o que o hexagrama 36 do I Ching tem a dizer sobre o governo do Brasil?

A primeira vez que ouvi falar do I Ching O Livro das Mutações, foi a partir da obra do compositor americano John Cage. Sua peça, Music of Changes, se utilizava do milenar livro chinês para compor uma peça musical inteiramente feita através do acaso. Era interessante notar como, neste caso, o vanguardista americano recorria à sabedoria oriental para elaborar uma obra musical neodadaísta, a partir de uma montagem caótica.

Acho que isso foi o suficiente pra atiçar minha curiosidade a respeito do I Ching. Afinal, o que era este livro? De onde vinha? Pra que servia?

Grosso modo, trata-se de um livro voltado para adivinhações, e foi escrito há mais ou menos 2.500 anos. É o livro mais antigo e mais conhecido da literatura antiga da China. Seu uso se popularizou por volta do século VIII a.C (quando imagina-se que tenha alcançado o formato atual), nas mãos dos membros da corte, eruditos, e cleromantes. Ao longo de sua existência, foi interpretado pelas vias do taoísmo, do confucionismo e do budismo, e, na mesma medida, esteve sujeito às influências de todas estas correntes filosóficas. Em outras palavras: a importância histórica e cultural do I Ching é inestimável.

Mas como ele funciona? Ele funciona a partir de um simbolismo arquetípico, baseado no arranjo dos hexagramas. Os hexagramas são seis linhas sobrepostas – dois trigramas colocados um sobre o outro. O trigrama (três linhas) pode ser entendido como uma evolução causal do mundo dos fenômenos. Em outras palavras: no início de tudo havia o Um. Este Um se dividiu em Dois, dando origem à dualidade: o Ying-Yang. Esta dualidade se modificou, dando origem a outras qualidades além daquelas previstas pela bipolaridade, e é daí que se originaram os trigramas.

Pois bem. Dá pra perceber na imagem do topo que algumas dessas linhas são mais longas que as outras. Isto acontece porque cada arranjo simboliza algum aspecto da natureza: fogo, terra, céu, água. O sentido oracular do I Ching está na leitura destes arranjos aplicada ao momento em que são lidos. São, ao todo, 64 hexagramas, e seu funcionamento é parecido com o de qualquer outra arte divinatória: é preciso saber exatamente o que se quer perguntar, e é preciso conhecer a sutileza absolutamente harmoniosa contida nestes princípios que totalizam a existência. Tradicionalmente, eram duas as formas de se consultar o oráculo: por meio do arremesso de moedas, ou pelo esquema da divisão das 50 varetas.

Certo, mas e o que tudo isso tem a ver com o governo do Brasil? O que é que isso tem a ver com o nosso presidente, Jair Messias Bolsonaro? No dia seguinte à eleição que o colocou no poder, em outubro do ano passado (2018), eu estava na companhia de um amigo que resolveu consultar o I Ching. Ele não seguiu nenhum dos métodos tradicionais: apenas fez a pergunta mais verdadeira que havia em seu coração e abriu o livro segundo uma página aleatória. A pergunta dizia respeito ao atual estado da política no país. Era natural que estivéssemos todos mais ou menos chocados com o rumo dos acontecimentos.

O livro entregou a ele o hexagrama 36: Obscurecimento da Luz.

https://i2.wp.com/iching.com.br/wp-content/uploads/2011/01/significado-hexagrama-i-ching-36-obscurecimento-da-luz.jpg

O que significa o hexagrama 36? Vou transcrever aqui os comentários a seu respeito:

Aqui o sol mergulhou sob a terra e está, portanto, obscurecido. O nome do hexagrama significa literalmente “lesão do luminoso”, por isso as linhas individuais fazem frequente menção a ferimentos. A situação é o exato oposto do hexagrama anterior. Lá um homem sábio liderava e, na companhia de ajudantes capazes, avançava. No presente hexagrama um homem tenebroso ocupa uma posição influente e causa malefícios aos homens capazes e sábios.

O livro segue adiante com os comentários:

Um homem não se deve deixar arrastar passivamente por circunstâncias desfavoráveis, nem permitir que sua firmeza interna seja abalada. Ele o conseguirá conservando sua clareza interior e permanecendo adaptável e tratável no plano externo. Com essa atitude é possível superar até a maior adversidade. Em certas circunstâncias é necessário ocultar sua luz, de modo a salvaguardar a vontade em meio a um ambiente hostil. A perseverança deve-se resguardar no mais íntimo da consciência, sem ser percebido de fora. Só assim é possível conservar sua vontade diante de dificuldades.

Em épocas de obscurecimento da luz é essencial ser cuidadoso e discreto. Não se deve atrair grandes inimizades desnecessariamente em virtude de uma conduta impensada. Nessas épocas o homem não se deve deixar conduzir pelos hábitos da maioria nem deve traze-los à luz criticamente. Em contatos sociais não se deve pretender saber tudo. É preciso deixar passar muita coisa sem ser porém enganado.

Aqui o senhor da luz encontra-se em posição subalterna e é ferido pelo senhor das trevas. Mas o ferimento não e fatal, é somente uma dificuldade. A salvação ainda é possível. O ferido não pensa em si próprio, mas apenas em resgatar os outros, que também correm perigo. Por isso ele tenta com todas as suas forças salvar o que pode ser salvo. A boa fortuna consiste em agir de acordo com o dever.

