negociações de guerra

– Senhor presidente, com a sua licença.

– Pois não?

– O emissário estrangeiro já está aí fora.

– Mande-o entrar, porra.

Entra o emissário.

– Muito prazer, senhor presidente.

– Sente-se, fique à vontade, por favor.

– Muito obrigado. Vossa cordialidade será lembrada.

– É uma honra! Uma honra tê-lo aqui conosco. Estive no aguardo ansiosamente.

– Desculpe-me a demora, senhor, mas aconteceram imprevistos…

– Sem necessidade de desculpas, emissário! Eu entendo plenamente. As estradas estão muito complicadas nesta época do ano.

– De modo algum senhor, eu viajei de helicóptero.

– O caos aéreo, eu diria, muito pior! Deve ter sido um martírio!

– Já fiz viagens piores, senhor. Não tenho do que reclamar, na verdade. O piloto agiu corretamente.

– Pois bem, pois bem. Estou muito contente que tenha chegado. Muito já foi falado, muito já foi conversado entre nossas nações, mas finalmente temos a oportunidade de falar diretamente, face a face, tete-a-tete, o que é muito melhor. Não acha?

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o deus-verme e o impítima

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em conturbérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Augusto dos Anjos

Preparando-se para a maratona televisiva, Maykon, vestido com a usual bermuda de depois do almoço, começa a expelir pelo bóga os primeiros gases que a feijoada de hoje vem forjando desde a ingestão, nos lençóis freáticos do cuecão…

O controle-remoto numa mão e o baseado na outra e o isqueiro na outra, pois que Maykon é um marmanjo com três mãos, ele prolonga um suspiro cansado, de dever cumprido. Sem contestar qualquer arroto, uma sacolejada saborosa, como que couve com farofa, sobe-lhe à garganta só pra ser mandada de volta pelo esôfago.

Há uma maratona televisiva pela frente. Um programa sem intervalos nem comerciais. Sem cortes, com a prometida duração de, pelo menos, oito horas. Sem replays, nem narradores obsoletos. Sem comentaristas folgados, nem ex-atletas sendo salvos do ostracismo.

Maykon acompanha, em tempo real, os comentários e as piadas que seus contatos soltam pela rede e compartilham pela rede. Contatos, porque seria equivocado confundir essa relação com qualquer coisa próxima de uma amizade.

Maykon acredita que está se divertindo muito mais que todos eles. Acredita que está diante do entretenimento mais prenhe de sentido em toda a História do Brasil.

Mais do que a Copa de 70, por exemplo.

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por uma direita esquerda

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A Última e Mais Completa Crítica Social já se encontra disponível para ser compartilhada entre os povos.

A cada Semana uma Crítica mais terminal, uma Análise mais nocauteante que a anterior.

Ninguém se arrepende em esperar. Quem discorda ou concorda, todos saem ganhando.

Ninguém é salvo pelo gongo.

São milhares de acessos por hora.

Os apostadores apostam em quem vai chegar primeiro à Linha de Chegada: se o Modelo Explicativo, ou a Realidade Vivenciada. Os apocalípticos ou o Apocalipse.

Empates são raros.

Pelo bem geral da Nação, proibiremos os cidadãos de possuírem opiniões.

Queremos evitar as disputas por significados.

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O Feminismo e a Agenda Reptiliana

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Verdades e Segredos do Sétimo Círculo

É provável que quando esta mensagem chegar até vocês eu já tenha sido morto ou capturado por Eles. Sei de coisas que Eles não querem que vocês saibam. Consegui coletar informações importantes e preciosas nas últimas semanas, e, juntando os pontos, percebi que o que está em jogo no nosso planeta e, precisamente, no Brasil, é uma série de grandes e sinistros complôs atuando para a auto-destruição da Humanidade e de toda a Quinta Dimensão da Realidade.

