Eros e Tânatos

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“‘Ludwig, um pouquinho de sado-masô não faz mal a ninguém.’
‘Quem disse?’
‘Sigmund Freud. Como é que eu sei? Mas por que é que nos ensinam sentir uma vergonha automática sempre que o assunto vem à baila? Por que é que a Estrutura permite todos os outros comportamentos sexuais, menos esse? Porque submissão e dominação são recursos de que ela precisa para sua própria sobrevivência. Não se pode desperdiçá-los na sexualidade individual. Aliás em sexualidade alguma. Ela precisa da nossa submissão para permanecer no poder. Precisa de nosso desejo de dominação para nos cooptar para seus jogos de poder. Não há prazer nisso, só poder. Vou lhe dizer uma coisa: se fosse possível instaurar o sado-masô em escala universal, no nível da família, o Estado morreria à míngua.'”

Thomas Pynchon, O Arco-Íris da Gravidade [Cia. das Letras; tradução de Paulo Henriques Britto]

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Estejam atentos

ET-Biberman

“- Por que é que alguém tem uma ‘visão melhor sobre as coisas’? Por que é que, quando exigimos mais objetividade, falamos em clareza? Associamos a lucidez ao bom olhar, à boa visão, a visão do caçador. Ao passo que todos pensam em limpar a vista, também há quem fale em desentupir os ouvidos. Já houve quem confundiu o som de tiros de canhão com o de um terremoto, mas não se esqueçam: há uma doença comum entre os especialistas da leitura labial, que só é adquirida após muitos anos de trabalho. Alguns chamam isso de problema de imaginação, ao mesmo tempo em que o que ocorre é um verdadeiro excesso dela, provocado pelo acumulo dos anos em que o indivíduo passou lendo os lábios alheios. A noção de diferença foge em direção ao que se diz e o que se quer que seja dito, o que pode ser dito, os movimentos feitos pela boca. A vítima começa a ver semelhanças em tudo, e passa a, literalmente, inventar os diálogos que pensa ter lido, quando alguma semelhança indica a ela que já pode ter ouvido isso em algum lugar. Alguns chamam isso de enfermidade, outros de síndrome. O cérebro torna-se preguiçoso. É como quando tentamos resolver apenas de cabeça certas operações matemáticas que já conhecemos. Os referenciais derivados das experiências anteriores acabam impedido que outros apareçam. A leitura labial é uma técnica bem apurada. Há alguns truques e segredos que esses heróis desenvolveram para evitar a perda dos referenciais. Não percam de vista a língua, nem o olhar. Evitem as semelhanças. Já lidei com inimigos que treinaram o suficiente para conquistarem o divórcio dos olhos com a boca, conseguindo assim enganar os que os leem, levando-os a crer, pelo olhar, que disseram algo triste, ao passo que todos em volta deram risada. Mais ou menos como aquela música dos Bee Gees: I Started a Joke.”

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“A vida do indivíduo, quando vista no seu todo e em seu geral, quando apenas seus traços mais significativos são enfatizados, é realmente uma tragédia; porém, percorrida em detalhes, possui o caráter de comédia, pois as labutas e vicissitudes do dia, os incômodos incessantes dos momentos, os desejos e temores da semana, os acidentes de cada hora, sempre produzidos por diatribes do acaso brincalhão, são puras cenas de comédia. Mas os desejos nunca satisfeitos, os esforços malogrados, as esperanças pisoteadas cruelmente pelo destino, os erros desafortunados de toda a vida junto com o sofrimento crescente e a morte ao fim, sempre nos dão uma tragédia”

Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação [Editora Unesp; tradução de Jair Barboza]

Problemas com a Aviação

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“O senhor, no seu estabelecimento, também tem enfrentado problemas com aviadores?”.

“Sim. Semana passada abati dois deles no banheiro feminino, que é quase sempre onde os encontro. Procurei o controle de pragas, mas eles disseram que a aviação não é problema deles.”

“Tinha um senhor a quem sempre recorríamos nesses casos, mas ele já se aposentou, e ninguém o substituiu. Tinha um certo amor pela profissão, e cobrava mais barato também. Costumava atender aqui nas redondezas.”

