o orientalismo enquanto delírio

            Aquilo que se convencionou chamar de orientalismo é a reunião de uma série de tropos que sintetizam certas qualidades, padrões, generalizações e expectativas a respeito de uma porção geograficamente imaginária do mundo: o Oriente.

            Esses tropos se articularam ao longo de uma tradição textual que se compôs a partir dos relatos de viajantes, mitologias, tratados geográficos, filológicos e políticos, em suma, todo um repertório que bem poderia, a partir de um certo ponto, ser classificado como erudito ou científico. Assim, o orientalismo também pode ser identificado como um campo da erudição europeia moderna.

            Este campo de erudição, que sugere diferentes aplicações científicas e administrativas, esteve, em suas origens, mediado por relações de alteridade que remetiam à Antiguidade, à constituição da própria cristandade, e mais tarde, ao eixo civilizatório europeu oposto ao restante do mundo – e nisto incluindo algumas civilizações mais antigas que as da Europa, como a Índia e da China, então concebidas a partir de uma contemporaneidade decadente. No decurso do século XVIII, o contato do europeu com as suas colônias na Ásia passou a se qualificar a partir de uma situação de dominação que pesava em favor dos primeiros.  A apreensão das culturas asiáticas teve de atravessar um filtro de mecanismos cognitivos e discursivos quase sempre amparados, ou até mesmo dependentes, de empreendimentos “redutores”. Arbitrariamente, reduzia-se elementos da cultura dominada a um tamanho apreensível, o que resultava em caricaturas, fantasmagorias, idealizações etc., que correspondiam com os desejos e expectativas imaginárias dos europeus.

            Não apenas de caricaturas as representações do oriente eram feitas, contudo. O enorme volume de informação coletada em campo, de classificações e categorias amparadas em esquemas e modelos universalizantes, aos moldes naturalistas, também se produziu a respeito do oriente, como haveria de ser, enquanto resultado de um interesse científico catalogador que reduziu os espaços do mundo e exorcizou para sempre as áreas sombrias e ocultas do globo.

Continuar lendo

das atribuições psiconáuticas

O que é a psiconáutica?

É a habilidade de experimentar com os estados da consciência. Por “estados da consciência” compreendo algo diferente das nossas disposições físicas, como a aptidão e o cansaço, ou anímicas, como a histeria e a tristeza. Refiro-me às diversas capacidades perceptivas, sensoriais, de intuição, raciocínio e expressão deflagradas e liberadas pela digestão química de certas substâncias que as estimulam.

A psiconáutica não depende, contudo, destas substâncias. Digamos que a capacidade natural para sonhar, e o nosso interesse de refletir, interpretar, e investigar as camadas do sonho são, é claro, um tipo de psiconáutica, uma vez que envolvem a navegação pela psiquê – como assim sugere a própria etimologia do termo.

O objeto da psiconáutica, portanto, é aquele conjunto de atribuições conferidas à entidade mente-alma (psiquê). Ou, como dissemos anteriormente, a consciência. Se a metáfora apresentada na definição etimológica do termo envolve algum tipo de navegação, então é justamente na movimentação das ondas que devemos pensar quando chegar a hora de tentar elaborar alguma imagem da consciência. Se a psiconáutica envolve uma disposição para experimentar com os estados da consciência, isso nada mais é do que a vontade de explorar os infinitos mares que se abrem ao seu alcance.

Continuar lendo