o problema da literatura contemporânea segundo um velho sábio persa

“[…] o discurso que ouvira, em minha mocidade, quando de minha primeira estada na Pérsia, num dia em que assistia a uma reunião de intelectuais, na qual se discutia sobre a cultura contemporânea.

Entre os que mais falaram nesse dia, estava um velho intelectual persa – intelectual, não na acepção europeia da palavra, mas no sentido que se lhe dá no continente da Ásia, isto é, não somente pelo saber mas pelo ser. Era, aliás, muito instruído e possuía um profundo conhecimento da cultura europeia.

Disse, entre outras coisas:

‘É muito lamentável que o período atual de cultura – que denominamos e será denominado pelas futuras gerações civilização europeia – seja intermédio, por assim dizer, na evolução da humanidade; em outros tempos, que seja um abismo, um período de ausência no processo geral de aperfeiçoamento humano, uma vez que os representantes dessa civilização são incapazes de transmitir a seus descendentes, como herança, qualquer coisa de válido para o desenvolvimento da inteligência, esse motor essencial a todo aperfeiçoamento.

Assim, um dos meios principais de desenvolvimento da inteligência é a literatura.

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o efeito forer

A primeira vez que ouvi falar sobre “validação subjetiva” deve ter sido em uma reportagem na Revista Galileu. O artigo dedicava-se a abordar o fenômeno como um viés cognitivo capaz de localizar em sistemas reais uma quantidade de informação compatível com o sistema de crença pessoal de cada um, ao mesmo tempo em que transforma em ruído qualquer informação que contrarie a lógica embutida no resultado de tal operação. Resumindo: uma estratégia psicológica pra validarmos coisas em que já acreditamos, recolhendo e interpretando arbitrariamente informações que parecem se adequar àquilo que queremos. Os inúmeros casos de paranoia social e a reincidência de teorias da conspiração seriam demonstrações genéricas e vulgares deste fenômeno, além de, claro, qualquer outro tipo de ideologia contemporânea que ouse adquirir alguma popularidade na Internet.

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há Marte em Água, digo…

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Se estamos certos em afirmar que o diálogo estabelecido entre a imaginação e a ciência funciona mais ou menos segundo um esquema que prediz que o que uma pensa ou intui em uma época, a outra tem por dever inventar ou conhecer na época seguinte, neste século sinistro e terminal talvez que a equação tenha se invertido um pouco, e decadentes que estão as nossas poéticas, não é cedo nem tarde invertermos os fatores pra sugerir que, depois desta última descoberta, se a ciência pretende continuar expandindo suas fronteiras, faz-se necessário que a imaginação a acompanhe.

Soa enfadonho e apocalíptico cogitar que a imaginação humana tenha envelhecido, e que o acúmulo dos séculos tenha transformado a nossa experiência, o nosso convívio, em uma espécie de demora, de atraso. A enorme carga de autoconsciência histórica é um componente obrigatório em qualquer enunciado filosófico, mas o fardo dos tempos não pesa apenas nas esferas sociológicas. Seu peso é sentido também entre aquelas artes que, há pouco tempo, conseguiam articular em um âmbito estético toda a paixão e o impulso que catapultavam as vontades de liberdade, de paz, de evolução da consciência, todo o deslumbramento oferecido pelas novas substâncias alucinógenas, como o LSD, naquele breve respiro de vinte anos após o holocausto, antes da curva descendente de um belíssimo e colorido espírito de época que desaguou na cocaína e nos anos 80. Os sonhos não envelhecem – morrem.

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diários oníricos

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A literatura que recorre ao sonho enquanto matéria-prima ou fonte para a elaboração de narrativas é abundante, farta. De início, alguns nomes vêm à mente: tanto Jorge Luis Borges quanto Jack Kerouac possuem um Livro dos Sonhos – o de Kerouac é um diário, o de Borges vale-se daquilo que sonharam figuras e personagens da história humana e sua mostragem já seria numerosa o bastante para que qualquer exercício de recapitulação se fizesse redundante; há o Finnegans Wake de James Joyce, a contraparte onírica do atribulado dia do Ulysses, que levou 16 anos para ser escrita; há o psicodélico Alice in Wonderland, de Lewis Carroll; há a vasta ciência especulativa produzida por Sigmund Freud e por Carl G. Jung; há The Man who was Tuesday, de Chesterton, que tem como argumento um pesadelo, e The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hide, de Stevenson, que parece ter saído de um; há Confessions of an English Opium Eater, de Thomas de Quincey, um intermediário entre estados de delírio e de sonho profundo; La vida es sueño, de Calderón de la Barca, tem no monólogo de Segismundo os versos mais memoráveis sobre o tema (Yo sueño que estoy aquí/ destas prisiones cargado,/ y soñé que en otro estado/ más lisonjero me vi./ ¿Qué es la vida? Un frenesí./ ¿Qué es la vida? Una ilusión,/ una sombra, una ficción,/ y el mayor bien es pequeño:/ que toda la vida es sueño/ y los sueños, sueños son.), mas além dele há outros tantos poetas que versaram sobre o tema: Guilherme de Almeida, em Berceuse das Rimas Riquíssimas (Durma à sombra dos meus olhos/ como de uma árvore, e molhe os/ seus sonhos nas minhas lágrimas), Edgar Allan Poe, e o sonho dentro do sonho (Is all that we see or seem/ But a dream within a dream?); há o infeliz conto de Dostoiévski, O sonho de um homem ridículo; há as paisagens desoladas do Hebdomeros de De Chirico; há o belíssimo Sandman, de Neil Gaiman; e, sem pensarem em estar fazendo literatura, a quantidade de profecias e visões que se deram em sonhos também não deve ser desprezada (há pelo menos 40 sonhos no Velho Testamento, dos pesadelos de Jó ao José adivinho que interpretava os sonhos do Faraó), e não existe religião ou conjunto de mitos que não recorra aos sonhos, assim também o comprovam o Popol Vuh, o Corão, o Bardo Thodol; e há, também, aquilo que poderíamos chamar de sonho latente – uma certa aura presente na literatura que não trata diretamente de sonhos, mas que se vale de artifícios que saíram deles, e aí a quantidade de obras identificadas como tal seria vasta, indo de Kafka a Juan Rulfo, Philip K. Dick, e qualquer outro escritor e poeta identificado como surrealista.