“Acho que isso é tudo culpa do clima. Pode ser que, com as chuvas que vão entrar agora, essas pragas dêem uma sumida. O tempo tem estado muito seco.”

Em Sonhos


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“Sonhei com um mosteiro. Era também um internato. As coisas existiam em seus menores detalhes, como se fossem ilusões de uma outra vida simultânea a essa (e é exatamente isso que são). Eu, e mais alguns de quem não lembro o rosto, éramos estudantes, e perambulávamos pelos corredores do mosteiro. Mas os sonhos brincam com o tempo, e naquilo que foram poucas horas de sono, pude sonhar com semanas e meses. Experimentei o dia-a-dia e a rotina daquele lugar. Dormi e acordei dentro do próprio sonho, e estava calor na cama do mosteiro – lembro-me de que o suor escorria e encharcava os lençóis do pequeno quarto que eu tinha naquele sonho.

Haviam outros personagens. Por exemplo os professores, que humilhavam os alunos. Um impulso me faz desafiá-los.

O mosteiro é enorme, construído pela mais caprichosa das alvenarias. Num grande salão chegavam as escadarias que davam para as alas. Pareço estar muito satisfeito, muito feliz por estar ali, desfrutando de tudo.

De repente acordo deste sonho, mas ainda estou sonhando. É como se fosse um sonho dentro do outro. Tenho consciência de que o que vivi naquele mosteiro foi apenas um sonho, mas ainda estou sonhando sem sabê-lo. Não acordei de fato. De qualquer forma, neste outro sonho, o mosteiro persiste, mas agora estou do lado de fora dele. Quero voltar para lá. Estou triste porque sei que o que vivi ali foi apenas um sonho. Converso com os outros, que também parecem ter experimentado a mesma coisa, tendo sido aquele lugar um sonho ou não, e pergunto como estão as coisas. Em dado momento estou dentro do mosteiro, com minhas malas, escolhendo qual vai ser meu novo quarto, em que ala vou morar.

E então acordo de novo, só que dessa vez de verdade, porque tenho a necessidade de ir ao banheiro. Volto a dormir em pouco tempo, porque estou cansado. Eis que sonho com o mosteiro de novo. Uma cidade cresceu em volta dele, com praças e prédios. Há uma fila para a entrada do mosteiro. Vai acontecer uma festa. É uma festa à fantasia, e eu estou na fila. Verifico meus bolsos e percebo que esqueci os convites. Então acordo.”

Diário de Sonho

Gosma

“Todo brasileiro já se irritou com o próprio país. Todo cidadão deste país, alguma vez na vida, já esteve diante de alguma situação absurda que o fez dizer para si mesmo: “isso é o Brasil!”. Mas o que é “isso”? À frustração do “isso” soma-se também uma satisfação. Ambos os sentimentos, frustração e satisfação, contudo, derivam de uma ilusão anterior até mesmo à experiência que os produz: “isso” é um elemento de diferenciação. É o que torna o Brasil um monumento de espanto e admiração para o próprio brasileiro – é o que os torna especiais e diferentes dos outros povos e culturas, que eles sequer conhecem. Estou frustrado porque somente neste país em que vivo tal absurdo é permitido e até mesmo recorrente; estou satisfeito porque isto diferencia o meu país de todos os outros. Mas essa satisfação é uma satisfação torpe, como qualquer emoção promovida por uma alucinação. Qual droga causou em nós esse efeito? Dizemos “isso é o Brasil” em situações extremas: o Brasil é tanto o samba de Pixinguinha quanto aquele castelo construído por um deputado com o dinheiro desviado de algum quinhão qualquer. Nenhum absurdo é exclusividade do Brasil, tampouco da Rússia ou da Índia. O prejuízo é sempre público – o tolo que comemora sua singularidade nas feições da região da qual provém é um tolo que apenas ficou no meio do caminho. Nenhuma vitória pode constatar a pátria ou redimi-la – apenas o esporte (e até mesmo só alguns deles), o Prêmio Nobel e o Oscar são instituições suficientemente válidas para fazê-lo em nome do povo.”