negociações de guerra

– Senhor presidente, com a sua licença.

– Pois não?

– O emissário estrangeiro já está aí fora.

– Mande-o entrar, porra.

Entra o emissário.

– Muito prazer, senhor presidente.

– Sente-se, fique à vontade, por favor.

– Muito obrigado. Vossa cordialidade será lembrada.

– É uma honra! Uma honra tê-lo aqui conosco. Estive no aguardo ansiosamente.

– Desculpe-me a demora, senhor, mas aconteceram imprevistos…

– Sem necessidade de desculpas, emissário! Eu entendo plenamente. As estradas estão muito complicadas nesta época do ano.

– De modo algum senhor, eu viajei de helicóptero.

– O caos aéreo, eu diria, muito pior! Deve ter sido um martírio!

– Já fiz viagens piores, senhor. Não tenho do que reclamar, na verdade. O piloto agiu corretamente.

– Pois bem, pois bem. Estou muito contente que tenha chegado. Muito já foi falado, muito já foi conversado entre nossas nações, mas finalmente temos a oportunidade de falar diretamente, face a face, tete-a-tete, o que é muito melhor. Não acha?

– Sem dúvida, senhor presidente. Muito melhor para o tipo de conversa que teremos.

– Pois é o que acho também, nobre emissário. Muita coisa se perde nestas conversações à distância, muita coisa deixa de ser dita, e em vez de esclarecer, acabamos obnubilando os nossos propósitos. Estou certo?

– Corretíssimo, senhor presidente. Sem sombra de dúvidas, uma conversa presencial é preferível a um diálogo feito à longa distância.

– É uma pena que o teu presidente não tenha podido comparecer, e preferiu assim enviar um emissário. É mesmo uma pena.

– Não seja por isso, senhor presidente. Estou imbuído de todos os meios necessários para levar adiante nossa negociação de guerra. O meu amado presidente me garantiu plenos poderes, e estou a par de todas as conversas anteriores que os senhores já tiveram.

– É que realmente tenho um apreço muito grande pela figura do vosso presidente, nobre emissário. Somos amigos de longa data.

– Tens razão, senhor, creio que ele chegou a mencionar algo do tipo.

– Ah é? Até imagino o que foi que ele disse, alguma coisa sobre a nossa aventura na última conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável?

– Não senhor, não sei do que está falando.

– Melhor assim, melhor assim. Não vem ao caso. Agora, fico feliz que o senhor seja um homem de confiança do vosso presidente. Fico feliz em ouvir isso, nobre emissário. Assim sendo, estou a vossa disposição. Aceita um pedaço de queijo?

– É queijo mineiro?

– Diretamente das montanhas da Canastra.

– Ó, que delícia!

– Um gole de guaraná? Aceitaria?

– Mas é claro! Muito obrigado, senhor presidente. Vossos produtos são da melhor qualidade.

– Sim, claro. Guardamos o melhor pras nossas visitas.

– Estamos mesmo muito entusiasmados para iniciar a cooperação entre nossos países.

– Sim, sim, eu andei pensando…

– Andou pensando?

– …sim, meu caro emissário estrangeiro. Estive pensando que, com a cooperação entre nossos dois países, tudo correrá muito bem, muito melhor tanto para nós quanto para os senhores.

– Pois bem, como manda o figurino, senhor, agora deveríamos tratar imediatamente dos negócios.

– As negociações de paz?

– Não, senhor. Estas falharam.

– Um pouco categórica, essa definição, mas tudo bem, prossiga.

– Estou falando a respeito das negociações de guerra.

– Ah sim, a cooperação…

– …entre nossos países.

– Ela acontecerá, a cooperação.

– Pode ter certeza que sim, excelentíssimo. Ela acontecerá. Foi por isso que vim.

– E escolheu um ótimo dia para vir, nobre emissário. O melhor de todos!

– Sim, certamente que sim, senhor presidente. Escolhemos este dia precisamente porque sabíamos que seria o melhor dia para darmos início à cooperação.

