o caronavírus

Centro da cidade, mas não lembro bem aonde eu ia. Perambulando no ar, as pendências, as urgências – não, nada disso. Eu ia tranquilo, tranquilo eu ia. Naquela noite, nenhuma novidade. Nenhuma estrela no céu. Ninguém além de mim que fosse e andasse pela calçada. Ninguém atravessando a rua. Ninguém.

O centro da cidade, àquela hora, estranhamente aceso e vazio. Ruas de nomes bem conhecidos. Eu vestia um agasalho velho que herdei de meu avô. Havia frio.

Cada barulho chamava pelo meu nome. Meus passos, enormes intervalos entre eles. Gente conversando do lado de dentro dos restaurantes. Não tinha chovido ainda naquela semana.

Bueiros explodindo.

Até que então notei um carro que vinha vindo pela rua. Íamos, eu e a rua, no mesmo sentido. O carro, era um conversível. Dava pra ver que o carro sorria. Ele vinha sozinho, guiado por nenhum motorista. Devagarzinho, foi chegando perto, e aí eu pude ver melhor que, realmente, ninguém, ninguém dirigia o veículo.

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aquela vez em que cozinhamos pra uns stalinistas

Quando meu amigo me disse que tinha conseguido encontrar ópio em Coimbra, resolvi imediatamente colocar a cidade na rota de minha viagem.

Foi um janeiro alegre como há muito não vivia. Junto de uma outra viajante, telepata e dona de todos os outros talentos necessários aos viajores, atendendo pelo nome das musas de Manoel Carlos (aquela que causou a desavença entre os gregos e os troianos) perfiz uma viagem que bem poderia ter sido mais longa, mas que, dentro de suas limitações, nos colocou para conhecer aquele belíssimo triângulo que desponta na esquina do Atlântico: Portugal, Espanha, e Marrocos.

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o problema da literatura contemporânea segundo um velho sábio persa

“[…] o discurso que ouvira, em minha mocidade, quando de minha primeira estada na Pérsia, num dia em que assistia a uma reunião de intelectuais, na qual se discutia sobre a cultura contemporânea.

Entre os que mais falaram nesse dia, estava um velho intelectual persa – intelectual, não na acepção europeia da palavra, mas no sentido que se lhe dá no continente da Ásia, isto é, não somente pelo saber mas pelo ser. Era, aliás, muito instruído e possuía um profundo conhecimento da cultura europeia.

Disse, entre outras coisas:

‘É muito lamentável que o período atual de cultura – que denominamos e será denominado pelas futuras gerações civilização europeia – seja intermédio, por assim dizer, na evolução da humanidade; em outros tempos, que seja um abismo, um período de ausência no processo geral de aperfeiçoamento humano, uma vez que os representantes dessa civilização são incapazes de transmitir a seus descendentes, como herança, qualquer coisa de válido para o desenvolvimento da inteligência, esse motor essencial a todo aperfeiçoamento.

Assim, um dos meios principais de desenvolvimento da inteligência é a literatura.

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os confins da imaginação

Estávamos no ano de 2003, na sala de informática do Colégio Objetivo, em Birigui, interior de São Paulo. Não sei se havia alguma atividade da qual havíamos sido dispensados, as aulas de informática sempre se pareceram de alguma forma às aulas vagas, mas a turma ficou livre pra explorar a Internet durante alguns bons minutos antes do intervalo.

Como não havia computadores pra todo mundo, nós alunos éramos obrigados a dividir as máquinas, e duplas e trios mistos operavam cada uma delas. Isso fazia com que a experiência de navegação fosse bastante coletiva, cada coisa curiosa sendo imediatamente compartilhada entre a turma.

Assim, não poucas vezes, a experiência de assistir aos vídeos mais polêmicos do início do século XXI, dentre eles execuções, decepamentos, suicídios, aparições e acidentes, bem como a contemplação de fotos sangrentas exibindo os corpos de famosos mutilados, tudo isso foi sempre acompanhado de muita demonstração conjunta de choque e curiosidade.

