este blogueiro começou a escrever um artigo pro seu blog, e o que aconteceu depois vai te deixar…

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Certa feita, em uma entrevista, o produtor musical Romero Silveira (43, paulistano) afirmou que logo em breve, com o avanço das tecnologias publicitárias, se tornaria cada vez mais fácil e mais racionalizada a maneira com que um artista, ou qualquer figura pública, conseguiria ganhar alguns cliques em um ambiente virtual. A empatia a ser conquistada seria consequência dessa visibilidade proporcionada por um processo espontâneo apenas em aparência. Daí que tanta gente, nas redes sociais, usem factoides ou a polêmica como plataforma de visibilidade. A chamada, o título, obviamente, são o destaque que ofusca o conteúdo quase inexistente – a apresentação é fundamental. Trata-se do fenômeno cata-clique.

Problema para os historiadores do presente: desde quando a corrida por cliques tornou-se relevante? Desde quando adestrar a recepção, a percepção do público, se tornou possível ou conveniente? Até que ponto uma opinião pode continuar sendo rentável? Publicidade gera mais publicidade – o ciclo da monetização. Há tutoriais, métodos, programas, aplicativos, muita coisa voltada pra pessoas interessadas em gerarem tráfego nas suas páginas e a partir daí faturarem alguma grana pra poderem viver disso. Não há nada de errado em escolher uma atividade dessas pra sua vida, na verdade. (Em minha opinião, não há nenhum problema desde que o assunto escolhido para tanto não seja voltado para a auto-promoção, ou que seja algo inofensivo, como é o caso dos felinos fofinhos compartilhados até a exaustão).

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o dia em que nossa amizade não sobreviveu a uma reavaliação ideológica

peter doig

Até que acontece. Nem as previsões epistemológicas e análises dóxicas mais precisas conseguem antever o dia em que será, o assunto do qual brotará a cabal divergência – aquela decisiva opinião que será o ponto de chegada ou o ponto de partida para as carteiradas vindouras -, a germinante centelha que, espalhando-se como o fogo no cerrado, terminará incendiado os ânimos, os amigos, ou o casal, ou os pais e os filhos (caso em que o fenômeno é mais frequente, e às vezes até mesmo procurado pelas partes envolvidas), pra depois esfriá-los dentro da geladeira pra onde vão depois de mortos.

Até que acontece. Ou já somos suspeitos há algum tempo, e a patrulha à paisana está num dia muito atribulado, não nos é permitido tolerar certas transgressões, incompatibilidades, humores caprichosos e insensatos, belicosos, fleumáticos, uma distância enorme entre os lugares que habitamos nos espectros políticos e a certeza absurda de que é justamente aí que devemos firmar pé.

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por uma direita esquerda

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A Última e Mais Completa Crítica Social já se encontra disponível para ser compartilhada entre os povos.

A cada Semana uma Crítica mais terminal, uma Análise mais nocauteante que a anterior.

Ninguém se arrepende em esperar. Quem discorda ou concorda, todos saem ganhando.

Ninguém é salvo pelo gongo.

São milhares de acessos por hora.

Os apostadores apostam em quem vai chegar primeiro à Linha de Chegada: se o Modelo Explicativo, ou a Realidade Vivenciada. Os apocalípticos ou o Apocalipse.

Empates são raros.

Pelo bem geral da Nação, proibiremos os cidadãos de possuírem opiniões.

Queremos evitar as disputas por significados.

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o tio que foi à guerra

robert knox sneden

Depois de tanto insistirem pra que o tio lhes contasse da campanha da Itália, as crianças conseguiram tirá-lo de sua mudez casmurra, e dali, de sua cadeira de balanço, o que as crianças ouviram foi um discurso que jamais esperariam ouvir do tio, posto que quase nunca o ouviram falar tão depressa e com tanto volume:

– Meninos, se querem saber, eu conto, eu respondo, mas com a condição de que se faça silêncio. Querem saber como é ir à guerra? Pensem em duas coisas que, provavelmente, qualquer um de vocês já deve ter vivido. Coisas da infância. Comecem esquecendo os filmes, as explosões, os mocinhos e os bandidos. Não precisam de nada disso pra imaginar como é a guerra. Para quem esse destino terrível não se imponha, espero que nenhum de vocês, moleques, tenha de ir à guerra, é bem possível de imaginarem como é o conflito, a sensação terrível do front, sem terem até mesmo estado lá. As sensações que sentimos num lugar desses é só uma forma mais avançada de certos medos e temores que já sentimos na infância. Quero que se concentrem em duas sensações que todos vocês já devem ter sentido. A primeira é semelhante a certos momentos que experimentamos também em brincadeiras de esconde-esconde. Sabe, aquele segundo em que estamos escondidinhos, atrás da janela, ou atrás do arbusto, de uma pilastra, na sombra, aquele preciso instante em que estamos escondidos e nos acomete uma vontade repentina de dar uma mijada? Talvez seja o risco de sermos descobertos, não há quem não tenha sentido isso, pelo menos por uns dez segundos quando foi criança, quando brincou de esconde-esconde, principalmente pentelhos como vocês, que ficam na rua dia e noite¹. Agora imagine essa sensação triplicada, exagerada até o grau mais agudo, essa ânsia de mijar, de dar aquela urinada, mais ou menos como quando você, meninos, ficam segurando a vontade durante o futebol inteiro, as pernas contraídas, antes de voltarem pro intervalo da aula e depois se refestelarem no mictório do banheiro, pensem nessa sensação de dar essa mijada escandalosa como se fosse algo permanente, algo que não vai embora, e que persiste durante toda batalha. Ela dura tanto tempo que você se acostuma com ela, e quando vai mijar de novo, quando vai mijar de verdade, fica parado um tempão na frente da privada, sem saber se tem mesmo algo querendo sair dali ou não. E pode acontecer até de a vontade continuar com você, mesmo depois de ter esvaziado a bexiga. Conseguem imaginar algo assim? Talvez outros tenham desfrutado a guerra de maneira mais relaxada ou prazerosa do eu, porque a guerra em que lutei, fazendo o que eu fazia… Pra alguns deve ter sido divertido, eu não duvido! E olha, nunca me chamaram de covarde. Nada disso está em jogo. Nada a ver com covardia, bravura. É tão raro alguém encontrar alguma oportunidade que seja pra provar o próprio valor… Qualquer um pode ganhar ou perder medalhas! E se essas sensações não falharam comigo, que era um soldado, eu não quero nem saber como é que deve ser com os que estão desarmados, as pessoas comuns, as que chegam a abandonar o próprio país. Pois bem, como eu dizia! A segunda sensação crianças, como eu dizia!, também deve ter já acontecido com alguns de vocês. Isso é importante. Todos devem se lembrar. Envolve você, qualquer um, menino, menina, você, a sua família, e um supermercado, ou uma feira, que seja, a festa junina, e envolve você perder-se deles. É sempre por um breve momento até que se resolva, mas a duração é o bastante para que se cogite o fato de que nos perderemos para sempre, porque há evidências, não há? Todos sempre ouvimos falar de crianças que são sequestradas e que são separadas para sempre de seus pais. Imagine que entre os soldados que lutam juntos há algum tempo, todos são a família de todos. Então é mais ou menos como quando vamos aos lugares grandes, shows, carnavais, por exemplo, e ficamos preocupados de as pessoas não irem muito longe e se perderem, porque na guerra, se elas se perderem, elas nunca voltam, os da nossa família.

1. – Esse diálogo aconteceu em 1982, o que explica que as crianças ainda brincassem na rua, e não com os seus tablets e videogames em apartamentos cinzentos.


