todo o plástico que há nos oceanos

Começou com uma pessoa só caminhando em direção ao mar e entrando na água até sumir sob as ondas. Era um funcionário do departamento de trânsito, homem de cabelo calvo, aqueles traços típicos do sul da Índia. A cena se deu na avenida costeira de Mumbai, onde anos antes uma baleia jubarte fora encontrada morta, asfixiada por um emaranhado de fios e plástico. Ainda que tivesse sido testemunhado por uns poucos, aquele gesto de morte vinha dotado de um extremo poder de contaminação. Não demorou para que outras pessoas imitassem o suicida. Em poucos dias o fenômeno se alastrou por todos os litorais do mundo, San Francisco, Rio de Janeiro, Marselha, Sidney,  e no final do mês grandes massas de seres humanos já se tinham afogado nos oceanos.

Havia algo de convidativo naquilo: os cadáveres nunca foram encontrados. Acionaram as equipes de busca e mergulhadores profissionais. Ninguém os viu boiando por aí. Os que saíram para procurar também não voltaram.

Os motivos elencados para o suicídio em massa respondiam a uma mesma questão geral: os suicidas queriam limpar o plástico do fundo dos mares. Tinham recebido o chamado de algum deus marítimo e responderam ao pedido de ajuda. Se possível fosse, reciclariam a si mesmos durante a empreitada.

Visões de pelicanos engasgados com sacolas de supermercado, golfinhos brincando com garrafas PET, pinguins enforcados em lacres, e cavalos marinhos engastalhados em cotonetes e copinhos de plástico aos poucos se imiscuíram nos sonhos humanos, e depois de um tempo não havia mais quem não sonhasse com essas coisas.

Calafrios de asco e culpa levaram fatias populacionais a se adiantarem em estranhos atos de expiação e autoflagelação. Com a consciência ferida, era possível ver multidões ajoelhadas nas famosas praias que outrora haviam sido o destino de tantos turistas pelo mundo.

Quando a questão ficou mais clara, grandes mutirões de limpeza se arregimentaram nas cidades costeiras e partiram para dentro do mar. As ONGs ambientalistas aumentaram suas campanhas de recrutamento, e longas filas de novos voluntários se inscreviam todos os dias, nas grandes avenidas das capitais do mundo.

Campanhas de marketing e propagandas de televisão aderiram à causa ambiental. Atores de Hollywood, expoentes da ciência e do intelecto, até mesmo youtubers, todos uniram forças, alimentados pelo pavor da visão de aglomerados humanos marchando decididamente em direção ao oceano sem ninguém que os guiasse. Naquela altura, eram capazes de acreditar pateticamente que a modificação dos hábitos impediria os suicídios de continuarem acontecendo, e começaram a procurar remédios e tratamentos para aquela que supostamente era uma doença psicológica postulando uma nova era, galgando novos níveis de autodestruição.

Foi então que todos perceberam algo incrível: as ondas aumentaram de tamanho, e o mar avançava sobre a terra. Netuno, o deus sem dedos, o sacudidor das terras, vinha buscar os que se recusavam a ouvir o chamado. Todos os sintomas de depressão e isolamento, esquizofrenias, bipolaridades, desequilíbrios mentais irreversíveis, confluíram para um mesmo diagnóstico segundo o qual as marés e a poluição dos mares eram os grandes causadores.

Sanar o problema dos mares seria curar uma humanidade adoentada. Todos tinham pelo menos um amigo próximo ou então um conhecido que sabiam ter nadado rumo ao fundo do mar e desaparecido para sempre.

Frotas de navios fantasmas atravessavam os estreitos de Málaca. Aviões mergulhavam no Mar da China e desapareciam nas profundezas. Plataformas de prospecção de petróleo eram implodidas pelos seus últimos sobreviventes. Pontes interditadas sediavam suicídios durante o amanhecer. Políticas públicas mostraram-se ineficazes, e o uso de força militar não conseguiu conter as levas cada vez maiores de afogados.

Num determinado momento, os próprios soldados abandonaram o serviço e nadaram até o mar aberto, onde então desapareceram sob as águas.