É extremamente necessário que esse texto seja compartilhado nas redes sociais e afins, para que triunfe a Verdade e o Bem prevaleça neste Mundo. Eles devem ser detidos a tempo! As peças do tabuleiro já estão todas nos seus devidos lugares. Tudo passará despercebido da Grande Massa, então é necessário que uma grande campanha de Conscientização Cósmica se inicie. 

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Um feriado para os que querem continuar trabalhando

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Antes a manifestação tivesse sido confundida com um carnaval. Da próxima vez, professores, tragam mulatas seminuas na frente, que aí os policiais baixarão as escopetas. Um carro alegórico até que não será de mau uso. Adoraria ver uma ala de baianas formadas pelas históricas tiazinhas gordas que habitam as repartições públicas. Todos vestindo vermelho e dourado.

Quesito: pureza ideológica.

Nota: 8.3

O carnavalesco diz que agora é feriado, dia 1 de Maio. Data que remete a uma ação comunista ocorrida há mais de século. Os vermelhos estavam, como durante muito tempo costumaram estar, do lado dos que exigiam. Manifestações respondidas com violência, mortes, greves. Com exceção das mortes, foi o mesmo espetáculo que Beto Richa, século depois, quis dar. Que a posteridade guarde o seu nome, e o daqueles que o apoiam dentro ou fora das fronteiras do Paraná. Mas e o feriado?

Não dá pra disparar balas de borracha num feriado. Só dá pra aproveitá-lo, fazendo brotar em nós aquilo que Eneida Orides chamou de enferiamento da alma. Imagino trupes de homens de terno e gangues de secretárias sentados no colo uns dos outros, assinando acordos evasivos de maneira perfunctória, de olho apenas nas poupanças que se afundam em sofás que cheiram a whisky e prostituição de luxo.

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A Era das Apontações de Dedo

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A Era das Apontações de Dedo

Está vendo aquela ribanceira ali? Bem no meio do gráfico? Foi ali que nascemos, nas encostas de um buraco, uma curva demográfica que nunca vai descer. Nunca vai descer. Até chegar à lua, e daí galgar escalas mais astronômicas. O Papa Francisco é um bundão em não convocar os cristãos para a Guerra Santa contra os muçulmanos. Quem impede? Um amigo me disse que o Papa, sabendo ser o último cristão, deverá manter a humildade, como é recomendado que o façamos em tempos apocalípticos. Novos eões, mais complicados, nos aguardam. Uma era em que se possa queimar livros à vontade, sem que se sinta a falta deles.

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O Pior Momento da História da Televisão Brasileira

hqdefault Esqueça os domingos tediosos da banheira do Gugu. Esqueça os testes de fidelidade e a risada do João Kléber. Esqueça os exames de DNA do Ratinho. Esqueça o episódio do Edifício Joelma no Linha Direta. Esqueça os barracos nos programas de auditório em que as famílias vão resolver suas diferenças. Esqueça o Esquenta. Esqueça o Big Brother. Esqueça as piadas sem graça do Marco Luque. Esqueça o close nas bundas das panicats. Esqueça o novo programa do Adnet. Esqueça a MTV. Esqueça o show de calouros do Raul Gil. Esqueça o E.T e o Rodolfo acordando as celebridades. Esqueça a Ana Maria Braga. Esqueça a Dança dos Famosos.

O pior momento da televisão brasileira foi protagonizado por ninguém menos que a rainha dos baixinhos, a Sra. Xuxa Meneghel, em 1989, acompanhada por um grupo de varões e crianças indígenas. No ar o programa Xou da Xuxa. A duração da catástrofe é o tempo que ela levou para cantar um de seus sucessos na época: a canção “Vamos Brincar de Índio”. O presente dado pelo Maurício Sherman ao público brasileiro é portador de um cinismo tão atroz que a maioria das pessoas fica simplesmente embasbacada e incrédula ao testemunhar esse registro. Ao término da tortura é quase impossível alguém deixar de se perguntar: “quem teve essa maldita ideia?”.

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