pensemos então numa semente que depende de uma certa estação específica do ano para poder germinar.

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as feições infernais do paraíso

O raciocínio parte da seguinte questão: é possível confundir céu e inferno? Sob quais condições seria possível confundir um com o outro? Para além da primeira impressão, como se dá a transição para dentro destes domínios? Ou seja, deve haver algum meio-termo existencial que nos permita elencar, ao mesmo tempo, a partir da mesma sensação e experiência, características infernais e celestes que estejam indiscerníveis à nossa intuição conquanto ainda se encontrem entremeadas? E, na ausência de um tal meio-termo existencial, seria possível que houvesse uma sensação possível de ser desfrutada entre os dois extremos, e qual sensação seria essa?

Estas perguntas, logicamente, envolvem tanto uma definição de céu quanto uma definição de inferno.

Devemos abordar a necessidade dessas definições sob muitas formas. Céu e inferno podem tanto se referir a certos estados psicológicos ou físicos, quanto aos lugares que nossa consciência e alma passam habitar após o seu divórcio com o nosso corpo. Há menções a um submundo povoado pelos mortos em quase todas as culturas religiosas, assim como também céus em que as almas voam livremente. Contudo, a ideia de um inferno cheio de danações, ou de um céu repleto de recompensas, dependeria não apenas de algumas noções teológicas construídas pelo aparato intelectual que cuida de administrar o além-vida, mas também de uma um camada residual de afetos e experiências acumuladas pelos seres humanos ao longo do tempo. Referências a estes lugares existem em diferentes religiões, tanto no cristianismo quanto no budismo, zoroastrismo ou hinduísmo, mas sua paisagem, assim como sua metafísica, costuma variar – algumas coisas se perdendo ou sendo adicionadas conforme cada tradução. O que há, portanto, em comum entre eles?

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o pensamento enquanto música

Apresentarei neste texto duas comparações envolvendo o pensamento e a música, ambas elaboradas por filósofos cujas obras estavam dedicadas às questões mais centrais ao tema da consciência. O primeiro filósofo é o escocês David Hume, e o segundo o francês Henri Bergson – representantes de momentos filosóficos muito diferentes e no entanto participantes de uma mesma discussão, tão grande quanto interminável.

Não pretendo apresentar um resumo ou síntese das ideias de um ou de outro. Se vou apresentar duas comparações, o que farei é algo mais ou menos como comparar duas comparações diferentes. São passagens menores e não tão relevantes de suas obras, mas que, diante da curiosidade, apresentam um curioso potencial. O objetivo é, na verdade, apontar para a recorrência de certas metáforas e analogias usadas para tratar de temas para os quais não dispúnhamos – ou ainda não dispomos – de uma linguagem propriamente definida e modelada para tanto, ou seja, um idioma especializado. Os problemas da mente se confundem com os problemas da consciência que, por sua vez e num certo momento, também se confundiram com os problemas da alma. É claro que, para tentar descrever os processos mentais numa linguagem que fizesse sentido, inúmeras analogias e metáforas foram empregadas nas primeiras pesquisas sobre estes temas. Um conceito, enquanto matéria filosófica, sempre envolve uma síntese ou uma comparação em certa medida, e inúmeros insights e raciocínios, para que façam algum sentido aos nossos costumes, dependem justamente da abrangência das analogias que são colocadas em jogo. Neste caso, acho que vale a pena prestar atenção na maneira com que a música, este estranho fenômeno jamais explicado em sua totalidade, é evocado para explicar ou ilustrar os igualmente estranhos e misteriosos processos mentais relativos às impressões, aos afetos, e às sensações. Um mistério parece explicar o outro mistério ainda que ambos continuem ocultos em suas próprias medidas.

