o teste de personalidade do dr. zao

Dentre as inúmeras e excêntricas contribuições do cientista húngaro Dr. Ivan Zao para a psicologia contemporânea do século XXI, consta o vasto teste de personalidade que ele sabiamente chamava de “Teste de Imaginação”. Por meio de um questionário bastante heterogêneo, o Dr. Zao intentava oferecer aos seus pacientes um numeroso e abrangente rol de perguntas que pudessem funcionar como gatilho para uma profunda investigação da paisagem pessoal de seus pacientes tendo como pano de fundo a cultura humana, anseios e capacidades de criação e imaginação ajustadas a hipóteses e situações sociais reais e/ou impossíveis.

A ideia combinava técnicas extraídas do psicodrama, da psicomagia, testes de personalidade disponíveis na Internet, do tarô, da mitologia, contos populares antigos, além de diversas outras formas de aparatos lúdicos e narrativos, e, em sua versão original, possuía um repertório de 436 perguntas percorrendo as mais variadas áreas da vida, da história, das atividades, gostos e crenças gerais.

Após ter submetido ao teste inúmeros pacientes seus, além de voluntários, intelectuais e celebridades, o Dr. Zao também trabalhou para a elaboração de um amplo mapa simbólico das respostas possíveis para cada uma das perguntas, muitas delas sugeridas por aqueles que haviam participado das primeiras versões. O mapa acabou resultando num dicionário-guia com mais de 6.500 verbetes, além de outras 90.000 combinações possíveis de respostas, geradas por computador.

Uma das características centrais do teste era a sua total abertura para a intervenção do público, seu caráter permanentemente adaptável à inventividade do participante. Além disso, o seu criador, o Dr. Zao, dizia orgulhar-se de ter criado um procedimento ao final do qual era o próprio paciente quem produzia seu veredito e diagnóstico, conquanto aprendesse a entender o seu poder de sugestão.

Aqui encontramos uma seleção de 62 perguntas que constavam na versão original do questionário:

1. Um sábio talhou uma série de figuras em uma mesa de madeira. Dentre as formas geométricas, qual parece mais completa ou melhor preenchida?

a) Um quadrado;

b) Um círculo;

c) Uma pirâmide;

d) Um prisma;

e) Outro: qual?

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a sala dos professores

 

Desde que comecei a dar aulas nas escolas da prefeitura venho sendo levado a refletir sobre o potencial dramático do ambiente conhecido popularmente como “sala dos professores”. Posto que sou obrigado a frequentá-lo algumas vezes durante a semana, na chegada, na saída, e nos intervalos, a sua presença inexorável dentro do estabelecimento educacional tem sido cada vez mais alvo de reflexões de minha parte.  Há razões de sobra para que o consideremos, para além da escola, como uma instituição pública tradicional na qual é possível verificar uma variedade notável de comportamentos que encontram ali espaço pra se manifestarem.

Ao passo que dou aula em três escolas distintas, a configuração do humor coletivo, do estado de ânimos, do repertório de assuntos, do tom dos diálogos, são completamente diferentes entre elas. Ainda que seja difícil, se não impossível, apontar com precisão o lugar de onde se originam essas diferenças, a verdade é que tudo isso reincide sobre um único detalhe que transita entre o individual e o coletivo, o subjetivo e o intersubjetivo: a escolha a respeito daquilo que pensamos e, consequentemente, daquilo que falamos.

É necessário, aqui, tomar como objeto de raciocínio a força gravitacional que certos assuntos exercem sobre a atenção dos envolvidos.

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as consequências psicossociais das viagens no tempo

Na sala de experiências transtemporais, no subsolo de uma universidade brasileira não mencionada, os cientistas, moliéres e ômis, aguardam ansiosamente pela chegada da viajante do futuro. Atrasos eram previstos. Por se tratar de um evento inédito, a demora em se consumar faz com a crise se acelere e produza uma expectativa muito além daquela suportada até agora pela turma de cientistas escalada para o turno.

As coisas evoluíram depressa. Há exatamente um ano o primeiro memorando, diretamente enviado do futuro, aparecia pra eles na telinha de um monitor. A mesma localização, o mesmo laboratório, indicado pelas coordenadas. Resultados previstos, mas nem por isso isentos de euforia. Haviam acabado de comprovar, antes que qualquer outro centro de pesquisa do mundo chegasse aos mesmos resultados, a possibilidade de se enviar e receber dados digitais para o passado e para o futuro, algo através do continuum espaço-temporal canalizado por um terminal transdimensional construído pelo pessoal da escola de engenharia, com a ajuda de uma consultoria virtual prestada por uns alemães surpreendentemente insubordinados.

A mensagem, ao que tudo indicava, havia sido enviada por eles mesmos. Num futuro próximo de daqui a duas horas.

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o efeito forer

A primeira vez que ouvi falar sobre “validação subjetiva” deve ter sido em uma reportagem na Revista Galileu. O artigo dedicava-se a abordar o fenômeno como um viés cognitivo capaz de localizar em sistemas reais uma quantidade de informação compatível com o sistema de crença pessoal de cada um, ao mesmo tempo em que transforma em ruído qualquer informação que contrarie a lógica embutida no resultado de tal operação. Resumindo: uma estratégia psicológica pra validarmos coisas em que já acreditamos, recolhendo e interpretando arbitrariamente informações que parecem se adequar àquilo que queremos. Os inúmeros casos de paranoia social e a reincidência de teorias da conspiração seriam demonstrações genéricas e vulgares deste fenômeno, além de, claro, qualquer outro tipo de ideologia contemporânea que ouse adquirir alguma popularidade na Internet.

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