Sobreviventes se trancaram em abrigos, no interior dos países, no alto das montanhas, para longe dos mares, dos rios e dos lagos. As religiões tiveram de reinterpretar seus textos canônicos frente a esse insólito arrebatamento, e novos profetas ganharam voz naquela nova era inaugurada pela inexorável voluntariedade do ecoativismo suicida. Tortura e linchamento público era o que cabia aos funcionários e diretores das empresas químicas. Pesquisas com polímeros foram suspensas e todo o material teve de ser queimado. A BASF e a Du Pont fecharam as portas e seus dirigentes e executivos, trancafiados em caixões de madeira, numa belíssima cena, desapareceram ao serem lançados no mar.

Enquanto isso os funcionários das corporações petroquímicas multinacionais celebravam aquilo que pensavam ser o início de suas férias eternas. Imaginavam as temporadas que passariam em atóis e arquipélagos isolados na Polinésia, protegidos por grandes faixas de plástico empilhadas pelos engenheiros naturais das ondas.

A Grande Barreira de Coral reluzia e podia ser vista do espaço. Satélites fotografaram grandes alterações nos movimentos migratórios das aves e dos peixes. O curso e a temperatura das correntes marítimas foram redefinidos. Manchas de petróleo eram sugadas pelo ralo do mundo. Blocos de gelo manobraram de volta para o Ártico. Navios de pesca puxaram de volta suas redes para nunca mais as lançarem de volta ao mar, e delas caíram apenas os detritos da indústria humana, na forma de parafusos, garrafas, latões e pneus.

Câmeras não tripuladas foram até o pélago e rastrearam os esconderijos dos exércitos submarinos. Filmaram aquilo que era uma enorme cidade de plástico, conurbada por milhares de quilômetros por baixo do mar.

Como é que então durante esse tempo todo havia sido possível que os mortais dormissem em suas casas à noite sabendo que nas fossas do mundo viviam montanhas de caranguejos brancos nadando desopiladamente em meio a grandes chaminés de vapor nas regiões abissais? Como podiam tolerar tamanhas massas de vermes tubo à deriva nas partes escuras e frias dos mares?

Novas formas de vida evoluíram do plástico, e uma bioestrutura colonial complexa de micro-organismos e derivados do petróleo, dotada de inteligência e vontade, passou a reinar por todo o ecossistema marítimo, sendo ainda ajudada por espécies subalternas como os cefalópodes e os cetáceos.

Civilizações de plânctons prosperavam dentro de suas infinitas galerias. Águas-vivas durante a infância brincavam à sombra das florestas de algas.

Essa incrível estrutura, para o pânico geral, era abastecida e alimentada pelos contingentes populacionais humanos que nadavam em sua direção feito zumbis, à semelhança de um incrível fungo carnívoro que chupava por dias e dias o cérebro de suas vítimas suicidas.

Envolvidos por cobertores de plástico, milhares de pessoas repousavam na simbiose de um semi sono submerso, de onde então suas mentes percorriam grandes tubulações de canudos acoplados até juntarem-se diluídas numa imensa e aquática mente cósmica superior, com uma espécie de bulbo gosmento encravado na Fossa das Marianas, e sabe-se lá o que é que experimentavam ali: se o conforto infinitamente prazeroso compartilhado pela consciência coletiva, distribuída de forma fasciculada pelos capilares porosos do mundo, ou então os tormentos infernais dos quais uma parte considerável da evolução da natureza teria fugido desde o período Siluriano, e que os fizera sair do mar para irem andar em terra firme.

Em outros cantos molhados da esfera terrestre, todas as carcaças dos naufrágios de todas as eras floresceram e deram origem a paraísos coloridos de vida e morte, onde bolhas e cilindros imprevisíveis sediavam experiências químicas malucas que levariam milhões de anos para resultar em qualquer coisa. Nas datas marcadas, dos krakens aos leviatãs, os nomes dos monstros marinhos das lendas eram evocados em rituais dirigidos pelas divertidas e tagarelas enguias montanhesas. Nas fendas, por entre as placas tectônicas, um milhão de olhos curiosos e sem pálpebras emergiram da zona do abismo e tornaram-se os juízes de todos os pecados da civilização de consumo que prosperara sob a égide do capitalismo globalizado.

