das atribuições psiconáuticas

O que é a psiconáutica?

É a habilidade de experimentar com os estados da consciência. Por “estados da consciência” compreendo algo diferente das nossas disposições físicas, como a aptidão e o cansaço, ou anímicas, como a histeria e a tristeza. Refiro-me às diversas capacidades perceptivas, sensoriais, de intuição, raciocínio e expressão deflagradas e liberadas pela digestão química de certas substâncias que as estimulam.

A psiconáutica não depende, contudo, destas substâncias. Digamos que a capacidade natural para sonhar, e o nosso interesse de refletir, interpretar, e investigar as camadas do sonho são, é claro, um tipo de psiconáutica, uma vez que envolvem a navegação pela psiquê – como assim sugere a própria etimologia do termo.

O objeto da psiconáutica, portanto, é aquele conjunto de atribuições conferidas à entidade mente-alma (psiquê). Ou, como dissemos anteriormente, a consciência. Se a metáfora apresentada na definição etimológica do termo envolve algum tipo de navegação, então é justamente na movimentação das ondas que devemos pensar quando chegar a hora de tentar elaborar alguma imagem da consciência. Se a psiconáutica envolve uma disposição para experimentar com os estados da consciência, isso nada mais é do que a vontade de explorar os infinitos mares que se abrem ao seu alcance.

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A Larica de Outros Tempos

 

Excertos de uma memória apresentada pelo Dr. Rodrigues Dória ao Segundo Congresso Científico Pan-Americano, reunido em Washington D.C, a 27 de dezembro de 1915, intitulada Os fumadores de maconha: efeitos e males do vício:

“O uso do cânhamo é muito antigo. Heródoto fala da embriaguez dos citas que respiravam e bebiam a decocção dos grãos verdes do cânhamo. No livro de Botânica do dr. J. M. Caminhoá, que foi professor desta matéria na Faculdade de medicina do Rio de Janeiro, lê-se que o famoso ‘remédio das mulheres’ de Dióspolis, bem como o nepente de que fala Homero, e que Helena recebera de Polimnésio, era a Cannabis indica. Os cruzados viram os efeitos nos muçulmanos. Marco Polo observou nas cortes orientais entre emires e os sultões. É muito usado no vale do Tigre e Eufrates, nas Índias, na Pérsia, no Turquestão, na Ásia Menor, no Egito e em todo o litoral africano. Com cânhamo se prepara o haxixe, como já foi dito, e ainda pouco conhecido na sua manipulação; o povo do Oriente fuma o pó das folhas e flores no narguilé.”

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O que fazer com os restos?

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AVISO IMPORTANTE: por inúmeros motivos, mas principalmente devido ao ritmo e à duração, esse texto foi feito pra ser lido enquanto o leitor acende e fuma sozinho e silenciosamente um cigarro de maconha, preferencialmente pequeno, mas não importando se sativa ou indica.

O que fazer com os restos?

Estávamos numa festa. Bem meia-boca, por sinal. Joel chegou dizendo que tinha uma ideia. Diante das possibilidades, nenhum flerte sendo sustentado naquele momento, nenhuma música dançante rolando, Joel entendeu aquilo como uma deixa.

– É algo que não vai exigir o menor esforço, essa ideia. – disse, encontrando, com algum custo, um pequeno espaço pra se sentar no sofá logo ao meu lado.

Puxei pro meu colo um livro, uma edição em capa dura, bem velha, da antologia poética do Mario de Sá-Carneiro, deixado ali na mesa de centro por algum veterano jamais mencionado, mas que bem poderia estar pensando, quando abandonou o livro ali, em dar àquele exemplar um uso análogo ao das revistas das salas de espera dos consultórios odontológicos. Só que junto com o livro, e sobre ele, vinham um dixavador e uma sedinha Colomi. Comecei a dixavar um pedaço de maconha que Joel retirou do bolso e me entregou.

– É uma ideia. – ele disse. – tem a ver com maconha.

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