ocultas técnicas de reorientação sexual adaptada

 

Eu já sabia que era viado muito antes de dar o primeiro beijo.

Desde pequeno eu ficava olhando pras mãos calejadas dos homens mais velhos, e pros ombros dos rapazes na puberdade. Ombros largos, eu gostava. Quando fiquei mais velho, passei a procurar por mãos com anéis de noivado. Dependendo das mãos, eu ficava de pau duro só de ver uma aliança ali no meio.

Trocar de roupa no meio de uma turma de meninos foi, de longe, o evento mais regozijante de toda a minha tediosa pré-adolescência cristã. Lembro-me de cada uma das vezes em que tive a oportunidade de compartilhar do vestiário com os meus colegas que jamais souberam de meu interesse pelas suas partes pudendas e demais zonas corporais visitadas pelo olhar de meu recatado interesse erótico. Eu ficava tímido, mas prestava atenção em tudo pra poder me lembrar bem depois. Olhava pros volumes nas cuecas.

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the feeling of prehistory

“Inside a ruined temple the broken statue of a god spoke a mysterious language. For me this vision is always accompanied by a feeling of cold, as if I had been touched by a winter wind from a distant, unknown country. The time? It is the frigid hour of dawn on a clear day, towards the end of spring. Then the still glaucous depth of the heavenly dome dizzies whoever looks at it fixedly; he shudder and feels himself drawn into the depths as if the sky were beneath his feet; so the boatman trembles as he leans over the gilded prow of the bark and stares at the blue abyss of the broken sea. Then like someone who steps from the light of a day into the shade of a temple and at first cannot see the whitening statue, but slowly its forms appears, even purer, slowly the feeling of the primordial artist is reborn in me. He who first carved a god, who first wished to create a god. And the I wonder if the idea of imagining a god with human traits such as the Greeks conceived in art is not an eternal pretext for discovering many new sources of sensations.

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como reconhecer os sinais de morte

“Segue-se agora a apresentação de diversos sinais de morte. Quer estejas doente, quer são:
Se não conseguires enxergar com os olhos a ponta do nariz, poderás morrer ao fim de cinco meses.
Se não conseguires enxergar a ponta da língua,
poderás morrer ao fim de três dias mesmo que não estejas doente.
Se, olhando para a superfície de um espelho brilhante, não conseguires enxergar com o olho esquerdo, poderás morrer ao fim de sete meses.
Em geral, quando se respira na palma de mão de bem perto, sente-se o calor, e quando se faz o mesmo de longe, sente-se frio.
Se, porém, essas sensações se inverterem, deves saber que poderás morrer ao fim de dez dias.
Se, procurando teu reflexo numa vasilha cheia de água, não vires reflexo, nem imagem, nem nada semelhante, também isto é sinal de morte.
Se, ao tomares banho, a água não pegar a área do teu corpo em volta do coração, ou se a água secar rapidamente em volta do coração, isto pode ser indício de morte.
Afirma-se também que, caso um estalar de dedos não emita som, isto pode ser indício de morte;
E, se os tornozelos se mostrarem saltados das pernas, diz-se que poderás morrer ao fim de um mês.”



(Bardo Thodol: O Livro Tibetano dos Mortos)

 

sobre a vontade de peidar em lugares sagrados

“É indelicado cumprimentar alguém que esteja urinando ou defecando.

A pessoa bem-educada sempre deve evitar expor, sem necessidade, as partes às quais a natureza atribuiu pudor. Se a necessidade a compele, isto deve ser feito com decência e reserva, mesmo que ninguém mais esteja presente. Isto porque os anjos estão sempre presentes e nada mais lhe agrada em um menino do que pudor, o companheiro e guardião da decência. Se produz vergonha mostrá-las aos olhos dos demais, ainda menos devem ser elas expostas pelo toque.

Prender a urina é prejudicial à saúde e urinar em segredo diz bem do pudor. Há aqueles que ensinam que o menino deve prender os gases, comprimindo-os no intestino. Mas não é conveniente, esforçando-se para parecer educado, contrair uma doença. Se for possível retirar-se do ambiente, que isto seja feito a sós. Mas, em caso contrário, de acordo com o antigo provérbio, que a tosse esconda o som. Além do mais, por que esses mesmos trabalhos não ensinam que meninos não devem defecar, uma vez que é mais perigoso prender os gases do que conter os intestinos?

Para contrair uma doença: escute a velha máxima sobre o som do vento. Se ele puder ser solto sem ruído, isto será melhor. Mas, ainda assim, melhor ser solto com ruído do que contido.