O livro que tenho em mãos, contudo, é o diário de sonhos de Georges Perec, La boutique obscure, traduzido para o espanhol (porque o livro não existe em português) como La cámara oscura [Editora Impedimenta, 2010; tradução de Mercedes Cebrián].

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luv, dmt, secreções ectoplásmicas & o Nepal

katmandu

“Dois anos antes, durante a primavera e o verão de 1969, morei no Nepal e estudei a língua tibetana. A onda de interesse por estudos budistas estava apenas começando, de modo que nós, que estávamos o Nepal querendo aprender tibetano, éramos um grupo unido. Meu objetivo ao estudar tibetano era diferente do da maioria dos ocidentais envolvidos com a linguagem no Nepal. Quase todos estavam interessados em algum aspecto do budismo Mahayana, ao passo que eu me sentia atraído pela tradição religiosa que antecedeu, no século XVII, a introdução do budismo no Tibete.

Essa religião pré-budista do Tibete era uma espécie de xamanismo estreitamente relacionado com o xamanismo clássico da Sibéria. O xamanismo do povo tibetano, chamado de Bön, continua a ser praticado hoje em dia na área montanhosa do Nepal que faz fronteira com o Tibete. Seus praticantes são em geral desprezados pela comunidade budista, vistos como heréticos e, geralmente, como pessoas de baixo nível.

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ascenção e queda do bidê

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Foi mesmo o modernismo quem transformou em piada esse negócio de mobilizar um grande aparato teórico pra levar adiante a análise de uma banalidade? Ascenção e Queda do Bidê; A Extinção do Touro-Mecânico; Genealogia da Uva-Passa; coisas assim. Quem foi que riu primeiro? Haveria de ser necessário que, antes, chegássemos à hipótese de que não há banalidades, simplesmente porque não há nada abaixo da superfície? Certo está, que foi antes dos historiadores tornarem isso um ofício. Há quem goste de pensar que, em termos literários, Ulysses, de Joyce, seja o êxito (e fracasso) máximo desse tipo de vontade. Uma piada seríssima. Uma piada e a gargalhada, às vezes relaxada às vezes desesperada, de quem riu da própria piada.

Tendo sido o modernismo ou não, a piada persiste até hoje nos circunscritos meios intelectualizados, às vezes servindo até como exercício literário-criativo: tergiversar sobre o nada, sobre aquilo que se confunde com o nada, recorrendo, para tanto, se e quando necessário, aos clássicos e cânones do pensamento e das letras – tornar interessante, e engraçado, aquilo que é ordinário e banal, mas de um modo que o esforço por tornar este algo em algo interessante não fique tão nítido a ponto de soterrar, com o excesso de estilo, a superficialidade transcendental de um caroço de azeitona, por exemplo, ou do cheiro do esmalte, ou dos processos fisiológicos humanos. A literatura, assim, é mais um esforço de criar o extraordinário do que de relatá-lo, esta que seria sua função original.

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anatomia de uma obra

eric fischl

O romance do escritor luso-argelino Aconcágua Mem, intitulado Looping Roliço (Editora Ventre & Vida), de 2011,  tornou-se, há pouco tempo, objeto de culto por uma parte da crítica literária especializada em coisa alguma, três anos após uma estreia que, ninguém discorda, passou-se bem desapercebida. A obra chamou a atenção daqueles que a leram, um grosso volume de 884 páginas, especialmente depois que Aconcágua supostamente deu-se por desaparecido seis semanas após o seu lançamento, tendo sido visto pela última vez em um café, em Medelín, a cidade colombiana em que residia.

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