ficção aumentada

I must download several copies of myself and storage them into security areas.

Terence McKenna

 

Num futuro em que a pesquisa com tecnologias de Realidade Aumentada seguiu desimpedida, imaginemos sua conjunção com os ramos da robótica responsáveis pelo desenvolvimento de inteligências artificiais e de equipamentos portáteis para realidades virtuais. Pensemos neste futuro como situado em lugar do final do século XXI, ao mesmo tempo a intersecção entre uma Idade de Ouro da tecnologia e uma Idade das Trevas emocional que obterá como resultados sociais uma enorme confusão entre os distintos níveis de trânsito de informação, até que, claro, devido à incrível plasticidade do cérebro humano, adequemos devidamente nossa linguagem a esse ultra-futuro pós-pós-humano de velocidades simultâneas incomensuráveis por meio de sofisticadíssimos implantes neurobiológicos de aumento de capacidade sensorial e de memória.

Todavia, considerando que nem todas essas maravilhas de ponta serão prontamente disponibilizadas a preços acessíveis para os cidadãos comuns, imaginemos diversões mais sutis, arquitetadas pelos artistas, arquitetos, engenheiros da programação e da informática, todos esses mestres espirituais vindouros que terão às suas mãos tantos e tão fascinantes instrumentos de criação e não hesitarão em exibir ou esconder os seus produtos por aí, nas áreas acessadas por realidades indefinidamente maiores, espalhadas pelos espaços tangíveis aos corpos e às mentes futuras.

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o efeito forer

A primeira vez que ouvi falar sobre “validação subjetiva” deve ter sido em uma reportagem na Revista Galileu. O artigo dedicava-se a abordar o fenômeno como um viés cognitivo capaz de localizar em sistemas reais uma quantidade de informação compatível com o sistema de crença pessoal de cada um, ao mesmo tempo em que transforma em ruído qualquer informação que contrarie a lógica embutida no resultado de tal operação. Resumindo: uma estratégia psicológica pra validarmos coisas em que já acreditamos, recolhendo e interpretando arbitrariamente informações que parecem se adequar àquilo que queremos. Os inúmeros casos de paranoia social e a reincidência de teorias da conspiração seriam demonstrações genéricas e vulgares deste fenômeno, além de, claro, qualquer outro tipo de ideologia contemporânea que ouse adquirir alguma popularidade na Internet.

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Gosma

“Todo brasileiro já se irritou com o próprio país. Todo cidadão deste país, alguma vez na vida, já esteve diante de alguma situação absurda que o fez dizer para si mesmo: “isso é o Brasil!”. Mas o que é “isso”? À frustração do “isso” soma-se também uma satisfação. Ambos os sentimentos, frustração e satisfação, contudo, derivam de uma ilusão anterior até mesmo à experiência que os produz: “isso” é um elemento de diferenciação. É o que torna o Brasil um monumento de espanto e admiração para o próprio brasileiro – é o que os torna especiais e diferentes dos outros povos e culturas, que eles sequer conhecem. Estou frustrado porque somente neste país em que vivo tal absurdo é permitido e até mesmo recorrente; estou satisfeito porque isto diferencia o meu país de todos os outros. Mas essa satisfação é uma satisfação torpe, como qualquer emoção promovida por uma alucinação. Qual droga causou em nós esse efeito? Dizemos “isso é o Brasil” em situações extremas: o Brasil é tanto o samba de Pixinguinha quanto aquele castelo construído por um deputado com o dinheiro desviado de algum quinhão qualquer. Nenhum absurdo é exclusividade do Brasil, tampouco da Rússia ou da Índia. O prejuízo é sempre público – o tolo que comemora sua singularidade nas feições da região da qual provém é um tolo que apenas ficou no meio do caminho. Nenhuma vitória pode constatar a pátria ou redimi-la – apenas o esporte (e até mesmo só alguns deles), o Prêmio Nobel e o Oscar são instituições suficientemente válidas para fazê-lo em nome do povo.”

Haja conexão, amigo!

Esporte

Pra mim está mais do que provado que essa Copa foi experimentada de uma maneira muito curiosa (não de todo diferente das copas anteriores, que prepararam o terreno). Tudo bem que os brasileiros estavam em casa, e, tinham, de certa forma, um ponto de vista “privilegiado” (que muito bem pode ser relativizado), mas a participação que a Internet teve em todas as etapas da cobertura e divulgação do mundial é o suficiente pra jogar, talvez, uma penúltima pá de cal sobre a televisão – que acompanhou beeeem de longe o “tempo real” da Internet. Imagino que o soterramento derradeiro virá quando passarmos a acompanhar todos os jogos da tela de um computador (ou até mesmo outro dispositivo), conectado a um projetor (que poderia muito bem ser uma televisão compatível com a tecnologia). À televisão, portanto, sem o seu monopólio sobre as discussões e os significados, só resta transmitir os jogos. Do chute do exoesqueleto de Nicolelis aos memes de Luiz Suárez e Muntari. Também a relação dos fãs com os jogadores deixou de ser mediada exclusivamente pela TV (muito sucesso fizeram as postagens de Podolski e Balotelli). As piadas, e até mesmo as músicas (que são repetidas à exaustão graças às campanhas publicitárias), se comportam de maneira viral. Aposto que muita gente, ao invés de prestar atenção às mesas redondas dos comentaristas, preferiu reclamar e fazer piadas no Facebook (algo de que já criamos uma indiscutível dependência).

Brasil x Alemanha

“A Copa, escreve aí, pode ser responsabilizada por uma geração de tarados brasileiros com que teremos de lidar num futuro próximo. Não tenho a menor dúvida de que alguns mais pervertidos incorporarão essa derrota às suas condutas sexuais no futuro. O sado-masoquismo, esse negócio de humilhação, é algo que cresceu bastante no último século, e acredito que a pulsão sexual deve ter muita coisa a ver com essas ideias de nação, de vitória, competição – o futebol é bem ambíguo (não deveria ser, mas é). Penso em pelo menos dois ou três níveis diferentes em que a sexualidade está sendo abordada: o turismo sexual (que deve ter tido um ótimo ano); e uma certa cobiça sexual que parece estimular o culto ao físico e o desejo pelo estilo de vida que o promove (e também as mulheres que os homens podem conquistar com isso). Não quero ser moralista. Quem sou eu pra condenar qualquer coisa vinculada ao sexo, não é? Mas talvez o futebol não devesse ser tão sério. Um trauma tão grande, nessa fase da vida… Veja bem: a foto. Prazer em estupro é sadismo. O vídeo está em português, então, tendo sido feito por um brasileiro (o que é provável), também poderia trazer traços de masoquismo, não é?” – disse o Bigode.

” Não. O bom é que o David Luiz vai ter muito tempo pra se redimir. Teve time que já ganhou Copa jogando pior que esse Brasil. Copa é muita sorte de bater um esquema de jogo com outro. Isso também mostra que o futebol não é comprado, e que podemos voltar a acreditar nele.” – respondeu a Barba.

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