A esta altura, porém, teria sido útil suprimir a sensação do embaraço de modo ou a acalmar o corpo ou, seguindo o conselho de todos os médicos, apertar bem juntas as nádegas e agir de acordo com as sugestões do epigrama de Aethon: fazia de tudo para não peidar explosivamente em lugar sagrado, e orou a Zeus, embora com as nádegas comprimidas. O som do peido, especialmente das pessoas que se encontram em lugar elevado, é horrível. Sacrifícios devem ser feitos, com as nádegas fortemente comprimidas.

Tossir para ocultar o som explosivo: aqueles que, porque estão embaraçados, não querem que o vento explosivo seja escutado, simulam um ataque de tosse. Siga a regra das Quilíades: substitua os peidos por acessos de tosse.”

(Erasmo de Roterdã, De civilitate morum puerilium, 1530).

palavras de um xamã yanomami a respeito de Stonehenge

“As viagens que fiz para defender nossa floresta contra os garimpeiros acabaram me levando para muito além do Brasil. Assim, certo dia, brancos que tinham escutado meu nome me chamaram de uma terra longínqua, da qual eu não sabia nada, a Inglaterra. Eu aceitei o convite, porque tinha curiosidade de conhecer aquela gente distante que parecia ter amizade por nós. Era a primeira vez que eu deixava nossa casa de Watoriki para voar num avião por tanto tempo. Era tão longe que eu acabei chegando até a terra dos antigos brancos, que eles chamam de Europa. Então, pude ver com meus próprios olhos os vestígios das casas dos primeiros forasteiros de pele clara, os napë kraiwa pë, que Omama criou há muito tempo com o sangue da antiga gente de Hayowari.

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o deus-verme e o impítima

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em conturbérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Augusto dos Anjos

Preparando-se para a maratona televisiva, Maykon, vestido com a usual bermuda de depois do almoço, começa a expelir pelo bóga os primeiros gases que a feijoada de hoje vem forjando desde a ingestão, nos lençóis freáticos do cuecão…

O controle-remoto numa mão e o baseado na outra e o isqueiro na outra, pois que Maykon é um marmanjo com três mãos, ele prolonga um suspiro cansado, de dever cumprido. Sem contestar qualquer arroto, uma sacolejada saborosa, como que couve com farofa, sobe-lhe à garganta só pra ser mandada de volta pelo esôfago.

Há uma maratona televisiva pela frente. Um programa sem intervalos nem comerciais. Sem cortes, com a prometida duração de, pelo menos, oito horas. Sem replays, nem narradores obsoletos. Sem comentaristas folgados, nem ex-atletas sendo salvos do ostracismo.

Maykon acompanha, em tempo real, os comentários e as piadas que seus contatos soltam pela rede e compartilham pela rede. Contatos, porque seria equivocado confundir essa relação com qualquer coisa próxima de uma amizade.

Maykon acredita que está se divertindo muito mais que todos eles. Acredita que está diante do entretenimento mais prenhe de sentido em toda a História do Brasil.

Mais do que a Copa de 70, por exemplo.

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apocalipse e milenarismo

A cristandade (…) passou por uma série de revoluções e em cada uma delas o cristianismo morreu. Morreu muitas vezes e tornou a ressuscitar, pois tinha um Deus que sabia como sair da tumba.

G. K. Chesterton – O Homem Eterno

Quanta novidade há na constatação de que os tempos são extremos? Qualquer teólogo diria: “nenhuma”, e acrescentaria que os tempos já têm andado extremos há muito tempo, sabendo soar nem um pouco alvissareiro nesta também óbvia anunciação.

A verborragia do presente, autorizada pela tecnologia e pelo conhecimento técnico, quer vaticinar um apocalipse por dia. Se retomarmos o sentido etimológico original, do grego, em que apokálypsis é precisamente uma revelação, a visão, parcial ou total, de algum tipo de conhecimento sobre os destinos dos povos e dos reis, sobre o porvir – um porvir cheio de tormentos, mas cujo final seria a redenção, a vitória do Bem sobre o Mal -, então as diferenças com os vaticínios diários que brotam dos nossos mananciais de informação poderia ser encontrada apenas no grau de mistério, os de hoje muito mais vulgares, óbvios e satisfatórios que os de outrora. E, guardadas as devidas proporções, é assim que encontramos o Apocalipse de São João, no Livro das Revelações, o único texto profético do Novo Testamento, misterioso, praticamente insondável.

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