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as artes gravitacionais

O que é a dança? É o movimento de um corpo dotado de cadência e ritmo. Pra que serve a dança? Depende da intenção daqueles que dançam, do contexto em que é dançada, e do sentido dado ao movimento. A dança é a comunicação de alguma coisa? É a expressão de um estado anímico? Qual é o seu berço antropológico? De onde ela provém? Da dança coletiva ritual feita pra encenar alguma coisa, ou mesmo de alguns espasmos corporais sequenciados?

Para além dos seres humanos, a dança pode ser verificada no comportamento das aves, enquanto uma etapa fundamental dos ritos de acasalamento. Em outras circunstâncias, a dança das abelhas, um movimento corporal cadenciado, induz a troca de informação entre o cérebro individual e o cérebro coletivo da colmeia. É uma gramática, afinal.

Se a dança é o movimento ritmado de um corpo, em que outro lugar do universo poderemos encontrar demonstrações de alguma outra dança? A resposta é óbvia e, naturalmente, está no movimento dos corpos celestes cuja dança se revela no céu noturno.

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das atribuições psiconáuticas

O que é a psiconáutica?

É a habilidade de experimentar com os estados da consciência. Por “estados da consciência” compreendo algo diferente das nossas disposições físicas, como a aptidão e o cansaço, ou anímicas, como a histeria e a tristeza. Refiro-me às diversas capacidades perceptivas, sensoriais, de intuição, raciocínio e expressão deflagradas e liberadas pela digestão química de certas substâncias que as estimulam.

A psiconáutica não depende, contudo, destas substâncias. Digamos que a capacidade natural para sonhar, e o nosso interesse de refletir, interpretar, e investigar as camadas do sonho são, é claro, um tipo de psiconáutica, uma vez que envolvem a navegação pela psiquê – como assim sugere a própria etimologia do termo.

O objeto da psiconáutica, portanto, é aquele conjunto de atribuições conferidas à entidade mente-alma (psiquê). Ou, como dissemos anteriormente, a consciência. Se a metáfora apresentada na definição etimológica do termo envolve algum tipo de navegação, então é justamente na movimentação das ondas que devemos pensar quando chegar a hora de tentar elaborar alguma imagem da consciência. Se a psiconáutica envolve uma disposição para experimentar com os estados da consciência, isso nada mais é do que a vontade de explorar os infinitos mares que se abrem ao seu alcance.

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é verdade que usamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral?

É muito pouco provável que você nunca tenha ouvido, em algum momento da sua vida, a história de que nós, seres humanos, usamos apenas 10% de toda a nossa capacidade cerebral. O valor da porcentagem, na verdade, costuma variar. Já encontrei afirmações que diziam que usamos apenas 15%, 20%, ou 25% da nossa mente, e que, se pudéssemos acessar todo o restante do nosso potencial, seríamos capazes de realizar verdadeiras façanhas.

De onde foi que se originou essa história? Costuma-se atribuir a origem dessa ideia aos primórdios do desenvolvimento da psicologia, na virada do século XIX para o XX. Hoje em dia pesquisadores e cientistas entendem que essa hipótese surgiu a partir de uma má compreensão dos estudos dos psicólogos William James e Boris Siddis. A sugestão nasce do deslumbramento em relação às regiões inexploradas do cérebro, e a suspeita de que essas zonas complexas pudessem guardar atividades cerebrais ocultas, até então desconhecidas para nós. A suspeita dessa possibilidade latente na espécie humana teria surgido a partir das pesquisas neurológicas feitas com crianças superdotadas. A má generalização dessa hipótese, aliada à incompreensão do funcionamento dos neurônios naquele período das pesquisas científicas, teria criado as condições para a divulgação desse mito.

Entretanto, acredito que essa explicação não seja suficientemente satisfatória para explicar a popularidade do mito dos 10% na nossa cultura. De fato, se percorrêssemos uma vasta quantidade de produtos culturais, indo desde os filmes de Hollywood, passando pelos livros de ficção científica, e chegando nos livros de autoajuda e programas de coaching, encontraríamos um volume de exemplos realmente acachapante em favor da validade desse mito. Minha hipótese é de que a sua genealogia pode ser extrapolada até contextos mais antigos e recuperada a partir do estudo das religiões.

