o Gênio e os gênios

O Gênio – ele é grande e azul, e lembra o formato de um balão. O desenho de um pensamento.

Suas linhas fazem curvas fluídas e elegantes, seus contornos são claros e desobstruídos. Além disso, ele tem a capacidade de emoldurar outras personalidades em outras posturas, outros rostos, outras vozes.

Ele é simultâneo, e anacrônico, dois comportamentos impossíveis relacionados ao tempo do mundo – pontualidade e atraso, sincronia dessincronizada.

O pensamento, nada mais que pura informação, se está sempre na ponta da língua, não encontra dificuldades em se expressar. Assume, para tanto, milhares de fantasias, símbolos, cores e idiomas. O gênio, como não poderia deixar de ser, é genial.

E está preso num objeto: a lâmpada, item cuja função é iluminar. Iluminar é o efeito último da razão esclarecedora, força do pensamento. É a própria Razão (com R maiúsculo), pois é quem discerne, dentro do reino da genialidade, aquilo que é imaginação e aquilo que é conhecimento. Se uma ideia nos parece obscura, logo fazemos questão de esclarecê-la, iluminando seu sentido.

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o que o hexagrama 36 do I Ching tem a dizer sobre o governo do Brasil?

A primeira vez que ouvi falar do I Ching O Livro das Mutações, foi a partir da obra do compositor americano John Cage. Sua peça, Music of Changes, se utilizava do milenar livro chinês para compor uma peça musical inteiramente feita através do acaso. Era interessante notar como, neste caso, o vanguardista americano recorria à sabedoria oriental para elaborar uma obra musical neodadaísta, a partir de uma montagem caótica.

Acho que isso foi o suficiente pra atiçar minha curiosidade a respeito do I Ching. Afinal, o que era este livro? De onde vinha? Pra que servia?

Grosso modo, trata-se de um livro voltado para adivinhações, e foi escrito há mais ou menos 2.500 anos. É o livro mais antigo e mais conhecido da literatura antiga da China. Seu uso se popularizou por volta do século VIII a.C (quando imagina-se que tenha alcançado o formato atual), nas mãos dos membros da corte, eruditos, e cleromantes. Ao longo de sua existência, foi interpretado pelas vias do taoísmo, do confucionismo e do budismo, e, na mesma medida, esteve sujeito às influências de todas estas correntes filosóficas. Em outras palavras: a importância histórica e cultural do I Ching é inestimável.

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100 perguntas (algumas não tão boas) para os nossos tempos

1. O que acontece a uma pessoa se ela não se interessar por política?

2. Por que gostamos de perder o controle em algumas situações?

3. Qual foi a festa mais divertida já celebrada?

4. Como nasce um vício?

5. Por que tornou-se tão difícil convencer alguém sobre qualquer coisa?

6. Algum dia as religiões desaparecerão?

7. Como se descobre um deus?

8. Qual foi o funeral mais triste em volume de lágrimas?

9. Qual é a melodia mais cantada secretamente?

10. Qual será a primeira palavra inventada por um animal a ser acrescentada em um dicionário?

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o brasil dos vampiros psíquicos

Venho do futuro para dizer aos habitantes deste século que as coisas mudaram e que as coisas continuarão mudando.

Não gastei a viagem à toa. Pelos caminhos que levam para dentro do Brasil os nativos deixaram um pouco de tudo sob a poeira.

Sei por exemplo que ainda vigora o feitiço de um selvagem que do meio da selva para sempre amaldiçoou os invasores desta terra, e que a catiça foi braba o bastante pra ninguém percebê-la.

Ninguém sabe bem o que tem lá pra dentro do país. Nem índio, nem preto, nem europeu. A tinta vermelha que dá nome à pátria não aparece na bandeira.

Dizem que não aparecerá jamais.

Sei que até o ano de 2100 os grupos de compartilhamento de mensagem terão formado profundas galerias de arquivos a serem escavados e reescavados por inteligências artificiais eternamente dedicadas à fabricação de feiquinius, emaranhadas em grandes nodos de informação que se coligiram por vontade própria.

Os comitês de engenharia ideológica, espalhados no multiverso digital, semeiam logaritmos que disparam trilhões de mensagens para infinitos planos de dimensão possíveis, programando-os para fixarem-se apenas naqueles onde sucedem-se segundos turnos tão terríveis quanto este do atual presente que visito.

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o deus que existe

Alguns cientistas tântricos compartilham de uma mesma ideia segundo a qual a criação do cosmo é um adensamento de vontades que até então permaneciam contidas em um eterno estado de sutileza.

Assim, do Nada teria surgido alguma coisa, que é a Matéria – do não-manifesto ao manifestado. Da energia à matéria. Da matéria aos elementos do universo, a natureza, e os animais.

Muitos veem nisso um gesto da Grande Mente Cósmica feito na tentativa de entender a si mesma, produzindo a multiplicidade a partir da unidade.

