maneiras curiosas de ir à guerra

As guerreiras bafudas

O aventureiro e explorador espanhol Francisco de Orellana é o responsável pela primeira menção às amazonas feita em terras do Novo Mundo, no início do século XVI. A lenda das mulheres guerreiras conhecidas por tal nome remete a um repertório de conteúdo clássico, mas a sua ocorrência não se limita apenas à Europa ou ao mundo helênico. As amazonas citadas pelo grego Heródoto habitavam em algum lugar próximo ao reino dos sármatas, na costa do Mar Negro. Para Orellana, as amazonas sul-americanas habitariam algum lugar da densa floresta tropical, hoje bem próximo às Guianas.

Em sua viagem, que atravessou todo o Rio Amazonas, não há nenhuma menção às guerreiras bafudas que aparecem nas lendas mati – distantes de Orellana tanto no tempo como no espaço, uma vez que seu reino estaria mais próximo do Peru, no Vale do Javari, no Alto Solimões, e suas histórias remetam a acontecimentos mais recentes.

Os contadores de histórias da tribo dos mati oferecem uma imagem bastante exótica dessas guerreiras, tanto medo e terror elas levaram aos seus inimigos, brancos ou até mesmo outros índios. Diferentemente de suas parentes históricas, que, pelo que contam, tinham o hábito de arrancar o seio esquerdo para facilitar o manejo do arco, as guerreiras bafudas (é assim que os mati as chamam em seu idioma) não faziam uso de qualquer tipo de arma que não fosse o tacape.

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versões indígenas

076 Rund-Maloca der Tukuna, NW-Brasilien

É considerável a quantidade de visões religiosas, cosmogonias, ou lendas que evoquem, ainda que de um ponto distante, o mito-edênico, a queda do Homem de um estado paradisíaco original onde não se distinguia da natureza para um outro, mais abaixo, em que, possuindo linguagem, é capaz de diferenciar-se dos animais e da natureza, e, por isso mesmo, visualizar o grau de sua condenação.

Outrossim, a obra de Eduardo Viveiros de Castro aparece como expressão máxima daquilo que seria uma novidade para o pensamento moderno, na medida em que oferece uma inversão de certas convenções etnológicas: o perspectivismo ameríndio – generalização teórica do processo de produção do ponto de vista dentro de sociedades selvagens como os araweté, yanomami e juruna, e segundo o qual a Queda não é protagonizada pelo Homem, mas pelos animais. Em outras palavras: quem se diferiu da humanidade foram os animais, os quais ainda convivem de acordo com uma humanidade própria, camuflada por sua roupagem animal.

Como exemplo do primeiro caso, contudo, penso no mito dos marubo, bem representado pelo título do livro em que o encontrei, “Quando a Terra deixou de falar”, de Pedro de Niemeyer Cesarino [Editora 34; 2013].

Segundo os marubos, o mundo teria passado por um processo de silenciamento, ocasionado pelo povo sol (Vari Nawavo) como punição para o comportamento sexual dos antigos. Em outro episódio, o silenciamento é resultado do feitiço de Kana Voã, um herói de suas narrativas, que decide silenciar o Céu, porque, através de seus trovões, estaria cobiçando os habitantes da Terra daqui abaixo. A concepção que os marubo possuem dos espíritos, das formas da natureza, e da atuação do demiurgo que as criou é suficientemente complexa pra que eu não tente resumi-las aqui, mas o depoimento do xamã Armando Mariano é bastante curioso. Transcrevo:

As colinas de terra falavam…

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O Pior Momento da História da Televisão Brasileira

hqdefault Esqueça os domingos tediosos da banheira do Gugu. Esqueça os testes de fidelidade e a risada do João Kléber. Esqueça os exames de DNA do Ratinho. Esqueça o episódio do Edifício Joelma no Linha Direta. Esqueça os barracos nos programas de auditório em que as famílias vão resolver suas diferenças. Esqueça o Esquenta. Esqueça o Big Brother. Esqueça as piadas sem graça do Marco Luque. Esqueça o close nas bundas das panicats. Esqueça o novo programa do Adnet. Esqueça a MTV. Esqueça o show de calouros do Raul Gil. Esqueça o E.T e o Rodolfo acordando as celebridades. Esqueça a Ana Maria Braga. Esqueça a Dança dos Famosos.

O pior momento da televisão brasileira foi protagonizado por ninguém menos que a rainha dos baixinhos, a Sra. Xuxa Meneghel, em 1989, acompanhada por um grupo de varões e crianças indígenas. No ar o programa Xou da Xuxa. A duração da catástrofe é o tempo que ela levou para cantar um de seus sucessos na época: a canção “Vamos Brincar de Índio”. O presente dado pelo Maurício Sherman ao público brasileiro é portador de um cinismo tão atroz que a maioria das pessoas fica simplesmente embasbacada e incrédula ao testemunhar esse registro. Ao término da tortura é quase impossível alguém deixar de se perguntar: “quem teve essa maldita ideia?”.

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A guerra nas sociedades selvagens

Cave_paintings

“Foi o descobrimento da América que, como se sabe, forneceu ao Ocidente a ocasião de seu primeiro encontro com aqueles que, desde então, seriam chamados de selvagens. Pela primeira vez os europeus viram-se confrontados com um tipo de sociedade radicalmente diferente de tudo o que até então conheciam, precisaram pensar uma realidade social que não podia ter lugar em sua representação tradicional do ser social: em outras palavras, o mundo dos selvagens era literalmente impensável para o pensamento europeu. Aqui não é o lugar de analisar em detalhe as razões dessa verdadeira impossibilidade epistemológica: elas se relacionam à certeza, coextensiva a toda a história da civilização ocidental, sobre o que é e o que deve ser a sociedade humana, certeza expressa desde a aurora grega do pensamento europeu do político, da polis, na obra fragmentária de Heráclito. A saber, que a representação da sociedade como tal deve encarnar-se na figura do Um exterior à sociedade, na disposição hierárquica do espaço político, na função de comando do chefe, do rei ou do déspota: só há sociedade sob o signo de sua divisão em Senhores e Súditos. Resulta dessa visão do social que um grupo humano que não apresente o caráter da divisão não pode ser considerado uma sociedade. Ora, quem é que os descobridores do Novo Mundo viram surgir nas praias atlânticas? “Gente sem fé, sem lei, sem rei”, segundo os cronistas do século XVI. A causa era assim entendida: esses homens no estado de natureza não haviam ainda chegado ao estado de sociedade. Quase unanimidade, perturbada apenas pelas vozes discordantes de Montaigne e La Boétie, nesse julgamento sobre os índios do Brasil.

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