o brasil dos vampiros psíquicos

Venho do futuro para dizer aos habitantes deste século que as coisas mudaram e que as coisas continuarão mudando.

Não gastei a viagem à toa. Pelos caminhos que levam para dentro do Brasil os nativos deixaram um pouco de tudo sob a poeira.

Sei por exemplo que ainda vigora o feitiço de um selvagem que do meio da selva para sempre amaldiçoou os invasores desta terra, e que a catiça foi braba o bastante pra ninguém percebê-la.

Ninguém sabe bem o que tem lá pra dentro do país. Nem índio, nem preto, nem europeu. A tinta vermelha que dá nome à pátria não aparece na bandeira.

Dizem que não aparecerá jamais.

Sei que até o ano de 2100 os grupos de compartilhamento de mensagem terão formado profundas galerias de arquivos a serem escavados e reescavados por inteligências artificiais eternamente dedicadas à fabricação de feiquinius, emaranhadas em grandes nodos de informação que se coligiram por vontade própria.

Os comitês de engenharia ideológica, espalhados no multiverso digital, semeiam logaritmos que disparam trilhões de mensagens para infinitos planos de dimensão possíveis, programando-os para fixarem-se apenas naqueles onde sucedem-se segundos turnos tão terríveis quanto este do atual presente que visito.

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por uma direita esquerda

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A Última e Mais Completa Crítica Social já se encontra disponível para ser compartilhada entre os povos.

A cada Semana uma Crítica mais terminal, uma Análise mais nocauteante que a anterior.

Ninguém se arrepende em esperar. Quem discorda ou concorda, todos saem ganhando.

Ninguém é salvo pelo gongo.

São milhares de acessos por hora.

Os apostadores apostam em quem vai chegar primeiro à Linha de Chegada: se o Modelo Explicativo, ou a Realidade Vivenciada. Os apocalípticos ou o Apocalipse.

Empates são raros.

Pelo bem geral da Nação, proibiremos os cidadãos de possuírem opiniões.

Queremos evitar as disputas por significados.

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Precisamos falar sobre abdução

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Precisamos falar sobre abdução. O assunto impõe-se com urgência na pauta do dia. Conversaremos sobre isso durante o almoço, durante as refeições. Os filhos indagarão os pais. Os irmãos desconfiarão de seus irmãos. Os maridos irão se separar de suas mulheres, e as mulheres terão dúvidas a respeito de seus maridos. E por todo lugar reinará a discórdia. Os amantes, tendo mentido uns para os outros, na tentativa de ocultarem seus segredos, deverão expiar os seus pecados e erros e mentiras, e deverão falar sobre abdução, pois somente neste assunto e por meio dele o homem alcançará ser absolvido, e perdoado. Os inimigos políticos deverão deixar de lado suas diferenças, e, sentados à mesma mesa, discutirão a respeito da abdução, e da aparição de luzes estranhas, e dos sequestros noturnos, e dos sonhos em que somos visitados por seres de outra procedência, e do formato dos discos voadores, sua circunferência e diâmetro. Deverão pela manhã, os políticos, juntos de outros sete assistentes, elaborar propostas para os seus rebanhos, deixando-os livres até a tarde de sábado, quando tornar-se-á pública a discussão sobre abdução, e dela poderão então participar os seus rebanhos. E os anciões deliberarão as diretrizes principais do debate, e cada participante terá um minuto para a pergunta, três para a resposta, dois para a réplica, e mais dois para a tréplica. E o povo será conclamado a comparecer às ruas, para que satisfaça o seu furor. Ao fim do equinócio, estará todo o povo absolvido. E isto é o que me foi dito.

Estamos por aí

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Estamos Por Aí

– Pois saiba que esse é meu direito. É minha opinião.

Mas será que é tua mesmo?

– Bandido bom…

– Não! Nem precisa terminar! Bandido bom… eu nem quero saber!

– Deixa ele terminar, porra, e se rolasse um plottwist no meio da frase?

Não preciso terminar porque vocês já sabem, mas fingem que não querem saber.

– Por que eu iria fingir ter uma opinião que não tenho?

Eu faço isso o tempo todo. Dá licença?

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Espirais Políticas

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É triste, e até mesmo um tanto inevitável, que uma pesquisa pela Internet contendo os caracteres ‘Agosto’ e ‘Rubem Fonseca’ acuse uma quantidade gigantesca de resumos preparatórios para o vestibular, e quase nenhum artigo realmente importante que tenha se dado conta de um valor que, neste livro, vai muito além daquele esperado pelas exigências de uma prova. É quase como se, ao colocarem o romance numa lista obrigatória de vestibular com a bela e nobre justificativa de canonizá-lo ou, o que é mais plausível, de obrigá-lo à leitura da população, todo o seu conteúdo acabasse se limitando a estas mesmas exigências, a ponto de fazer parecer que o livro existe apenas para isso. A verdade é que nada disto importa. Agosto, romance de Rubem Fonseca publicado em 1990, talvez, tornou-se obrigatório porque é, provavelmente, o livro mais famoso dentre aqueles que se dedicaram ao tema da entropia e da paranóia política que de vez em quando, em certas situações bem específicas, aflora na opinião pública brasileira.

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