as artes gravitacionais

O que é a dança? É o movimento de um corpo dotado de cadência e ritmo. Pra que serve a dança? Depende da intenção daqueles que dançam, do contexto em que é dançada, e do sentido dado ao movimento. A dança é a comunicação de alguma coisa, a expressão de um estado anímico? Qual é o seu berço antropológico? De onde ela provém? Da dança coletiva ritual feita pra encenar alguma coisa, ou mesmo de alguns espasmos corporais sequenciados?

Para além dos seres humanos, a dança pode ser verificada no comportamento das aves, enquanto uma etapa fundamental dos ritos de acasalamento. Em outras circunstâncias, a dança das abelhas, um movimento corporal cadenciado, induz a troca de informação entre o cérebro individual e o cérebro coletivo da colmeia. É uma gramática, afinal.

Se a dança é o movimento ritmado de um corpo, em que outro lugar do universo poderemos encontrar demonstrações de alguma dança? A resposta é óbvia e, naturalmente, está no movimento dos corpos celestes, cuja dança se revela no céu noturno, e cujo balé define o nosso próprio calendário.

A dança, muito longe de expressar beleza nada mais é do que o movimento cadenciado de um corpo. Esse corpo, na medida em que é dotado de algumas qualidades, como densidade e massa, gravita pela existência de uma certa forma. Mas, isso ainda é muito abstrato. Pensemos no significado social da dança, e que, no contexto das sociedades primitivas, ela poderia figurar como o campo mais fecundo da mímesis, um centro irradiador de códigos diferentes dos códigos inscritos no corpo, na gestualidade dos indivíduos e do grupo.

Esse movimento a que chamamos dança pode variar esteticamente segundo uma cultura ou outra, mas, em todas as suas manifestações, expõe uma natureza fundamental dividida nas seguintes qualidades: cadência, ritmo, circularidade, repetição – ou seja, alguma razão matemática que muitas vezes resulta em harmonia. E o que é a harmonia senão uma certa proporção entre as partes? A dança, e nisso incluímos até mesmo aquelas expressões mais radicais, sempre comporta algum tipo de harmonia, de passo, de cadência. Tudo isso se define, é claro, no ritmo.

E há ritmo e cadência, ou mesmo circularidade, nos inúmeros fenômenos da natureza – a mera sucessão das estações expõe o grau com que a a rede da vida foi compondo sua dança de forma um tanto expansiva. A primeira ciência de todas, a astronomia, nasce da observação da periodicidade destes ritmos, expostos no movimento dos astros no céu. É através das nossas lentes mais poderosas que temos a chance de entrever o quanto de nossa existência é dependente da dança: a similaridade entre as estruturas de uma galáxia e a estrutura de um átomo já foi alvo de muito assombro. O ritmo contribui, pois também, para a multiplicação e autodiferenciação da própria matéria, posto que cada novo elemento se diferencia a partir de uma sempre nova aquisição de proporções e padrões de interação, e cada átomo e cada molécula tem sua existência baseada no ritmo que organiza a vida das partículas que os compõem. Neste nível, não é tanto a força da gravidade quem exerce algum poder de cadenciamento ou “coreografia” – outras forças e outras leis ganham maior relevância conforme diminuímos a nossa escala.

Toda a organização do universo, sabemos, está fundada no movimento perpétuo dos corpos que o habitam. Isso diz respeito ao maior e ao menor. Isso diz respeito aos corpos celestes, aos planetas, estrelas, asteroides etc. e também diz respeito às espécies que os povoam. As órbitas, eixos gravitacionais, por meio dos quais o espaço se cria, são alguns resultados rítmicos desta expansão. A consciência, talvez, brota da percepção que um corpo em movimento faz do outro corpo também em movimento – provavelmente a partir da dessintonia entre os movimentos, ou mesmo de sua harmonia. A gravidade é a lei nascida desse tipo de interação.

E o que tem a dança dos seres terrestres a ver com a gravidade que governa as grandes esferas? Tem a ver que a dança dos seres terrestres é uma manipulação, um refinamento intencional, elevada enquanto arte, destes estados rítmicos já disponíveis na matéria bruta – e funcionando segundo algumas intenções específicas. Ou seja, tem a ver com a a função do movimento sobre a consciência, e a capacidade que o próprio movimento parece dispor para distrair, entreter ou atrair a consciência, de alguma forma. Isto é, alguns movimentos da consciência se despertam e são desencadeados por certos movimentos da matéria. E isso acontece em todos os níveis escalares possíveis.

