pequeno ensaio sobre o homem-formiga

Seria possível realizar mentalmente os poderes do Homem-Formiga?

Imaginemos a sua figura.

Imaginemos o Homem-Formiga tornando-se infinitamente pequeno, reduzindo seu tamanho.

A cada segundo, metade do que era.

Consideremos, então, a pequenez. A pequenez enquanto um delírio. O delírio de alguém que se põe a admirar a sua criação em seus mínimos detalhes. Um artífice, um matemático, um arquiteto, um filósofo. É preciso diminuir o tamanho do pensamento, dobrá-lo sobre si mesmo, reduzi-lo a uma simulação microscópica de si mesmo.

A vontade que cria o superpoder do Homem-Formiga é a da sabotagem e da infiltração. Uma ideia microscópica poderia imiscuir-se no pensamento de alguém. Sem que se perceba. A sabotagem depende de frestas e de falhas que tornam a estrutura vulnerável. O Homem-Formiga tem a possibilidade de verificar de perto a estreiteza, e a espessura de cada fresta de seu próprio pensamento.

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o Gênio e os gênios

O Gênio – ele é grande e azul, e lembra o formato de um balão. O desenho de um pensamento.

Suas linhas fazem curvas fluídas e elegantes, seus contornos são claros e desobstruídos. Além disso, ele tem a capacidade de emoldurar outras personalidades em outras posturas, outros rostos, outras vozes.

Ele é simultâneo, e anacrônico, dois comportamentos impossíveis relacionados ao tempo do mundo – pontualidade e atraso, sincronia dessincronizada.

O pensamento, nada mais que pura informação, se está sempre na ponta da língua, não encontra dificuldades em se expressar. Assume, para tanto, milhares de fantasias, símbolos, cores e idiomas. O gênio, como não poderia deixar de ser, é genial.

E está preso num objeto: a lâmpada, item cuja função é iluminar. Iluminar é o efeito último da razão esclarecedora, força do pensamento. É a própria Razão (com R maiúsculo), pois é quem discerne, dentro do reino da genialidade, aquilo que é imaginação e aquilo que é conhecimento. Se uma ideia nos parece obscura, logo fazemos questão de esclarecê-la, iluminando seu sentido.

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o que o hexagrama 36 do I Ching tem a dizer sobre o governo do Brasil?

A primeira vez que ouvi falar do I Ching O Livro das Mutações, foi a partir da obra do compositor americano John Cage. Sua peça, Music of Changes, se utilizava do milenar livro chinês para compor uma peça musical inteiramente feita através do acaso. Era interessante notar como, neste caso, o vanguardista americano recorria à sabedoria oriental para elaborar uma obra musical neodadaísta, a partir de uma montagem caótica.

Acho que isso foi o suficiente pra atiçar minha curiosidade a respeito do I Ching. Afinal, o que era este livro? De onde vinha? Pra que servia?

Grosso modo, trata-se de um livro voltado para adivinhações, e foi escrito há mais ou menos 2.500 anos. É o livro mais antigo e mais conhecido da literatura antiga da China. Seu uso se popularizou por volta do século VIII a.C (quando imagina-se que tenha alcançado o formato atual), nas mãos dos membros da corte, eruditos, e cleromantes. Ao longo de sua existência, foi interpretado pelas vias do taoísmo, do confucionismo e do budismo, e, na mesma medida, esteve sujeito às influências de todas estas correntes filosóficas. Em outras palavras: a importância histórica e cultural do I Ching é inestimável.

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100 perguntas (algumas não tão boas) para os nossos tempos

1. O que acontece a uma pessoa se ela não se interessar por política?

2. Por que gostamos de perder o controle em algumas situações?

3. Qual foi a festa mais divertida já celebrada?

4. Como nasce um vício?

5. Por que tornou-se tão difícil convencer alguém sobre qualquer coisa?

6. Algum dia as religiões desaparecerão?

7. Como se descobre um deus?

8. Qual foi o funeral mais triste em volume de lágrimas?

9. Qual é a melodia mais cantada secretamente?

10. Qual será a primeira palavra inventada por um animal a ser acrescentada em um dicionário?

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o brasil dos vampiros psíquicos

Venho do futuro para dizer aos habitantes deste século que as coisas mudaram e que as coisas continuarão mudando.

Não gastei a viagem à toa. Pelos caminhos que levam para dentro do Brasil os nativos deixaram um pouco de tudo sob a poeira.

