negociações de guerra

– Senhor presidente, com a sua licença.

– Pois não?

– O emissário estrangeiro já está aí fora.

– Mande-o entrar, porra.

Entra o emissário.

– Muito prazer, senhor presidente.

– Sente-se, fique à vontade, por favor.

– Muito obrigado. Vossa cordialidade será lembrada.

– É uma honra! Uma honra tê-lo aqui conosco. Estive no aguardo ansiosamente.

– Desculpe-me a demora, senhor, mas aconteceram imprevistos…

– Sem necessidade de desculpas, emissário! Eu entendo plenamente. As estradas estão muito complicadas nesta época do ano.

– De modo algum senhor, eu viajei de helicóptero.

– O caos aéreo, eu diria, muito pior! Deve ter sido um martírio!

– Já fiz viagens piores, senhor. Não tenho do que reclamar, na verdade. O piloto agiu corretamente.

– Pois bem, pois bem. Estou muito contente que tenha chegado. Muito já foi falado, muito já foi conversado entre nossas nações, mas finalmente temos a oportunidade de falar diretamente, face a face, tete-a-tete, o que é muito melhor. Não acha?

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the feeling of prehistory

“Inside a ruined temple the broken statue of a god spoke a mysterious language. For me this vision is always accompanied by a feeling of cold, as if I had been touched by a winter wind from a distant, unknown country. The time? It is the frigid hour of dawn on a clear day, towards the end of spring. Then the still glaucous depth of the heavenly dome dizzies whoever looks at it fixedly; he shudder and feels himself drawn into the depths as if the sky were beneath his feet; so the boatman trembles as he leans over the gilded prow of the bark and stares at the blue abyss of the broken sea. Then like someone who steps from the light of a day into the shade of a temple and at first cannot see the whitening statue, but slowly its forms appears, even purer, slowly the feeling of the primordial artist is reborn in me. He who first carved a god, who first wished to create a god. And the I wonder if the idea of imagining a god with human traits such as the Greeks conceived in art is not an eternal pretext for discovering many new sources of sensations.

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aquela vez em que cozinhamos pra uns stalinistas

Quando meu amigo me disse que tinha conseguido encontrar ópio em Coimbra, resolvi imediatamente colocar a cidade na rota de minha viagem.

Foi um janeiro alegre como há muito não vivia. Junto de uma outra viajante, telepata e dona de todos os outros talentos necessários aos viajores, atendendo pelo nome das musas de Manoel Carlos (Helena, para os desinformados), perfiz uma viagem que bem poderia ter sido mais longa, mas que, dentro de suas limitações, nos colocou para conhecer aquele belíssimo triângulo que desponta na esquina do Atlântico: Portugal, Espanha, e Marrocos.

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como reconhecer os sinais de morte

“Segue-se agora a apresentação de diversos sinais de morte. Quer estejas doente, quer são:
Se não conseguires enxergar com os olhos a ponta do nariz, poderás morrer ao fim de cinco meses.
Se não conseguires enxergar a ponta da língua,
poderás morrer ao fim de três dias mesmo que não estejas doente.
Se, olhando para a superfície de um espelho brilhante, não conseguires enxergar com o olho esquerdo, poderás morrer ao fim de sete meses.
Em geral, quando se respira na palma de mão de bem perto, sente-se o calor, e quando se faz o mesmo de longe, sente-se frio.
Se, porém, essas sensações se inverterem, deves saber que poderás morrer ao fim de dez dias.
Se, procurando teu reflexo numa vasilha cheia de água, não vires reflexo, nem imagem, nem nada semelhante, também isto é sinal de morte.
Se, ao tomares banho, a água não pegar a área do teu corpo em volta do coração, ou se a água secar rapidamente em volta do coração, isto pode ser indício de morte.
Afirma-se também que, caso um estalar de dedos não emita som, isto pode ser indício de morte;
E, se os tornozelos se mostrarem saltados das pernas, diz-se que poderás morrer ao fim de um mês.”



(Bardo Thodol: O Livro Tibetano dos Mortos)

 

maneiras curiosas de ir à guerra

A guarda surfista do Rei Kamehameha, o Grande

É de se imaginar o entusiasmo com que o Capitão James Cook e os primeiros navegantes europeus observaram a gente do Havaí surfando em suas grandes pranchas de madeira, de quando sua famosa presença no arquipélago, no distante século XVIII.

Seu relato extremamente simpático à atividade é também impregnado de uma certa admiração pelos ares exóticos que a história tratou de conservar na figura desses havaianos antigos. Considerava-se o esporte um pouco arriscado, mas pela animação dos que o praticavam, era impossível não enxergá-lo como um alimento para a alegria, podendo ser até mesmo um tanto relaxante.