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sabemos mais sobre Deus hoje do que sabíamos há 2 mil anos?

A pergunta-título deste ensaio surgiu durante uma conversa com um amigo meu, pastor da Igreja Assembleia de Deus. Perguntei a ele se sabemos mais sobre Deus hoje do que sabíamos há dois mil anos. A resposta dele foi um sonoro sim.

Independentemente da existência de Deus (e dos deuses) jamais ter sido comprovada pela ciência moderna, sabemos que os seres humanos são, naturalmente, criaturas dispostas a acreditar em seres superiores, em entidades sobrenaturais, e, sobretudo, num Criador.

É possível que essa crença se converta em conhecimento? É possível ir do crer em direção ao saber? Imagino que cada religião daria uma resposta diferente a esta pergunta. No caso cristão, as palavras de Justiniano parecem ecoar: credo quia absurdum – creio porque é absurdo.

Isso quer dizer que, mesmo com toda a teologia católica, protestante, muçulmana, hindu, nem mesmo com toda a graça, jamais seria possível que atravessássemos o véu dos mistérios divinos. Pelo menos não nesta vida, sob esta forma. Parece estranho, mas não temos como saber se sabemos ou não sobre Deus.

Então por que meu amigo pastor respondeu sim à minha pergunta?

Porque ele entende que hoje há um número maior de pessoas convertidas ao cristianismo, que o paganismo já não é uma ameaça, que há livros, publicações, e conhecimento circulando a respeito da religião cristã. De certo modo, ele quis dizer que o acesso à fé cristã é um incremento no saber sobre Deus – e, segundo ele, a História poderia provar isso.

Mas a minha opinião era outra, bem distinta, porque não estava interessado em confundir o conhecimento sobre Deus com a expansão da fé cristã.

Por isso, todas as palavras desta pergunta-título merecem um esclarecimento.

Comecemos pela palavra de maior gravidade, então: Deus – o substantivo ao redor do qual a pergunta gravita. Sabemos mais sobre Deus hoje do que sabíamos há 2 mil anos? Quem ou qual é o Deus da pergunta? Falamos de Javé, Brahma, Alah, Aura-Masda, do deus cristão, de Zeus, Thor, Anansi, Quetzalcoátl, Osíris, Oxalá, ou de Silap Inue?

É claro que esta pergunta adquire um sentido e um significado diferente de acordo com quem faz, e do local em que ela é feita. A religião, enquanto fenômeno cultural, se divide numa quantidade inestimável de expressões simbólicas diferentes, de modos que não especificar qual é o deus da pergunta pressupõe uma série de operações, e a principal delas é abrandar os nossos critérios. Isso quer dizer que o conhecimento sobre qualquer deus já seria válido para responder a esta pergunta. Não estamos procurando saber a respeito de um deus especificamente. Muito embora as próprias religiões contemporâneas se ocupem de refutar os deuses anteriores e alternativos a elas, em virtude do império da ciência elas precisaram sofisticar e empreender abstrações cada vez menos falseáveis a respeito dos deuses que alegam cultuar. Foi assim que o Jardim do Éden se tornou apenas uma alegoria, e a criação do mundo em 6 dias é um ato poético análogo ao Big Bang. Assim, quando pensamos na probabilidade da existência do deus cristão, não o fazemos a partir das concepções mais antigas deste deus, muito embora os textos antigos e sagrados possam ser evocados, principalmente porque neles podemos encontrar pistas a seu respeitopistas que nos permitem, pelo menos, começar a imaginá-lo. Há diversas formas de crer e nas formas religiosas mais populares não encontraremos tanta sofisticação quanto entre os especialistas. O imaginário religioso não é o mesmo de 2 mil anos atrás. Por mais que se diga o contrário e que uma tal afirmação encontre resistência, sabemos que a Terra não é o centro do Universo.

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