– Sem dúvida o melhor dia para tratarmos da cooperação! Acertou em cheio!

– Bem, senhor presidente, o governo de meu país concedeu-me a incumbência de atualizá-lo a respeito de nosso plano de invasão, para que possa preparar o terreno para o evento, e tudo saia conforme o combinado, sem imprevistos.

– Será um grande evento! Sem dúvida!

– Desde que nossa cooperação corra bem, senhor presidente, não se esqueça.

– Este é um dia que haverá de ser lembrado para sempre pela história de nossas nações. O senhor, nobre emissário, está contente em fazer parte deste momento?

– Eu estaria mentindo se eu dissesse que não, mas estou aqui a serviço de meu país, senhor presidente, sem tempo para vaidades.

– Um dia para entrar para história, não acha, nobre emissário?

– Sem dúvida, senhor presidente. Vosso entusiasmo é mesmo contagioso!

– Mas assim sendo, emissário, num dia tão importante para o futuro como é o dia de hoje, um tão decisivo dia como este, em que decidiremos o futuro de tanta gente, senhor emissário, quem foi que escolheu pra ti um terno tão fora de moda?

– O senhor presidente não deveria se incomodar com meu vestuário, excelentíssimo, peço desculpas se não estou à altura de vossa hospitalidade. A escolha coube a uma encarregada…

– Não se preocupe com isso, emissário, não foi uma crítica. Estou dando agora apenas uma demonstração de nossa sinceridade e lealdade, e de nosso apego ao bom gosto.

– Ó, é mesmo lisonjeiro, senhor presidente.

– Por isso darei a ti a chance de vestir a roupa que nossos melhores alfaiates prepararam para a ocasião. É um presente de nossa confecção, um dos melhores bens de nossa economia interna, como já devem saber os nossos inimigos.

– Sim, certamente. Os vossos artigos de luxo são de máximo interesse para os capitalistas do meu país.

– Então…? Não é um presente que o ofenderia, certo?

– De acordo, senhor presidente. De acordo. Mas, não é querendo quebrar um pouco a vossa expectativa, excelentíssimo, mas é que deveríamos já, a esta altura, tratar dos negócios…

– E por que tamanha pressa para uma tão especial ocasião, emissário?

– Para que os planos sejam executados sem demora, senhor presidente. Esta é uma das exigências de nossa oferta de guerra.

– Uma cláusula um tanto generosa para a vossa pontualidade, eu diria, caro emissário.

– O nosso presidente é um homem prático, excelentíssimo, como o senhor deve saber. Ele não gosta de perder tempo com protocolos e procedimentos. Por isso também escolheu a mim para representá-lo nesta negociação.

– Assim será! Mas saiba, caro emissário, que tudo aquilo a ser decidido hoje nesta sala, tudo aquilo que fizermos será responsável por colocar os nossos nomes escritos nos livros futuros, a serem comemorados ou então ultrajados. Será uma guerra como nunca se viu!

– Pois sim, senhor presidente. O senhor parece bastante entusiasmado, com todo o respeito.

– Não tenha dúvidas disso, caro emissário. Estou mesmo muito entusiasmado e comovido, afinal, não é todo dia, não é mesmo?

– Não é todo dia…?

– Não é todo dia que negociamos a guerra, meu caro! Não é todo dia que temos a oportunidade de dar início a um conflito sem igual! Não é todo dia!

– De fato, senhor presidente…

– E eis que hoje é precisamente este dia, meu caríssimo emissário! Como eu poderia não estar entusiasmado? Eu diria que nunca estive tão entusiasmado em toda minha vida! Nunca!

– Ó, senhor, assim o senhor me contamina com a vossa alegria!

– Somos um povo muito alegre, meu caro emissário. Terás a oportunidade de percebê-lo nos próximos dias.