Sei por exemplo que ainda vigora o feitiço de um selvagem que do meio da selva para sempre amaldiçoou os invasores desta terra, e que a catiça foi braba o bastante pra ninguém percebê-la.

Ninguém sabe bem o que tem lá pra dentro do país. Nem índio, nem preto, nem europeu. A tinta vermelha que dá nome à pátria não aparece na bandeira.

Dizem que não aparecerá jamais.

Sei que até o ano de 2100 os grupos de compartilhamento de mensagem terão formado profundas galerias de arquivos a serem escavados e reescavados por inteligências artificiais eternamente dedicadas à fabricação de feiquinius, emaranhadas em grandes nodos de informação que se coligiram por vontade própria.

Os comitês de engenharia ideológica, espalhados no multiverso digital, semeiam logaritmos que disparam trilhões de mensagens para infinitos planos de dimensão possíveis, programando-os para fixarem-se apenas naqueles onde sucedem-se segundos turnos tão terríveis quanto este do atual presente que visito.

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o deus que existe

Alguns cientistas tântricos compartilham de uma mesma ideia segundo a qual a criação do cosmo é um adensamento de vontades que até então permaneciam contidas em um eterno estado de sutileza.

Assim, do Nada teria surgido alguma coisa, que é a Matéria – do não-manifesto ao manifestado. Da energia à matéria. Da matéria aos elementos do universo, a natureza, e os animais.

Muitos veem nisso um gesto da Grande Mente Cósmica feito na tentativa de entender a si mesma, produzindo a multiplicidade a partir da unidade.

Este gesto poderia ser descrito de forma circular. Noutras vezes já foi descrito como uma dança. O alcance mais extremo deste gesto é o ponto em que Deus se diferencia de si mesmo. Nesta diferenciação se amplia a distância entre o criador e a criatura, e, por meio dela, é dada à criatura a liberdade de se esquecer do criador, e, portanto, de sua origem divina. Após a ação criativa, há, ainda um movimento de retorno. O que se entende por um movimento de retorno, depois da culminação da multiplicação da vida, da qual resulta, por exemplo, a espécie humana, é uma vontade de regresso ao seio divino.

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sobre a vontade de peidar em lugares sagrados

“É indelicado cumprimentar alguém que esteja urinando ou defecando.

A pessoa bem-educada sempre deve evitar expor, sem necessidade, as partes às quais a natureza atribuiu pudor. Se a necessidade a compele, isto deve ser feito com decência e reserva, mesmo que ninguém mais esteja presente. Isto porque os anjos estão sempre presentes e nada mais lhe agrada em um menino do que pudor, o companheiro e guardião da decência. Se produz vergonha mostrá-las aos olhos dos demais, ainda menos devem ser elas expostas pelo toque.

Prender a urina é prejudicial à saúde e urinar em segredo diz bem do pudor. Há aqueles que ensinam que o menino deve prender os gases, comprimindo-os no intestino. Mas não é conveniente, esforçando-se para parecer educado, contrair uma doença. Se for possível retirar-se do ambiente, que isto seja feito a sós. Mas, em caso contrário, de acordo com o antigo provérbio, que a tosse esconda o som. Além do mais, por que esses mesmos trabalhos não ensinam que meninos não devem defecar, uma vez que é mais perigoso prender os gases do que conter os intestinos?

Para contrair uma doença: escute a velha máxima sobre o som do vento. Se ele puder ser solto sem ruído, isto será melhor. Mas, ainda assim, melhor ser solto com ruído do que contido.

A esta altura, porém, teria sido útil suprimir a sensação do embaraço de modo ou a acalmar o corpo ou, seguindo o conselho de todos os médicos, apertar bem juntas as nádegas e agir de acordo com as sugestões do epigrama de Aethon: fazia de tudo para não peidar explosivamente em lugar sagrado, e orou a Zeus, embora com as nádegas comprimidas. O som do peido, especialmente das pessoas que se encontram em lugar elevado, é horrível. Sacrifícios devem ser feitos, com as nádegas fortemente comprimidas.

Tossir para ocultar o som explosivo: aqueles que, porque estão embaraçados, não querem que o vento explosivo seja escutado, simulam um ataque de tosse. Siga a regra das Quilíades: substitua os peidos por acessos de tosse.”

(Erasmo de Roterdã, De civilitate morum puerilium, 1530).