o pensamento enquanto música

Apresentarei neste texto duas comparações envolvendo o pensamento e a música, ambas elaboradas por filósofos cujas obras estavam dedicadas às questões mais centrais ao tema da consciência. O primeiro filósofo é o escocês David Hume, e o segundo o francês Henri Bergson – representantes de momentos filosóficos muito diferentes e no entanto participantes de uma mesma discussão, tão grande quanto interminável.

Não pretendo apresentar um resumo ou síntese das ideias de um ou de outro. Se vou apresentar duas comparações, o que farei é algo mais ou menos como comparar duas comparações diferentes. São passagens menores e não tão relevantes de suas obras, mas que, diante da curiosidade, apresentam um curioso potencial. O objetivo é, na verdade, apontar para a recorrência de certas metáforas e analogias usadas para tratar de temas para os quais não dispúnhamos – ou ainda não dispomos – de uma linguagem propriamente definida e modelada para tanto, ou seja, um idioma especializado. Os problemas da mente se confundem com os problemas da consciência que, por sua vez e num certo momento, também se confundiram com os problemas da alma. É claro que, para tentar descrever os processos mentais numa linguagem que fizesse sentido, inúmeras analogias e metáforas foram empregadas nas primeiras pesquisas sobre estes temas. Um conceito, enquanto matéria filosófica, sempre envolve uma síntese ou uma comparação em certa medida, e inúmeros insights e raciocínios, para que façam algum sentido aos nossos costumes, dependem justamente da abrangência das analogias que são colocadas em jogo. Neste caso, acho que vale a pena prestar atenção na maneira com que a música, este estranho fenômeno jamais explicado em sua totalidade, é evocado para explicar ou ilustrar os igualmente estranhos e misteriosos processos mentais relativos às impressões, aos afetos, e às sensações. Um mistério parece explicar o outro mistério ainda que ambos continuem ocultos em suas próprias medidas.

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é verdade que usamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral?

É muito pouco provável que você nunca tenha ouvido, em algum momento da sua vida, a história de que nós, seres humanos, usamos apenas 10% de toda a nossa capacidade cerebral. O valor da porcentagem, na verdade, costuma variar. Já encontrei afirmações que diziam que usamos apenas 15%, 20%, ou 25% da nossa mente, e que, se pudéssemos acessar todo o restante do nosso potencial, seríamos capazes de realizar verdadeiras façanhas.

De onde foi que se originou essa história? Costuma-se atribuir a origem dessa ideia aos primórdios do desenvolvimento da psicologia, na virada do século XIX para o XX. Hoje em dia pesquisadores e cientistas entendem que essa hipótese surgiu a partir de uma má compreensão dos estudos dos psicólogos William James e Boris Siddis. A sugestão nasce do deslumbramento em relação às regiões inexploradas do cérebro, e a suspeita de que essas zonas complexas pudessem guardar atividades cerebrais ocultas, até então desconhecidas para nós. A suspeita dessa possibilidade latente na espécie humana teria surgido a partir das pesquisas neurológicas feitas com crianças superdotadas. A má generalização dessa hipótese, aliada à incompreensão do funcionamento dos neurônios naquele período das pesquisas científicas, teria criado as condições para a divulgação desse mito.

Entretanto, acredito que essa explicação não seja suficientemente satisfatória para explicar a popularidade do mito dos 10% na nossa cultura. De fato, se percorrêssemos uma vasta quantidade de produtos culturais, indo desde os filmes de Hollywood, passando pelos livros de ficção científica, e chegando nos livros de autoajuda e programas de coaching, encontraríamos um volume de exemplos realmente acachapante em favor da validade desse mito. Minha hipótese é de que a sua genealogia pode ser extrapolada até contextos mais antigos e recuperada a partir do estudo das religiões.

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