– Vossa hospitalidade será lembrada, senhor presidente. Nem todos os inimigos desfrutam de tamanho acolhimento. Na menor oportunidade, uma traição…

– Opa, opa, opa! Uma traição?

– Sim, senhor presidente. Não são raras as vezes em que…

– Não falemos disso, emissário! Perda de tempo tratar de assuntos tão dramáticos e dolorosos. Não deixemos tais assuntos diminuir a nossa boa vontade, não é?

– O senhor tem total razão, senhor presidente. Total razão!

– Concorda em tomarmos, portanto, um trago? Como forma de darmos início aos negócios, é assim que manda o figurino da tradição de nosso país.

– Se o senhor faz questão, senhor presidente, não vejo porque contrariá-lo.

– Ótimo, tome um trago, portanto.

– Ó, o que temos aqui?

– O melhor alambique do sul da Bahia, meu caro emissário.

– Senhor presidente…

– Diga, meu caro!

– Perdoe-me, mas assim será muito difícil não cooperar com o vosso país!

– Sinta-se em casa para servir-se quando quiser, estrangeiro.

– A respeito dos nossos planos de invasão, senhor presidente, não se ofenda…

– Prometo não me ofender!

– A verdade é que o vosso país não terá a menor chance!

– Jamais imaginei o contrário. Mas algum trabalhinho para os vossos exércitos, estou certo de que daremos.

– Todas as vossas divisões já se encontram sob a mira dos nossos mísseis. O nosso almirantado já se encontra a caminho, em águas internacionais, e escoltado por uma frota de submarinos nucleares, iniciará os disparos tão logo autorizemos. Para que o vosso país tenha mais tempo para se preparar, resolvemos avisá-los de que o nosso ataque foi planejado e será executado no próximo mês, a exatos 4 dias, contando a partir de hoje.

– Mas que beleza de invasão, caro emissário! Assim dá até gosto mandar o povo à guerra! Mas, permita que eu diga, caro emissário, em resposta à tua provocação…

– Sim, senhor?

– Nobre emissário, o meu exército estaria preparado para uma guerra mesmo que fosse amanhã, eu diria.

– Despreparado, o senhor diz, já que suas tropas possuem munição estocada para a duração de apenas uma hora de conflito.

– Vejo que os senhores já estão muitíssimo bem informados sobre o nosso arsenal.

– Quanto a isso, gostaríamos de agradecer pelos espiões e agentes duplos do vosso país, excelentíssimo presidente, pois foram eles que nos concederam todas as informações sobre os vossos exércitos.

– Ah sim, nada passa despercebido para esses rapazes.

– São mesmo muito simpáticos, senhor. Foi muito bom trabalhar com eles.

– Vou repassar os elogios diretamente para o Ministro da Defesa, caro emissário. Aliás, o Ministro ficou particularmente curioso em saber como é que os cavalheiros do vosso país pretendem passar pela barreira de artilharia que posicionamos atrás da Serra do Mar. Importa-nos em dar uma prévia?

– Pretendemos usar a montanha e as vossas próprias cidades como escudo, senhor presidente.

– Ora, mas isso vai um pouco além do combinado, eu diria. Não gostaríamos de bombardear nossas próprias cidades.

– Faremos tudo o que estiver em nosso alcance para minimizar as baixas civis, senhor, não se preocupe. Certamente não queremos estragar os ânimos de vosso povo.

– Estou certo de que não…

– Do contrário, uma ocupação seria impossível devido ao trauma e ao ódio que passariam a ter frente ao inimigo invasor. Não é este o papel que queremos fazer nesta guerra, senhor presidente, não desta vez. Queremos uma cooperação, e que o vosso povo colabore com os nossos soldados, para que tudo saia bem.

– Fico feliz que nossas ideias estejam tão alinhadas, nobre emissário.

– Por isso queremos de ti a garantia de que nenhum dissidente ponha em cheque o nosso acordo, nenhum tipo de insurgência ponha em risco o andamento das coisas.