Em seguida, um exemplo de conduta virtuosa retirado da história antiga da China:

O príncipe Chi viveu na corte do tenebroso tirano Chou Hsin, o qual, apesar de não ser mencionado, fornece o exemplo histórico correspondente a esta situação. O príncipe Chi era parente desse tirano e, por isso, não podia se retirar da corte. Assim sendo, ele ocultou seus verdadeiros sentimentos e fingiu-se de louco. Ainda que mantido na escravidão, ele não permitiu que a adversidade externa o afastasse de suas convicções.

Isso instrui àqueles que não podem abandonar suas posições em épocas de escuridão. Para escapar ao perigo precisarão aliar a uma invencível perseverança interior uma redobrada cautela no plano exterior.

Aqui a escuridão chega ao ápice. O poder das trevas alcançou ao início uma posição tão elevada que podia ferir todos os que seguiam a luz e o bem. Porém, ao final, ele perece, vítima de sua própria escuridão. O mal sucumbe inexoravelmente no momento em que supera por completo o bem, por ter assim consumido a força à qual devia sua existência.

É inevitável que qualquer pessoa que politicamente se defina como de esquerda, incorra em analogias bastante óbvias a partir do arquétipo aqui indicado. O paralelo mais imediato é aquele que se estabelece entre o fanatismo (o extremismo) e a obscuridade. No entanto, é preciso cuidado na hora de identificar os personagens apontados em uma imagem arquetípica. É óbvio que a figura do senhor da luz ferido pelo senhor da escuridão não é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sendo preso pelo juiz Sérgio Moro – ainda que uma tal analogia seja bastante sedutora, porque encaixa muito bem com certas paixões. (Talvez, se invertêssemos os sinais, um direitista poderia identificar o obscurecimento da luz com o governo petista).

O hexagrama 36 fala de algo mais profundo: os fluxos e contrafluxos da luz e da escuridão. Ele fala do movimento pendular inevitável para o qual convergem os seres humanos. Ele fala sobre como o poder, a vida política dos líderes, e a vida pública dos cidadãos, também estão vulneráveis ao jogo de luz e sombra que domina a nossa consciência. O hexagrama 36 aconselha um modelo de conduta, uma sinalização ética de como agir diante de um tal problema: avaliar corretamente as condições gerais, entender as dificuldades, ocultar sua própria luz, recolher-se, baixar guarda, exercitar a compreensão, ser flexível e discreto. De certa forma, ele não indica o confronto direto. A luz não vence a escuridão por meio de uma batalha. A escuridão se consome depois de ocultar a luz.

Qualquer um que esteja vivendo no Brasil neste momento, e esteja em desacordo com os rumos da política, que nutra algum incômodo em relação ao núcleo central do poder, encontrará com facilidade os pontos comparáveis do arquétipo com a realidade. Posto que o principal aspecto deste atual governo é o obscurantismo, o arquétipo do obscurecimento da luz fornece uma chave de entendimento sobre algo que não é apenas uma coincidência histórica, mas uma condição perene da humanidade, comum a todas as épocas. Este foi, aliás, o consolo que nos deu a consulta do I Ching: saber que não há nada de novo sob o Sol, e que, tudo aquilo que vivemos agora, algum sábio chinês já viveu há muito tempo. Talvez seja por isso que, nos meios esotéricos, tantas pessoas tentaram interpretar o fenômeno do bolsonarismo como uma força cósmica inevitável – como um momento de purgação pelo qual a espécie deveria passar.

É curioso pensar que o bolsonarismo cresce na proporção em que ele é atacado – e que o poder numérico das massas se volte para silenciar aqueles que se levantam contra ele. É duplamente curioso que intelectuais, cientistas, artistas, venham sendo atacados – estes que são as figuras públicas arquetípicas do esclarecimento¹. Muitos desses ataques são motivados por um certo revanchismo, pela promessa de uma vitória ou superação de um determinado estado de coisas com os quais estas figuras eram identificadas. Quem foi que provocou um levante dessas proporções? Foram aqueles que, antes, se encontravam no poder? Ou a própria disposição de um jogo de forças antagônicas também está condicionada ao obscurecimento da luz – de modos que é impossível localizar a verdade em qualquer um dos lados? Não existe argumentação, não existe convencimento. Os analistas políticos e jornalistas, todos eles demoraram pra entender a dinâmica do bolsonarismo. É ação ou reação? O que o move? O que o alimenta? O que há de novo? O que há de aproveitável, e útil ali? O que há de legítimo nele? A quem ele se dirige? Quais são os seus inimigos? Como e de que forma ele evoca a verdade e a mentira para lutarem do seu lado? Tendo tudo isso em vista, qual será a sua forma final?


1. É triplamente curioso que o guru do governo seja um filósofo (um amante da sabedoria) cuja função é semear desinformação e disparar ofensas públicas a pessoas de todas as ordens.


A edição do I Ching aqui consultada é de Richard Wilhelm, publicada pela editora Pensamento, com tradução de Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto.

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