A chegada desses exploradores europeus àquelas ilhas, deste modo, coincidia com um momento em que o esporte desfrutava de grande prestígio local. Inúmeras lendas dos grandes feitos surfistas, histórias de heroísmo, amor e traição, já povoavam a imaginação daquela gente há alguns séculos, e também serviam para dar nomes aos lugares onde teriam acontecido.

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sobre a vontade de peidar em lugares sagrados

“É indelicado cumprimentar alguém que esteja urinando ou defecando.

A pessoa bem-educada sempre deve evitar expor, sem necessidade, as partes às quais a natureza atribuiu pudor. Se a necessidade a compele, isto deve ser feito com decência e reserva, mesmo que ninguém mais esteja presente. Isto porque os anjos estão sempre presentes e nada mais lhe agrada em um menino do que pudor, o companheiro e guardião da decência. Se produz vergonha mostrá-las aos olhos dos demais, ainda menos devem ser elas expostas pelo toque.

Prender a urina é prejudicial à saúde e urinar em segredo diz bem do pudor. Há aqueles que ensinam que o menino deve prender os gases, comprimindo-os no intestino. Mas não é conveniente, esforçando-se para parecer educado, contrair uma doença. Se for possível retirar-se do ambiente, que isto seja feito a sós. Mas, em caso contrário, de acordo com o antigo provérbio, que a tosse esconda o som. Além do mais, por que esses mesmos trabalhos não ensinam que meninos não devem defecar, uma vez que é mais perigoso prender os gases do que conter os intestinos?

Para contrair uma doença: escute a velha máxima sobre o som do vento. Se ele puder ser solto sem ruído, isto será melhor. Mas, ainda assim, melhor ser solto com ruído do que contido.

A esta altura, porém, teria sido útil suprimir a sensação do embaraço de modo ou a acalmar o corpo ou, seguindo o conselho de todos os médicos, apertar bem juntas as nádegas e agir de acordo com as sugestões do epigrama de Aethon: fazia de tudo para não peidar explosivamente em lugar sagrado, e orou a Zeus, embora com as nádegas comprimidas. O som do peido, especialmente das pessoas que se encontram em lugar elevado, é horrível. Sacrifícios devem ser feitos, com as nádegas fortemente comprimidas.

Tossir para ocultar o som explosivo: aqueles que, porque estão embaraçados, não querem que o vento explosivo seja escutado, simulam um ataque de tosse. Siga a regra das Quilíades: substitua os peidos por acessos de tosse.”

(Erasmo de Roterdã, De civilitate morum puerilium, 1530).

o teste de personalidade do dr. zao

Dentre as inúmeras e excêntricas contribuições do cientista húngaro Dr. Ivan Zao para a psicologia contemporânea do século XXI, consta o vasto teste de personalidade que ele sabiamente chamava de “Teste de Imaginação”. Por meio de um questionário bastante heterogêneo, o Dr. Zao intentava oferecer aos seus pacientes um numeroso e abrangente rol de perguntas que pudessem funcionar como gatilho para uma profunda investigação da paisagem pessoal de seus pacientes tendo como pano de fundo a cultura humana, anseios e capacidades de criação e imaginação ajustadas a hipóteses e situações sociais reais e/ou impossíveis.

A ideia combinava técnicas extraídas do psicodrama, da psicomagia, testes de personalidade disponíveis na Internet, do tarô, da mitologia, contos populares antigos, além de diversas outras formas de aparatos lúdicos e narrativos, e, em sua versão original, possuía um repertório de 436 perguntas percorrendo as mais variadas áreas da vida, da história, das atividades, gostos e crenças gerais.

Após ter submetido ao teste inúmeros pacientes seus, além de voluntários, intelectuais e celebridades, o Dr. Zao também trabalhou para a elaboração de um amplo mapa simbólico das respostas possíveis para cada uma das perguntas, muitas delas sugeridas por aqueles que haviam participado das primeiras versões. O mapa acabou resultando num dicionário-guia com mais de 6.500 verbetes, além de outras 90.000 combinações possíveis de respostas, geradas por computador.

Uma das características centrais do teste era a sua total abertura para a intervenção do público, seu caráter permanentemente adaptável à inventividade do participante. Além disso, o seu criador, o Dr. Zao, dizia orgulhar-se de ter criado um procedimento ao final do qual era o próprio paciente quem produzia seu veredito e diagnóstico, conquanto aprendesse a entender o seu poder de sugestão.

Aqui encontramos uma seleção de 62 perguntas que constavam na versão original do questionário:

1. Um sábio talhou uma série de figuras em uma mesa de madeira. Dentre as formas geométricas, qual parece mais completa ou melhor preenchida?

a) Um quadrado;

b) Um círculo;

c) Uma pirâmide;

d) Um prisma;

e) Outro: qual?

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