O espaço e o universo é a relação entre os corpos. Na ausência de corpos, não existe espaço. A harmonia da dança é, pois, uma relação matemática entre os corpos. O universo não é eternamente harmônico, nem eternamente rítmico, mas há inúmeros padrões rítmicos se manifestando em determinadas interações entre os seus corpos. As leis universais se constituem a partir destas interações, e de alguns padrões resultam certas afinidades. Assim, por motivos óbvios, e também num sentido inverso , quando a interação entre os corpos se faz ausente não é possível algo como a gravidade. No vácuo absoluto, dos quais os corpos se ausentam, tampouco o som de um corpo solitário pode repercutir, posto que não há a superfície de outro corpo para reverberá-lo. Sob estas condições, o espaço se cria, se desdobra.

Um corpo, ao desenhar um determinado movimento no espaço, assim como um dedo que traça no ar os três lados de um triangulo, está delimitando uma parte deste espaço infinito. Desenhar é, portanto, contornar uma área, reparti-la, recortá-la, tracejá-la a partir de um espaço que se expandiu tridimensionalmente, em todas as direções. Dançar é centralizar a gravidade em algum lugar, brincar com os seus muitos centros, os seus muitos padrões – é brincar com a possibilidade de que a gravidade tenha uma natureza criativa intrínseca. Mas quais são as formas permitidas pela natureza física do universo? Desenhar um triângulo no ar, de maneira bidimensional, é possível. Mas quais são as formas impossíveis? Por que é que alguns movimentos, especialmente quando envolvidos em alguma repetição, não podem passar despercebidos?

É preciso insistir na ideia de que nenhuma das leis do universo são necessárias para ele. Como a figura de Shiva Nataraja, o dançarino cósmico, toda essa ordem rítmica está suspensa sobre o nada, sobre o vazio. A ordem cósmica, o dharma, se estende por sobre um abismo infinito, como se a lei da gravidade fosse frágil, efêmera, temporária na mesma medida em que a perna do dançarino Shiva continua suspensa, sempre à espera de terminar seu movimento e liquidar o universo inteiro. O Tantra é enfático ao dizer que a natureza de Shiva permeia todo o universo: o cosmos, isso quer dizer, possui uma natureza rítmica.

A tridimensionalidade é o corpo do universo, e os outros corpos se movimentam dentro deste corpo. Não seria ela, a tridimensionalidade, uma limitação? Não seria ela um acidente? Não seria, ainda, apenas uma outra lei condicionada às relações acidentais entre os corpos? Ora, essa tridimensionalidade está prevista na natureza do Universo.

A nossa imaginação rítmica está limitada às dimensões físicas da natureza cósmica. Se toda ideia é produto de uma impressão, então quais são as impressões que produzem, em nós, a ideia de dança? Talvez não tenha sido necessário inventar a ideia de dança antes de senti-la em nosso corpo. Devemos ter herdado uma tal capacidade das nossas prévias versões primatas. A dança é, pois, a mais mimética das artes? A dança da sedução consiste na habilidade para concentrar uma capacidade de atração maior em certas partes do corpo a desenvolver certas qualidades para cada gesto – suavidade, ondulatória. Toda a gestualidade refinada da dança sensual é como que um aperfeiçoamento bastante seletivo de certos atributos consolidados na atualidade de algumas espécies. A natureza possui um gosto especial pela dança. No grau humano da coisa, a descoberta constante das infinitas possibilidades de relação entre as partes acaba por inventar novos estilos de dança – novos passos, novos movimentos, novos ritmos.