Havia um laboratório acontecendo no fundo do mundo. Moléculas narcóticas deram origem a reinos natimortos de embriões tóxicos. Subitamente, barulhos e sons que a humanidade nem se dava conta que ouvia, e que por isso mesmo haviam aderido às suas atividades e ao volume normal de seus dias o bastante para que sempre tivessem passado despercebidos, cessaram.

Como não sabiam de onde vinham, nem qual era a natureza desses sons agudos e graves que de repente haviam cessado, tampouco as gentes souberam descrevê-los para si mesmas.

Isso levou todos à crença de que o planeta despertava. Nenhum astrólogo, nenhuma profecia política ou religiosa jamais pôde prever aquele despertar, e o até mesmo o eixo de rotação do planeta terra sofreu uma desaceleração. Por conseguinte, sua trajetória de translação foi alterada, e os astrônomos e alienígenas tiveram de atualizar seus cálculos. As estações do ano se inverteram, novos meses foram acrescentados ao calendário, novos feriados, novas chuvas e frentes frias.

Todos os objetos voadores não identificados, avistados ao longo dos anos pelos aeronautas e pelos cinegrafistas amadores ao redor do mundo, aterrissaram nos hangares submarinos escavados na Dorsal Atlântica, e estranhas formas de muitos membros com ventosas eram vistas saindo de dentro deles.

No Triângulo das Bermudas uma Nova Atlântida soergueu-se  dos escombros e passou a enviar seus emissários para as nações terrestres que ainda perduravam. Seus novos deuses acrescentaram-se aos panteões existentes, e o seu hino passou a ser entoado nos campeonatos internacionais de futebol e nas corridas de fórmula 1.

Ninguém decretou guerra aos novos habitantes dos mares. A fauna e a flora viu-se renovada em tempo recorde dentro daquilo que até então tinha sido o padrão universal de vida em condições regulares de existência. Os corpos de todos aqueles que migraram para o fundo do mar, decididos a ajudar na limpeza do plástico, foram devolvidos, cuspidos de volta pelo oceano que os havia engolido, e voltaram modificados, reciclados pela Inteligência Marítima Superior. Além disso, comporiam ainda a delegação mais numerosa dos Jogos Olímpicos do futuro.

Novas fantasias carnavalescas, toda uma série de gêneros, receitas culinárias, novos tipos de caviar e tempos verbais exóticos inseriram-se no repertório humano. Membranas, guelras, cerdas, cílios, longos apêndices bioluminescentes, tentáculos, esponjas, duras cascas de silício e cálcio, exoesqueletos de plástico e fibra, hidrocarboneto e querogênio , a fisionomia humana viu-se enriquecida e as antigas cidades abandonadas passaram a abrigar uma espantosa e diversificada miscelânea de habitantes humanoides salgados. Um intercâmbio cultural de proporções planetárias consolidou o reinado de uma nova classe de primatas marítimos, e no decurso de uma década todas as doenças venéreas e respiratórias se extinguiram.

Nessa altura a história humana já também tinha se reciclado toda. Séculos passaram. Os continentes apresentavam agora formatos diferentes daqueles de quando tudo começara. Antigas indumentárias, vestimentas, trajes de gala e uniformes militares foram substituídos por embalagens ultra-descartáveis.  Incapazes de diferenciar o tom de fala, o sotaque, sujeito e objeto, os seres vivos, alçados à imortalidade plástica conferida pelos poderes dos gigantes das profundezas, perderam de vista a fronteira entre os países, entre as culturas, entre a vida e a morte, o orgânico e o inorgânico, o sujo e o limpo, o belo e o feio, o existente e o inexistente, a terra e o mar, tudo soterrado pelo plástico que sobrou daquilo que inventaram de consumir na brevidade passada de alguns anos de abundância e fartura, e que para sempre modificou o espírito da Terra.

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