Imagem: Robert Knox Sneden

ascenção e queda do bidê, parte 2

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Há quem diga que o bidê, após o acoplamento da ducha, tenha se tornado o instrumento mais capaz e o maior responsável dentre os dispositivos modernos a dar uma dimensão verdadeiramente nova de significados à palavra “analógico”. O seu uso ancilar à higiene no século XX chegou até mesmo a tornar-se obrigatório em alguns países, como a Itália. Costumava instalar-se no quarto, de onde foi demovido, passando depois a habitar os banheiros. A origem da palavra vem do francês “bidet”, ou “bider”, que quer dizer “trotar” – uma óbvia comparação à posição em que montamos num cavalo sugere que também estaríamos montando este valoroso utensílio doméstico, que hoje, após a cansativa saga dos anos 80 e 90, sobrevive em grande parte dos apartamentos de classe média funcionando como um depósito de revistas velhas, em cujo acervo deveriam certamente constar algumas edições clássicas da Revista Isto É, Época, ou Veja, e Playboys da época em que vaginas ainda tinham pelos, sempre no fundo mais inalcançável da pilha de revistas que, erguendo-se de dentro do bidê, parece não ter fim. A comparação é pertinente. O coice proporcionado pela forte propulsão de alguns bidets que experimentei já me fez sentir violado.

Quando colocados ao lado da privada, em banheiros de menor espaço, distintos dos banheiros modelo europeu, podem acabar levando crianças ou idosos com problemas de vista a confundi-los com a própria privada, e as fezes, ao contrário de boiarem no confortável reservatório de água da privada, escorreriam pela fria louça do bidê antes de esvoaçarem pelo banheiro quando o defecante girasse a válvula pensando em ativar a descarga e, sem saber, desse vazão à água que, com forte impulso, saltaria pra fora do bidê, onde antes estava acostumada a entrar na cavidade anal ainda mais ou menos suja do defecante em questão e exercer ali o seu poder de limpeza, agora voaria livre, levando consigo dejetos nunca dantes vistos.

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Vaticínios

RWS_Tarot_05_Hierophant – Há boatos bem convincentes que dizem que as últimas palavras do rei Mitradates II, do Império Arsácida, foram: “Os tigres já estão alimentados?”.

– Até 2020, cientistas japoneses prometem ter dominado a engenharia genética a ponto de conseguirem produzir em laboratório um cão que emite sinal de wi-fi. A rede não deverá ter senha.

– Brodowski, terra de Portinari, no início do século XX, era bem mais perigosa do que qualquer cidadezinha do velho Oeste americano.

– Polvos representam 11% dos animais abduzidos por alienígenas.

– A atividade da usina hidrelétrica Três Gargantas, construída na China, retardou a rotação da Terra.

– Cientistas da Universidade da Califórnia suspeitam que alguns odores sejam capazes de viajar através do espaço-tempo.

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Precisamos falar sobre abdução

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Precisamos falar sobre abdução. O assunto impõe-se com urgência na pauta do dia. Conversaremos sobre isso durante o almoço, durante as refeições. Os filhos indagarão os pais. Os irmãos desconfiarão de seus irmãos. Os maridos irão se separar de suas mulheres, e as mulheres terão dúvidas a respeito de seus maridos. E por todo lugar reinará a discórdia. Os amantes, tendo mentido uns para os outros, na tentativa de ocultarem seus segredos, deverão expiar os seus pecados e erros e mentiras, e deverão falar sobre abdução, pois somente neste assunto e por meio dele o homem alcançará ser absolvido, e perdoado. Os inimigos políticos deverão deixar de lado suas diferenças, e, sentados à mesma mesa, discutirão a respeito da abdução, e da aparição de luzes estranhas, e dos sequestros noturnos, e dos sonhos em que somos visitados por seres de outra procedência, e do formato dos discos voadores, sua circunferência e diâmetro. Deverão pela manhã, os políticos, juntos de outros sete assistentes, elaborar propostas para os seus rebanhos, deixando-os livres até a tarde de sábado, quando tornar-se-á pública a discussão sobre abdução, e dela poderão então participar os seus rebanhos. E os anciões deliberarão as diretrizes principais do debate, e cada participante terá um minuto para a pergunta, três para a resposta, dois para a réplica, e mais dois para a tréplica. E o povo será conclamado a comparecer às ruas, para que satisfaça o seu furor. Ao fim do equinócio, estará todo o povo absolvido. E isto é o que me foi dito.