versões indígenas

076 Rund-Maloca der Tukuna, NW-Brasilien

É considerável a quantidade de visões religiosas, cosmogonias, ou lendas que evoquem, ainda que de um ponto distante, o mito-edênico, a queda do Homem de um estado paradisíaco original onde não se distinguia da natureza para um outro, mais abaixo, em que, possuindo linguagem, é capaz de diferenciar-se dos animais e da natureza, e, por isso mesmo, visualizar o grau de sua condenação.

Outrossim, a obra de Eduardo Viveiros de Castro aparece como expressão máxima daquilo que seria uma novidade para o pensamento moderno, na medida em que oferece uma inversão de certas convenções etnológicas: o perspectivismo ameríndio – generalização teórica do processo de produção do ponto de vista dentro de sociedades selvagens como os araweté, yanomami e juruna, e segundo o qual a Queda não é protagonizada pelo Homem, mas pelos animais. Em outras palavras: quem se diferiu da humanidade foram os animais, os quais ainda convivem de acordo com uma humanidade própria, camuflada por sua roupagem animal.

Como exemplo do primeiro caso, contudo, penso no mito dos marubo, bem representado pelo título do livro em que o encontrei, “Quando a Terra deixou de falar”, de Pedro de Niemeyer Cesarino [Editora 34; 2013].

Segundo os marubos, o mundo teria passado por um processo de silenciamento, ocasionado pelo povo sol (Vari Nawavo) como punição para o comportamento sexual dos antigos. Em outro episódio, o silenciamento é resultado do feitiço de Kana Voã, um herói de suas narrativas, que decide silenciar o Céu, porque, através de seus trovões, estaria cobiçando os habitantes da Terra daqui abaixo. A concepção que os marubo possuem dos espíritos, das formas da natureza, e da atuação do demiurgo que as criou é suficientemente complexa pra que eu não tente resumi-las aqui, mas o depoimento do xamã Armando Mariano é bastante curioso. Transcrevo:

As colinas de terra falavam…

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o dia em que nossa amizade não sobreviveu a uma reavaliação ideológica

peter doig

Até que acontece. Nem as previsões epistemológicas e análises dóxicas mais precisas conseguem antever o dia em que será, o assunto do qual brotará a cabal divergência – aquela decisiva opinião que será o ponto de chegada ou o ponto de partida para as carteiradas vindouras -, a germinante centelha que, espalhando-se como o fogo no cerrado, terminará incendiado os ânimos, os amigos, ou o casal, ou os pais e os filhos (caso em que o fenômeno é mais frequente, e às vezes até mesmo procurado pelas partes envolvidas), pra depois esfriá-los dentro da geladeira pra onde vão depois de mortos.

Até que acontece. Ou já somos suspeitos há algum tempo, e a patrulha à paisana está num dia muito atribulado, não nos é permitido tolerar certas transgressões, incompatibilidades, humores caprichosos e insensatos, belicosos, fleumáticos, uma distância enorme entre os lugares que habitamos nos espectros políticos e a certeza absurda de que é justamente aí que devemos firmar pé.

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bem-vindo seja quem vier por bem

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I

O relato transcrito abaixo encontra-se presente nos volumes do processo 211/70 e foi redigido por um agente em serviço, infiltrado na célula terrorista em questão, conhecida como MRI-67, e cuja participação foi cabal para o seu desbaratamento. Seu nome permanecerá incógnito. Chama-nos atenção, contudo, a liberdade da qual serviu-se o agente para compor um texto inadequadamente literário. O tom de cuidadosa onisciência que permeia a narrativa, e uma proposital e justificada omissão de seu redator, absolutamente incompatível com palavras que, ao serem empregadas ali, de certa forma denunciam um envolvimento grave e indesejado de sua pessoa com as dos terroristas, acabaram contaminando o funcionamento da máquina de vigilância com ponderações excessivamente subjetivas, além de povoá-la com perniciosas caricaturas. À guisa de uma comparação, segundo o jargão empregado pelos guerrilheiros subversivos, o agente teria aberto inúmeros “pontos” em em seu relato, muito pouco ou quase nada agregando ao andamento das operações, ainda que, como já foi dito, sua participação tenha sido elementar. Sendo um caso único na história da instituição, ademais, este texto terá como garantida a atenção dos superiores.

O revisor fez uso de asteriscos sempre que julgou necessário acrescentar alguma observação.


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