ó a lama lá

Inter urinas et faeces nascimur. – Santo Agostinho

 

Uma multidão de pás, enxadas, tochas acesas, abominável gente feia e suja e esbravejante na rua se aglomera. Não hesitam em destruir as vidraças dos bancos, nem os automóveis. A polícia é chamada pra resolver a situação, mas os policiais não pensam em nenhum momento em resolver coisa alguma. Com as armas em mãos, apenas assistem. À frente da turba, de coleiras no pescoço e roupas rasgadas, forçados a rastejarem de quatro, com lama tóxica esparramada por todo o corpo e enfiada até o preenchimento total em cada orifício destes corpos, inclusive nos olhos e orelhas, vão aqueles que foram identificados como responsáveis pelo crime. Não são os primeiros a passarem pelo ato de humilhação pública – mas no momento, são os únicos vivos. Políticos, funcionários premiados, empregados perfunctórios. Todos os outros culpados já foram mortos, seus corpos deixados pelo caminho no enorme rastro de destruição e revolta percorrido pela turba furiosa.

Diante do imenso edifício da Companhia a rua é um rebuliço em chamas. Uma placa de PARE é arrancada junto de uma enorme porção de concreto e terra. A gritaria é ensurdecedora. Os policiais, contrariados, discutem o que fazer. O contingente é muito pequeno – foram pegos desprevenidos. A tropa de choque espera, assanhada, mas algo a impede de chegar. Por enquanto são apenas algumas poucas viaturas. Bombas de efeito moral não parecem surtir efeito. E os sprays de pimenta são revidados com pedras e paus. Um enorme lodaçal infectado acompanha o povaréu. Não há líderes, não há porta-vozes, e o único laço de comunhão entre estes miseráveis plebeus é o ódio, o furor, o desespero.

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este blogueiro começou a escrever um artigo pro seu blog, e o que aconteceu depois vai te deixar…

clickbait-cursor-fishing-hook

Certa feita, em uma entrevista, o produtor musical Romero Silveira (43, paulistano) afirmou que logo em breve, com o avanço das tecnologias publicitárias, se tornaria cada vez mais fácil e mais racionalizada a maneira com que um artista, ou qualquer figura pública, conseguiria ganhar alguns cliques em um ambiente virtual. A empatia a ser conquistada seria consequência dessa visibilidade proporcionada por um processo espontâneo apenas em aparência. Daí que tanta gente, nas redes sociais, usem factoides ou a polêmica como plataforma de visibilidade. A chamada, o título, obviamente, são o destaque que ofusca o conteúdo quase inexistente – a apresentação é fundamental. Trata-se do fenômeno cata-clique.

Problema para os historiadores do presente: desde quando a corrida por cliques tornou-se relevante? Desde quando adestrar a recepção, a percepção do público, se tornou possível ou conveniente? Até que ponto uma opinião pode continuar sendo rentável? Publicidade gera mais publicidade – o ciclo da monetização. Há tutoriais, métodos, programas, aplicativos, muita coisa voltada pra pessoas interessadas em gerarem tráfego nas suas páginas e a partir daí faturarem alguma grana pra poderem viver disso. Não há nada de errado em escolher uma atividade dessas pra sua vida, na verdade. (Em minha opinião, não há nenhum problema desde que o assunto escolhido para tanto não seja voltado para a auto-promoção, ou que seja algo inofensivo, como é o caso dos felinos fofinhos compartilhados até a exaustão).

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