– Terão de mim minha palavra, eu prometo. A rebeldia dos militares já foi extirpada depois dos últimos mimos que andei dando a eles. São fáceis de agradar. Depois que ficaram de fora da última reforma previdenciária, não vão mais incomodar. Somente a turma do pijama, os aposentados do clube militar que andaram chiando porque ainda têm medo daquela coisa do comunismo, uma bobagem danada.

– Não é com os militares que nosso serviço de inteligência andou se preocupando, senhor presidente. É precisamente com a classe política, e com o custo político de uma operação dessa magnitude.

– A classe política nunca esteve tão unida! Todos receberam bonificações polpudas, e aprovarão a essa altura qualquer lei que passarem. A situação é verdadeiramente excepcional. O partido e a base aliada compõem a maioria absoluta em todos os espaços, na arena de todos os pleitos. Inclusive, minha secretária me informou sobre um projeto de lei interessantíssimo que pretende criar um imposto sobre cooperação, como forma de arrecadar maiores tributos para levar adiante vossa invasão, caro emissário. Quem é que não sairá ganhando?

– Tens certeza, senhor presidente? Interesses espúrios circulam pelos bastidores. Sabemos do histórico de traições e oportunismos que imperam nas vossas casas legislativas.

– Os tempos são outros, emissário! Outríssimos! Meus embaixadores já receberam todos os memorandos, e saindo daqui tenho uma conferência marcada com todo o nosso corpo diplomático. Além disso, estou precavido para possíveis tentativas de assassínio. Já consegui localizar e treinar dois sósias para enviá-los em jantares e reuniões particulares. Veja só as fotos deles.

– Hum… os olhos, o bigode… a boca… São mesmo muito parecidos, senhor presidente. Eu os confundiria com o senhor. Mas não nos preocupam as tentativas de assassinato. É a respeito dos esquemas de corrupção, senhor presidente. Todo o cuidado é pouco. Não fique reticente quanto a isso, mas notamos um fluxo de movimentação financeira um tanto surpreendente na última semana. Como se já estivessem prevenidos. Não queira o senhor correr o risco de ser no futuro indiciado pelo uso de informação privilegiada, ou por traição, ou, imagine só, por crimes de guerra…

– Vossa preocupação é uma belíssima demonstração de amizade e piedade, emissário.

– …mas como não estamos nós dando a mínima pra isso, tendo em vista essa possibilidade de evasão dos vossos cofres, os nossos bancos já criaram contas e planos de conversão para receber a fuga de capital do vosso país, senhor presidente. Até mesmo as facções criminosas receberão auxílios, e serão de grande serventia para a manutenção da paz armada.

– Ó, vejo então que já possuem projetos sociais, também?

– Sim, senhor. Todos os órgãos assistencialistas de nosso país estarão alertas e prontos para intervir, caso necessário.

– Isto é que é mostrar serviço, caro emissário! Espero que meu povo aprenda com o exemplo! Eu jamais teria aceitado de outro jeito, e soube que assim seria desde que o vosso presidente, meu amigo, confessou-me pela primeira vez que estava interessado em invadir o meu país.

– Como foi, senhor presidente? Isso ele não me contou.

– Tínhamos sido convidados para o fechamento de um grande acordo comercial entre os países do Atlântico, e, entediados daquela reunião careta, cheia de nhenhenhéns e poses para fotos, resolvemos sair para tomar uns tragos no saguão do hotel. Começamos aos poucos e quando vimos já estávamos fazendo declarações de amor cada um pela cultura do país do outro. E então ele me adiantou que já vinha pensando nisso há algum tempo, mas que precisava de um parceiro confiável para levar adiante a ideia. Foi quando eu disse que ele tinha a sorte de me ter encontrado ali naquela ocasião, e que somente o destino poderia ter unido os pontos desta forma, porque também eu, há algum tempo, já venho achando que o meu país e o meu povo precisa passar por uma guerra para fortalecer seus ânimos e os vínculos de solidariedade entre os cidadãos, que andam bem frouxos nesta década. Assim estávamos convencidos, eu e mais outros colegas de meu partido.