A gravidade é a atração entre os corpos, mas, de um ponto de vista muito prático, a gravidade é o que faz os corpos caírem. A densidade de um corpo atrai o outro, menos denso. Não interessa tanto o material ou a qualidade do corpo celeste em questão, o que define o seu papel nessa grande dança coletiva é a sua densidade – é a densidade do corpo celeste que pontua os seus passos na dança cósmica. Por isso a perfeição das formas universais é mais puramente refletida no movimento dos astros – e essa analogia cristalina levou Kepler a imaginar a sinfonia dos corpos celestes movimentando-se de acordo com sua tonalidade, distribuídos numa pauta. Aqui, a lei era a da proporcionalidade: a analogia sugere não tanto uma dança, mas uma canção. As artes gravitacionais. A gravidade é o que faz os corpos caírem e ficarem presos à terra, afinal. Por isso é que, em última instância, continuamos no centro do universo. A Terra é o lugar aonde os corpos densos caem, os corpos feitos de terra, da massa estercorária de algum demiurgo – assim dizem certos textos gnósticos do período medieval. A natureza do movimento terrestre é ser atraído para baixo. Mas as artes teimam em elevar o espírito humano às alturas. Todas as artes fazem isso, menos as artes gravitacionais da dança.

Como se a compreensão humana de nossa própria dança não pudesse ser mais precária, o único entendimento que fazemos dela se localiza nas relações de causa e efeito entre os corpos. Não sabemos, afinal, porque o corpo denso atrai o corpo menos denso – mas sabemos que é assim que acontece.

Segundo a cosmologia alquímica, nestas outras paragens acima de nós viveriam os seres de ar e de fogo, mais puros, refinados e sutis, atraídos pelo elemento natural das esferas superiores que orbitam a Terra – localizada no centro de tudo. No paradigma antigo o único lugar no Universo que se encontra numa posição mais central que a Terra é o Inferno, posicionado no centro da própria Terra. Na jornada alquímica a transmigração das almas perfazia a órbita de cada planeta segundo sentido de purificação – indo do mais impuro até o mais puro: o sol-ouro no topo do céu.

Os paradigmas mudaram. Os limites orgânicos entre o que é vida e o que é inanimado começaram a se esboroar há muito tempo. Quais eram os parâmetros provenientes das definições mais clássicas, legadas desde a Grécia a partir do biólogo Aristóteles? A vida é aquilo que cresce, se movimenta, e morre? A vida é aquilo que, dotada de alma, é capaz de se movimentar e de perceber? Então, no que diz respeito às artes gravitacionais, qual é o papel da alma? A misteriosa doutrina exposta por Timeu, no diálogo platônico, sugere uma alteração no movimento das almas: um movimento linear se torna circular. Esta alteração na qualidade do movimento é resultante do próprio desdobramento criativo da tridimensionalidade cósmica. As almas estão, afinal, obedecendo, de alguma forma muito específica, às leis da gravidade. O movimento faz a consciência despertar – o fundamento da percepção depende da interação entre os corpos.

A vontade de perceber e decifrar algum tipo de estrutura espiral arquitetônica do cosmo, enquanto um princípio básico da geometria sagrada da criação, produziu também um sonho irracional e obcecado, tipicamente yang, posto que se expressa na imposição da forma ideal sobre a matéria. Um retrato dessa obsessão aparece no filme Pi, de Darren Aronofsky, cujo insight se perde no meio do culto à excentricidade. O que quero dizer é que não há apenas uma única e perfeita relação harmônica entre os corpos – há inúmeras relações harmônicas brotando e desaparecendo o tempo todo, à medida em que o universo se desdobra e novos centros gravitacionais redefinem a interação entre os corpos. Como naquela noite estrelada de Van Gogh.

Essas leis que governam os movimentos involuntários da matéria devem possuir algum grau de parentesco com aquelas outras leis que obrigam as bolhas de sabão a serem redondas e aos ralos a escorrerem os seus líquidos em um formato espiral – uma situação relacional dos distintos níveis da matéria. A complexidade do movimento dá origem, de fato, a muitas leis e, socialmente falando, algumas dessas leis são mesmo formuladas unicamente na intenção de dispersarem o movimento, ou então de centralizá-lo. E é verdade que poderíamos encontrar, ainda, expressões formalizadas de uma certa consciência social a respeito da qualidade dessas interações, como caminhos para estimulá-las: dentre as quatro virtudes necessárias para a condução da vida no mundo político da Roma Antiga, uma delas era a gravitas, que podemos traduzir por peso, seriedade, firmeza, mas que também sugere a capacidade quase magnética que um indivíduo tinha para agregar pessoas ao seu redor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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