o mestre da mandala secreta

Os ritos da cerimônia denominada A Infinita Destruição e Concepção dos Mundos, já praticada pelos monges budistas tibetanos há mais ou menos seis séculos, ainda se encontram envoltos num manto de mistério e alegoria para a maior parte dos ocidentais.

Tendo se originado na porção oeste do Tibete, os ritos sobreviveram à disputa entre as distintas seitas que conviviam na região, ao final do século XVI, e foram devidamente lapidados pelos seus continuadores, os membros da escola Gelug, e discípulos de Tsongkhapa. Mais tarde, sobreviveram também ao ateísmo do Partido Comunista Chinês, e foram acolhidos no Nepal, onde, desde então, a cerimônia tem acontecido.

Os procedimentos são secretos, e apenas os monges mais graduados estão admitidos na cerimônia. A data é escolhida durante a primavera, e acontece na primeira lua cheia da estação, sendo precedida por um jejum de três dias, durante os quais os participantes permanecem reclusos, sem a autorização de deixarem o monastério.

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de como acessei as memórias de uma vida passada durante o carnaval de rua em São Paulo

Estou entre o ceticismo e a fé.

Não possuo talento para religião alguma.

Coisas misteriosas sempre aconteceram.

Venho frequentando um terapeuta holístico há mais ou menos dois meses. Minha intenção, ao iniciar o tratamento, era romper o bloqueio natural que nos impede de visualizar com clareza aquilo que os espíritas e hindus denominam “vidas passadas”.

Nunca fui lá muito espiritualizado. Fui crismado quando era criança, e durante a adolescência fui classificado como um “católico não praticante”, seja lá o que isso quer dizer. Amigas já me levaram em terreiros de umbanda e candomblé e nada muito místico me aconteceu lá dentro. Aprendi sobre os orixás e seus poderes mais pra não ficar boiando nas conversas do que porque realmente acreditasse nisso, apesar de emendar um “saravá” vez ou outra e saber de cor o Afro Sambas.

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os esquimós, seus nomes & espíritos

“- De onde é que toda esta neve nos vem?

– A neve, meus pequenos, é o sangue dos mortos.

– E o trovão? Alguém fica sempre a indagar, de si para si, em torno do que é a causa do trovão.

– São os espíritos, que esfregam seus corpos revestidos de couro; os espíritos costumam esfregar-se uns nos outros, quando discutem. Em geral, são espíritos famintos.

– E o relâmpago?

– Ocorre quando os espíritos discutem e batem na lâmpada e a apagam. Essa é a razão pela qual o relâmpago e o trovão aparecem juntos.

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o deus fisiológico

O traje era mesmo um tanto quente, como havia comentado minha amiga.

“Não são lá muito tropicais na vestimenta”, foi o que ela me disse. “Os ritos são eslavos. O deus não é tão tradicionalista quanto parece, mas eles preferem manter as aparências do que se adaptar ao clima daqui”.

Fazia calor. A luz vinha das velas e de quatro tochas colocadas nas paredes. Mesmo em sendo lenta a música, e ainda mais lento o cântico, eu transpirava.

Dizia-se que naquele momento do ritual todos costumavam transpirar.

Lúcia, minha amiga, já se tinha infiltrado na seita há algum tempo. Graduou-se nos mistérios e havia galgado algumas posições la dentro. Éramos bons amigos, mas em se tratando de ocultismo sempre fui somente um diletante. A curiosidade me levou até ali, e me aceitaram entre os novatos. Fiquei satisfeito em participar do ritual com o papel que me cabia: um observador ou um coadjuvante que não faria falta e nem poderia comprometer os trabalhos da noite.

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ocultas técnicas de reorientação sexual adaptada

 

Eu já sabia que era viado muito antes de dar o primeiro beijo.

Desde pequeno eu ficava olhando pras mãos calejadas dos homens mais velhos, e pros ombros dos rapazes na puberdade. Ombros largos, eu gostava. Quando fiquei mais velho, passei a procurar por mãos com anéis de noivado. Dependendo das mãos, eu ficava de pau duro só de ver uma aliança ali no meio.

Trocar de roupa no meio de uma turma de meninos foi, de longe, o evento mais regozijante de toda a minha tediosa pré-adolescência cristã. Lembro-me de cada uma das vezes em que tive a oportunidade de compartilhar do vestiário com os meus colegas que jamais souberam de meu interesse pelas suas partes pudendas e demais zonas corporais visitadas pelo olhar de meu recatado interesse erótico. Eu ficava tímido, mas prestava atenção em tudo pra poder me lembrar bem depois. Olhava pros volumes nas cuecas.

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the feeling of prehistory

“Inside a ruined temple the broken statue of a god spoke a mysterious language. For me this vision is always accompanied by a feeling of cold, as if I had been touched by a winter wind from a distant, unknown country. The time? It is the frigid hour of dawn on a clear day, towards the end of spring. Then the still glaucous depth of the heavenly dome dizzies whoever looks at it fixedly; he shudder and feels himself drawn into the depths as if the sky were beneath his feet; so the boatman trembles as he leans over the gilded prow of the bark and stares at the blue abyss of the broken sea. Then like someone who steps from the light of a day into the shade of a temple and at first cannot see the whitening statue, but slowly its forms appears, even purer, slowly the feeling of the primordial artist is reborn in me. He who first carved a god, who first wished to create a god. And the I wonder if the idea of imagining a god with human traits such as the Greeks conceived in art is not an eternal pretext for discovering many new sources of sensations.

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como reconhecer os sinais de morte

“Segue-se agora a apresentação de diversos sinais de morte. Quer estejas doente, quer são:
Se não conseguires enxergar com os olhos a ponta do nariz, poderás morrer ao fim de cinco meses.
Se não conseguires enxergar a ponta da língua,
poderás morrer ao fim de três dias mesmo que não estejas doente.
Se, olhando para a superfície de um espelho brilhante, não conseguires enxergar com o olho esquerdo, poderás morrer ao fim de sete meses.
Em geral, quando se respira na palma de mão de bem perto, sente-se o calor, e quando se faz o mesmo de longe, sente-se frio.
Se, porém, essas sensações se inverterem, deves saber que poderás morrer ao fim de dez dias.
Se, procurando teu reflexo numa vasilha cheia de água, não vires reflexo, nem imagem, nem nada semelhante, também isto é sinal de morte.
Se, ao tomares banho, a água não pegar a área do teu corpo em volta do coração, ou se a água secar rapidamente em volta do coração, isto pode ser indício de morte.
Afirma-se também que, caso um estalar de dedos não emita som, isto pode ser indício de morte;
E, se os tornozelos se mostrarem saltados das pernas, diz-se que poderás morrer ao fim de um mês.”



(Bardo Thodol: O Livro Tibetano dos Mortos)