– Veja só, essa história me é nova. É mesmo um tanto comovente. E o meu amado presidente chegou ao menos revelar quais eram os interesses por trás da invasão?

– Ah, mas isso não é o menor segredo. Todos sabem que o nosso país possui reservas riquíssimas de água potável, nióbio, ferro, urânio, petróleo, borracha, sem contar a imensa variedade de frutos nativos, ervas medicinais, além dos pastos aráveis, rios navegáveis, e da terra extremamente fértil em que se plantando tudo dá. Nosso país é abençoado por Deus, nobre emissário, não tenha dúvidas disso. Não temos furacões, tornados, terremotos, grandes carnívoros, nem vulcões. Diante da escassez de recursos pela qual passam tantas nações, é natural que estejam a querer invadir e ocupar a nossa terra. Por isso trabalhei ao máximo para que ela não fosse invadida por qualquer um, mas somente pelos melhores, os que tivessem as melhores razões e motivos para tanto.

– Bem, isto foi o que ele também nos disse. Há toda uma lista de espera com nomes de industriais, executivos, banqueiros, esperando pelas oportunidades resultantes desta ocupação, senhor presidente. E é verdadeiro tudo aquilo que o senhor me diz. Vossas hidrelétricas, verdadeiras maravilhas da arquitetura moderna, permanecerão incólumes, e faremos de tudo para preservá-las. Assim como as vossas lavouras, milhares de quilômetros de milho, soja, laranja ou cana, o nosso presidente andou olhando as fotos aéreas e disse que faz questão de que permaneçam assim, um colírio para os olhos.

– Que bom que temos os nossos talentos reconhecidos pelos estrangeiros, porque daqueles que moram aqui só ouvimos críticas.

– Sejam quais críticas forem, sei que são injustas, senhor presidente. Nós reconhecemos o sério esforço de vosso povo para enriquecer, apesar das injustiças e das dificuldades. Não fosse tamanha dificuldade, tanta provação e sofrimento, não teriam forjado para si uma religião tão única, um verdadeiro elemento típico de vossa cultura. Eis aí outra coisa sobre a qual não moveremos uma palha: as igrejas.

– Serão de grande ajuda para a manutenção da ordem, emissário. Convocarei os pastores mais influentes do país para que façam discursos em prol de nossos invasores.

– Vossas igrejas são um símbolo da valentia de vosso povo, senhor presidente! Um exemplo de empreendedorismo e visão de mercado! Por elas é que vemos como são o povo mais esforçado de todo o continente!

– Finalmente alguém capaz de reconhecer o nosso esforço! É maravilhoso ouvir palavras tais, nobre emissário, depois tanto tempo tendo de lidar com críticas internas, tanto tempo lidando com o escárnio e a má vontade dos nossos cidadãos, jornalistas, humoristas…

– Não desanime, senhor presidente. Também passamos o mesmo com os jornalistas do nosso país.

– Não conseguem entender a necessidade do aumento de impostos, não entendem que todos devem trabalhar mais, e trabalhar juntos, não entendem que todos temos uma conta pra pagar. No geral, são mesmo um bando de mal agradecidos. Mas nada como uma guerra para fazer amadurecer uma nação, não é mesmo?

– Nada como um conflito que oponha nativos e estrangeiros. Assim sendo, senhor presidente, tomamos o cuidado de separar uma área do campo de batalha para os membros da imprensa.

– Fizeram muito bem. Uma zona desmilitarizada. Ótima ideia! Se não houver uma transmissão ao vivo de todos os acontecimentos, de nada adiantará!

– Temos uma lista de patrocinadores interessados.

– Certo, certo, providenciaremos um edital, e recolheremos as melhores ofertas.

– Vosso país tem uma relação com as indústrias nacionais que meu presidente considera verdadeiramente exemplar, palavras dele que fui encarregado de transmitir.

