as crianças que não amavam os museus

Uma sinistra sequência de crimes vem tirando o sono dos detetives de São Paulo. Na última semana dois artistas plásticos foram encontrados mortos ao lado de suas obras no Museu de Arte de São Paulo (MASP), com cortes profundos de faca no abdômen e no pescoço. A comunidade artística em todo o país está chocada. No mês anterior uma artista finlandesa havia sido brutalmente molestada por aquilo que pareceu ser uma horda de crianças descontentes com o conteúdo político da sua performance, que estava programada para acontecer durante as tardes dos dias 16, 17 e 18, no Museu de Arte Moderna (MAM). Ao lado do espaço separado para o evento, picharam com letras garrafais vermelhas: Isto não é Arte & Isto não é um Museu.

As autoridades ainda estão encontrando dificuldades para traçar o perfil dos assassinos e agressores. De acordo com o delegado Sérgio Paiva, trata-se de uma gangue muitíssimo bem organizada de crianças. As câmeras captaram a movimentação dos elementos minutos antes da execução das vítimas. Os membros estão todos na faixa dos 7 aos 14 anos, o que já seria o bastante para enquadrar os mandantes na categoria dos pré-adolescentes. São provenientes de famílias abastadas, de classe média-alta. O comportamento parece ter sido o mesmo em todos os crimes: são capazes de se reunir e dispersar com extrema habilidade, fazendo uso dos dispositivos portáteis e demais aplicativos de comunicação, agem sempre em grupo e atacam com armas brancas depois de bulinarem sexualmente suas vítimas.

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sobre a vontade de peidar em lugares sagrados

“É indelicado cumprimentar alguém que esteja urinando ou defecando.

A pessoa bem-educada sempre deve evitar expor, sem necessidade, as partes às quais a natureza atribuiu pudor. Se a necessidade a compele, isto deve ser feito com decência e reserva, mesmo que ninguém mais esteja presente. Isto porque os anjos estão sempre presentes e nada mais lhe agrada em um menino do que pudor, o companheiro e guardião da decência. Se produz vergonha mostrá-las aos olhos dos demais, ainda menos devem ser elas expostas pelo toque.

Prender a urina é prejudicial à saúde e urinar em segredo diz bem do pudor. Há aqueles que ensinam que o menino deve prender os gases, comprimindo-os no intestino. Mas não é conveniente, esforçando-se para parecer educado, contrair uma doença. Se for possível retirar-se do ambiente, que isto seja feito a sós. Mas, em caso contrário, de acordo com o antigo provérbio, que a tosse esconda o som. Além do mais, por que esses mesmos trabalhos não ensinam que meninos não devem defecar, uma vez que é mais perigoso prender os gases do que conter os intestinos?

Para contrair uma doença: escute a velha máxima sobre o som do vento. Se ele puder ser solto sem ruído, isto será melhor. Mas, ainda assim, melhor ser solto com ruído do que contido.

A esta altura, porém, teria sido útil suprimir a sensação do embaraço de modo ou a acalmar o corpo ou, seguindo o conselho de todos os médicos, apertar bem juntas as nádegas e agir de acordo com as sugestões do epigrama de Aethon: fazia de tudo para não peidar explosivamente em lugar sagrado, e orou a Zeus, embora com as nádegas comprimidas. O som do peido, especialmente das pessoas que se encontram em lugar elevado, é horrível. Sacrifícios devem ser feitos, com as nádegas fortemente comprimidas.

Tossir para ocultar o som explosivo: aqueles que, porque estão embaraçados, não querem que o vento explosivo seja escutado, simulam um ataque de tosse. Siga a regra das Quilíades: substitua os peidos por acessos de tosse.”

(Erasmo de Roterdã, De civilitate morum puerilium, 1530).

a autoformação do indivíduo na poesia

“Tudo se passa como se o espírito grego precisasse de Safo para dar seu último passo no mundo da intimidade do sentimento subjetivo. Os gregos deviam ter sentido isso como algo de muito grande quando, no dizer de Platão, honraram Safo como a décima musa. A poesia feminina não é insólita na Grécia. Mas nenhum colega na arte chegou à altura de Safo. Esta é singular. Comparada, porém, com a poesia de Alceu, a lírica de Safo é muito limitada. Está circunscrita ao mundo das mulheres que a rodeiam, e ainda assim sob o ponto de vista da vida em comum entre a poetisa e o círculo de suas donzelas. A mulher como mãe, amante ou esposa, que aparece na poesia grega e é celebrada pelos poetas de todos os tempos, dado que é com essa imagem que vive na fantasia do homem, não aparece na poesia de Safo senão fortuitamente, por motivo de ingresso ou da saída de algumas donzelas do seu círculo. A mulher entra no seu círculo como a garotinha que acabou de deixar o círculo materno. Sob a proteção de uma mulher solteira, cuja vida está votada, como a de uma sacerdotisa, ao serviço das musas, recebe a consagração da beleza, por meio de danças, cânticos e jogos.

Nunca a poesia e a educação se interpenetraram tão intimamente como nesse thiasos feminino consagrado à música. O seu âmbito espiritual não coincide com os limites da poesia de Safo, mas estende-se e envolve toda a beleza do passado. As odes de Safo acrescentam ao espírito heroico da tradição masculina o fervor e a grandeza da alma feminina em que vibra o elevado sentimento da vida comunitária. Entre a casa materna e a vida matrimonial situa-se uma espécie de mundo ideal intermediário que só podemos conceber como uma educação da mulher de acordo com a mais alta nobreza da alma feminina. A existência no círculo de Safo pressupõe a concepção educativa da poesia, evidente para os gregos desse tempo. Mas o que ali há de grande e de novo é que a mulher exige a entrada nesse mundo e nele conquista, na sua qualidade de mulher, o lugar que lhe cabe por direito, porque se trata de uma verdadeira conquista. Por ela, a mulher tem acesso ao serviço das musas e esse elemento funde-se com o processo da formação de sua personalidade. Contudo, essa fusão essencial pela qual se alcança em sentido próprio a formação do Homem não se pode realizar sem o poder do éros que une as potências das almas.

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a sala dos professores

 

Desde que comecei a dar aulas nas escolas da prefeitura venho sendo levado a refletir sobre o potencial dramático do ambiente conhecido popularmente como “sala dos professores”. Posto que sou obrigado a frequentá-lo algumas vezes durante a semana, na chegada, na saída, e nos intervalos, a sua presença inexorável dentro do estabelecimento educacional tem sido cada vez mais alvo de reflexões de minha parte.  Há razões de sobra para que o consideremos, para além da escola, como uma instituição pública tradicional na qual é possível verificar uma variedade notável de comportamentos que encontram ali espaço pra se manifestarem.

Ao passo que dou aula em três escolas distintas, a configuração do humor coletivo, do estado de ânimos, do repertório de assuntos, do tom dos diálogos, são completamente diferentes entre elas. Ainda que seja difícil, se não impossível, apontar com precisão o lugar de onde se originam essas diferenças, a verdade é que tudo isso reincide sobre um único detalhe que transita entre o individual e o coletivo, o subjetivo e o intersubjetivo: a escolha a respeito daquilo que pensamos e, consequentemente, daquilo que falamos.

É necessário, aqui, tomar como objeto de raciocínio a força gravitacional que certos assuntos exercem sobre a atenção dos envolvidos.

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