Este gesto poderia ser descrito de forma circular. Noutras vezes já foi descrito como uma dança. O alcance mais extremo deste gesto é o ponto em que Deus se diferencia de si mesmo. Nesta diferenciação se amplia a distância entre o criador e a criatura, e, por meio dela, é dada à criatura a liberdade de se esquecer do criador, e, portanto, de sua origem divina. Após a ação criativa, há, ainda um movimento de retorno. O que se entende por um movimento de retorno, depois da culminação da multiplicação da vida, da qual resulta, por exemplo, a espécie humana, é uma vontade de regresso ao seio divino.

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sobre a vontade de peidar em lugares sagrados

“É indelicado cumprimentar alguém que esteja urinando ou defecando.

A pessoa bem-educada sempre deve evitar expor, sem necessidade, as partes às quais a natureza atribuiu pudor. Se a necessidade a compele, isto deve ser feito com decência e reserva, mesmo que ninguém mais esteja presente. Isto porque os anjos estão sempre presentes e nada mais lhe agrada em um menino do que pudor, o companheiro e guardião da decência. Se produz vergonha mostrá-las aos olhos dos demais, ainda menos devem ser elas expostas pelo toque.

Prender a urina é prejudicial à saúde e urinar em segredo diz bem do pudor. Há aqueles que ensinam que o menino deve prender os gases, comprimindo-os no intestino. Mas não é conveniente, esforçando-se para parecer educado, contrair uma doença. Se for possível retirar-se do ambiente, que isto seja feito a sós. Mas, em caso contrário, de acordo com o antigo provérbio, que a tosse esconda o som. Além do mais, por que esses mesmos trabalhos não ensinam que meninos não devem defecar, uma vez que é mais perigoso prender os gases do que conter os intestinos?

Para contrair uma doença: escute a velha máxima sobre o som do vento. Se ele puder ser solto sem ruído, isto será melhor. Mas, ainda assim, melhor ser solto com ruído do que contido.

A esta altura, porém, teria sido útil suprimir a sensação do embaraço de modo ou a acalmar o corpo ou, seguindo o conselho de todos os médicos, apertar bem juntas as nádegas e agir de acordo com as sugestões do epigrama de Aethon: fazia de tudo para não peidar explosivamente em lugar sagrado, e orou a Zeus, embora com as nádegas comprimidas. O som do peido, especialmente das pessoas que se encontram em lugar elevado, é horrível. Sacrifícios devem ser feitos, com as nádegas fortemente comprimidas.

Tossir para ocultar o som explosivo: aqueles que, porque estão embaraçados, não querem que o vento explosivo seja escutado, simulam um ataque de tosse. Siga a regra das Quilíades: substitua os peidos por acessos de tosse.”

(Erasmo de Roterdã, De civilitate morum puerilium, 1530).

a autoformação do indivíduo na poesia

“Tudo se passa como se o espírito grego precisasse de Safo para dar seu último passo no mundo da intimidade do sentimento subjetivo. Os gregos deviam ter sentido isso como algo de muito grande quando, no dizer de Platão, honraram Safo como a décima musa. A poesia feminina não é insólita na Grécia. Mas nenhum colega na arte chegou à altura de Safo. Esta é singular. Comparada, porém, com a poesia de Alceu, a lírica de Safo é muito limitada. Está circunscrita ao mundo das mulheres que a rodeiam, e ainda assim sob o ponto de vista da vida em comum entre a poetisa e o círculo de suas donzelas. A mulher como mãe, amante ou esposa, que aparece na poesia grega e é celebrada pelos poetas de todos os tempos, dado que é com essa imagem que vive na fantasia do homem, não aparece na poesia de Safo senão fortuitamente, por motivo de ingresso ou da saída de algumas donzelas do seu círculo. A mulher entra no seu círculo como a garotinha que acabou de deixar o círculo materno. Sob a proteção de uma mulher solteira, cuja vida está votada, como a de uma sacerdotisa, ao serviço das musas, recebe a consagração da beleza, por meio de danças, cânticos e jogos.

Nunca a poesia e a educação se interpenetraram tão intimamente como nesse thiasos feminino consagrado à música. O seu âmbito espiritual não coincide com os limites da poesia de Safo, mas estende-se e envolve toda a beleza do passado. As odes de Safo acrescentam ao espírito heroico da tradição masculina o fervor e a grandeza da alma feminina em que vibra o elevado sentimento da vida comunitária. Entre a casa materna e a vida matrimonial situa-se uma espécie de mundo ideal intermediário que só podemos conceber como uma educação da mulher de acordo com a mais alta nobreza da alma feminina. A existência no círculo de Safo pressupõe a concepção educativa da poesia, evidente para os gregos desse tempo. Mas o que ali há de grande e de novo é que a mulher exige a entrada nesse mundo e nele conquista, na sua qualidade de mulher, o lugar que lhe cabe por direito, porque se trata de uma verdadeira conquista. Por ela, a mulher tem acesso ao serviço das musas e esse elemento funde-se com o processo da formação de sua personalidade. Contudo, essa fusão essencial pela qual se alcança em sentido próprio a formação do Homem não se pode realizar sem o poder do éros que une as potências das almas.

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