a sífilis lunar

Eels are mysterious beings. It may be that what are called their ‘breeding habits’ are teleportations. According to what is supposed to be known of eels, appearances of eels anywhere cannot be attributed to teleportations of spawn. In the New York Times, Nov. 30, 1930, a correspondent tells of mysterious appearances of eels in old moats and in moutain tarns, which had no connection with rivers. Eels can travel over land, but just how they rate as mountain climbers, I don’t know.

Charles Hoy Fort, Lo! – 1931

Lua Europa, uma das grandes luas que orbitam o planeta Júpiter. Chamo-me Montezuma Lovejoy, sou um colono espacial, e a primeira vítima humana de uma doença que ainda não tem nome.

Estou há exatamente um mês trancafiado em quarentena, enquanto os médicos me submetem a baterias de exames, rotinas de medicamentos e dietas malucas. Enquanto isso vou recordando e pondo minha consciência à limpo. Deste doloroso exame emergem memórias nas quais me vejo sempre protagonizando alguma coisa ligada à colonização de Europa.

Sou um veterano do processo de terraforming que deixou habitável esta lua.

Operei tratores gigantes e explorei cavernas de gelo submerso. Pude acompanhar todo o processo de aquecimento da atmosfera, desde o começo. Tive o privilégio de assistir in loco ao derretimento da gigantesca crosta de gelo que cobriu, durante milhões de anos, o profundo oceano salgado que havia sob a virgem superfície do planeta.

Em outras palavras: tenho vivência.

O meu nome, se devo explicá-lo, foi escolhido por meu pai, um já falecido historiador fascinado pelos povos indígenas mesoamericanos – alguém que merece todas as devidas congratulações por ter conseguido convencer uma mãe a presentar sua prole com uma alcunha que jamais seria entendida na primeira pronúncia em qualquer lugar fora do México.

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os confins da imaginação

Estávamos no ano de 2003, na sala de informática do Colégio Objetivo, em Birigui, interior de São Paulo. Não sei se havia alguma atividade da qual havíamos sido dispensados, as aulas de informática sempre se pareceram de alguma forma às aulas vagas, mas a turma ficou livre pra explorar a Internet durante alguns bons minutos antes do intervalo.

Como não havia computadores pra todo mundo, nós alunos éramos obrigados a dividir as máquinas, e duplas e trios mistos operavam cada uma delas. Isso fazia com que a experiência de navegação fosse bastante coletiva, cada coisa curiosa sendo imediatamente compartilhada entre a turma.

Assim, não poucas vezes, a experiência de assistir aos vídeos mais polêmicos do início do século XXI, dentre eles execuções, decepamentos, suicídios, aparições e acidentes, bem como a contemplação de fotos sangrentas exibindo os corpos de famosos mutilados, tudo isso foi sempre acompanhado de muita demonstração conjunta de choque e curiosidade.

Naquele dia, no entanto, o que nos tomou a atenção foi um joguinho. Alguém, que provavelmente o encontrou no histórico ou na barra dos favoritos em algum lugar, apareceu com esse puzzle em que um gnomo explorava lugares bastante difíceis de serem descritos, mas cheios de personalidade. Alguma coisa espacial-florestal de escala imprecisa, povoada com detritos tecnológicos, e com ares bastante alucinógenos, quase sonolentos, onde você ia clicando com o mouse, quase à deriva, até descobrir acidentalmente caminhos que nem sempre saberia refazê-los. Não me lembro como fui parar ali (talvez fosse o efeito da paisagem), mas me lembro que imediatamente todo o restante do pessoal já estava tentando resolver os desafios, entre simples e intuitivos, e trocando informações a respeito de certas áreas.

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o deus-verme e o impítima

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em conturbérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Augusto dos Anjos

Preparando-se para a maratona televisiva, Maykon, vestido com a usual bermuda de depois do almoço, começa a expelir pelo bóga os primeiros gases que a feijoada de hoje vem forjando desde a ingestão, nos lençóis freáticos do cuecão…

O controle-remoto numa mão e o baseado na outra e o isqueiro na outra, pois que Maykon é um marmanjo com três mãos, ele prolonga um suspiro cansado, de dever cumprido. Sem contestar qualquer arroto, uma sacolejada saborosa, como que couve com farofa, sobe-lhe à garganta só pra ser mandada de volta pelo esôfago.

Há uma maratona televisiva pela frente. Um programa sem intervalos nem comerciais. Sem cortes, com a prometida duração de, pelo menos, oito horas. Sem replays, nem narradores obsoletos. Sem comentaristas folgados, nem ex-atletas sendo salvos do ostracismo.

Maykon acompanha, em tempo real, os comentários e as piadas que seus contatos soltam pela rede e compartilham pela rede. Contatos, porque seria equivocado confundir essa relação com qualquer coisa próxima de uma amizade.

Maykon acredita que está se divertindo muito mais que todos eles. Acredita que está diante do entretenimento mais prenhe de sentido em toda a História do Brasil.

Mais do que a Copa de 70, por exemplo.

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o efeito forer

A primeira vez que ouvi falar sobre “validação subjetiva” deve ter sido em uma reportagem na Revista Galileu. O artigo dedicava-se a abordar o fenômeno como um viés cognitivo capaz de localizar em sistemas reais uma quantidade de informação compatível com o sistema de crença pessoal de cada um, ao mesmo tempo em que transforma em ruído qualquer informação que contrarie a lógica embutida no resultado de tal operação. Resumindo: uma estratégia psicológica pra validarmos coisas em que já acreditamos, recolhendo e interpretando arbitrariamente informações que parecem se adequar àquilo que queremos. Os inúmeros casos de paranoia social e a reincidência de teorias da conspiração seriam demonstrações genéricas e vulgares deste fenômeno, além de, claro, qualquer outro tipo de ideologia contemporânea que ouse adquirir alguma popularidade na Internet.

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Precisamos falar sobre abdução

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Precisamos falar sobre abdução. O assunto impõe-se com urgência na pauta do dia. Conversaremos sobre isso durante o almoço, durante as refeições. Os filhos indagarão os pais. Os irmãos desconfiarão de seus irmãos. Os maridos irão se separar de suas mulheres, e as mulheres terão dúvidas a respeito de seus maridos. E por todo lugar reinará a discórdia. Os amantes, tendo mentido uns para os outros, na tentativa de ocultarem seus segredos, deverão expiar os seus pecados e erros e mentiras, e deverão falar sobre abdução, pois somente neste assunto e por meio dele o homem alcançará ser absolvido, e perdoado. Os inimigos políticos deverão deixar de lado suas diferenças, e, sentados à mesma mesa, discutirão a respeito da abdução, e da aparição de luzes estranhas, e dos sequestros noturnos, e dos sonhos em que somos visitados por seres de outra procedência, e do formato dos discos voadores, sua circunferência e diâmetro. Deverão pela manhã, os políticos, juntos de outros sete assistentes, elaborar propostas para os seus rebanhos, deixando-os livres até a tarde de sábado, quando tornar-se-á pública a discussão sobre abdução, e dela poderão então participar os seus rebanhos. E os anciões deliberarão as diretrizes principais do debate, e cada participante terá um minuto para a pergunta, três para a resposta, dois para a réplica, e mais dois para a tréplica. E o povo será conclamado a comparecer às ruas, para que satisfaça o seu furor. Ao fim do equinócio, estará todo o povo absolvido. E isto é o que me foi dito.