Naquele dia, no entanto, o que nos tomou a atenção foi um joguinho. Alguém, que provavelmente o encontrou no histórico ou na barra dos favoritos em algum lugar, apareceu com esse puzzle em que um gnomo explorava lugares bastante difíceis de serem descritos, mas cheios de personalidade. Alguma coisa espacial-florestal de escala imprecisa, povoada com detritos tecnológicos, e com ares bastante alucinógenos, quase sonolentos, onde você ia clicando com o mouse, quase à deriva, até descobrir acidentalmente caminhos que nem sempre saberia refazê-los. Não me lembro como fui parar ali (talvez fosse o efeito da paisagem), mas me lembro que imediatamente todo o restante do pessoal já estava tentando resolver os desafios, entre simples e intuitivos, e trocando informações a respeito de certas áreas.

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o mundo está ficando mais chato?

Habiéndose negado él al entendimiento y a la voluntad, le queda sólo el juego de la memoria: quando lo presente ya nada nos insinúa y lo futuro no tiene color delante de nuestros ojos, ¡bueno es dirigirlos a lo pasado, sí, allá, donde tan fácil es reconstruir las bellas y sepultadas islas de júbilo!

Leopoldo Marechal, Adán Buenosayres

É um dia nublado. O Imortal decide colocar sua cadeira de fio colorido trançado no passeio à frente da sua casa pra mó de contemplar melhor a vizinhança. Além da contemplação tranquila e desinteressada, há em sua pequena ação uma escolha consciente de cumprir também com este bem estabelecido ritual que há nas cidades interioranas.

O Imortal, sentado em seu trono, olha para o céu nublado – as nuvens que são o cérebro do deus Ymir. Algum tipo de conexão estabelece uma correspondência metafórica entre as informações que hoje são armazenadas em nuvens virtuais, a mente do Imortal, e o céu nublado que paira sobre a cidade.

Ele captura um pensamento que estava de passagem no trânsito à meia-altura. Um pensamento que, delineado e lapidado, consegue se expressar num enunciado bastante desconfortável: “o mundo está ficando mais chato.”

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luv, dmt, secreções ectoplásmicas & o Nepal

katmandu

“Dois anos antes, durante a primavera e o verão de 1969, morei no Nepal e estudei a língua tibetana. A onda de interesse por estudos budistas estava apenas começando, de modo que nós, que estávamos o Nepal querendo aprender tibetano, éramos um grupo unido. Meu objetivo ao estudar tibetano era diferente do da maioria dos ocidentais envolvidos com a linguagem no Nepal. Quase todos estavam interessados em algum aspecto do budismo Mahayana, ao passo que eu me sentia atraído pela tradição religiosa que antecedeu, no século XVII, a introdução do budismo no Tibete.

Essa religião pré-budista do Tibete era uma espécie de xamanismo estreitamente relacionado com o xamanismo clássico da Sibéria. O xamanismo do povo tibetano, chamado de Bön, continua a ser praticado hoje em dia na área montanhosa do Nepal que faz fronteira com o Tibete. Seus praticantes são em geral desprezados pela comunidade budista, vistos como heréticos e, geralmente, como pessoas de baixo nível.

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Notas sobre o Deserto Patagônico

deserta

– Kant diz que se o mundo é redondo e, portanto, finito, então as gentes são obrigadas a suportarem umas as outras, sem a opção de poderem debandar em direção ao infinito, caso o mundo fosse uma planura sem fim.

– Kepler dizia que os corpos celestes eram todos do mesmo tamanho. Talvez estivessem distribuídos em círculos. Sem um telescópio para observá-los com mais nitidez, ninguém, em sua época, pôde oferecer uma contestação mais fundamentada. A diferença de brilho, de uma estrela para outra, provinha da distância que nos separava delas – é o que ele pensava.

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