– Muito educado de vossa parte, mas este conúbio entre a esfera pública e privada demorou realmente décadas para se formar. É uma empreitada de gerações, que só agora começamos a colher os frutos.

– Por isso também manteremos intactos vossos parques industriais, e também todo o agronegócio, porque se existe alguma coisa pela qual nosso presidente possui verdadeira estima e admiração, são os silos de grãos do vosso país.

– De fato, um verdadeiro amante dos silos de grãos. Foi um amor que ele sempre confessou nutrir, e nunca fez questão de esconder. Quando bebíamos juntos, sempre chegava um momento em que a sua voz se tornava mais baixa, e turva, e ele se punha a confessar sobre quão belos eram os silos de grãos que ele tinha visto em fotos, e como, infelizmente, tais armazéns eram pequenos e muito raros no seu país.

– Senhor presidente, além disso, há outros pontos que precisam ser discutidos.

– Prossiga, emissário, me desculpe pela recordação.

– Pois bem senhor, nossos planos de invasão também preveem algumas outras pequenas interrupções no cotidiano de vosso povo.

– Como assim?

– Veja bem, senhor presidente: nossos paraquedistas isolarão as estradas, e a vossa população terá de racionar alimentos, medicamentos e energia por um momento. Sem televisão e sem internet por, pelo menos, duas semanas. Isso suspenderá por um tempo a transmissão de alguns produtos televisivos bastante consumidos pelos cidadãos de vosso país.

– Duas semanas é muito tempo, não tem como diminuir?

– Foi o mínimo a que conseguimos reduzir, senhor. Não possuem circuitos televisivos internos, ou infraestruturas alternativas?

– Apenas o exército e alguns poucos prédios públicos. A população nunca se preocupou muito com o fim do mundo, então nunca foram atrás de construir abrigos subterrâneos, estocar comida etc.

– É um dado alarmante, senhor, mas pedimos de todo coração para que façam um sacrifício. Já adiantamos que seria muito inteligente de vossa parte telefonar para os seus colegas mais adeptos do pó branco, para que se preparem. O preço vai aumentar, e os entregadores vão ter de subornar mais gente pra conseguirem fazer passar. Comprem o máximo que puder, e comprem agora.

– A respeito disso, já está tudo arranjado com um senador que tenho em alta conta.

– Esse é um mero detalhe, mas de muita importância para o andamento das coisas.

– Nosso povo está preparado para o desafio, emissário. Estou certo de que não vacilaremos! Duas semanas sem energia elétrica! Duas semanas sem internet, nem televisão! Duas semanas sem acompanhar a novela e o futebol, isso não é nada! Duas semanas sem Netflix! Nada! Nadica de nada!

– Serão recompensados, afinal…

– Isto não é nada, senhor emissário! Nada de nada! Nadiquirica. Necas de pitibiriba! Em virtude de um aumento nos índices de desenvolvimento humano, da diminuição da inflação e do desemprego, do fim da criminalidade e pela alfabetização completa de todos os cidadãos, pensando na redução dos casos de desnutrição infantil e abandono, em virtude do fim das mortes por dengue, febre amarela, malária, pelo fim dos casos de microcefalia, pelos pobres depauperados vivendo nos viadutos, pelos trabalhadores rurais à espera da reforma agrária, pelos favelados, pelas mães solteiras, pelos catadores de caranguejo do mangue, e tendo em vista o fim da corrupção e dos conchavos políticos, pelo fim da síndrome do vira latismo, pela melhoria dos serviços de telefonia, pela anulação de todos os preconceitos e pela reparação de todas as injustiças já perpetradas contra minorias dentro deste território, pelo pagamento de quaisquer dívidas contraídas sobre os cadáveres de nossa história, pelo retorno das torcidas organizadas aos estádios de futebol, pela diminuição dos poderes da vigilância sanitária cuja ação arbitrária e tirana terminou por tanto comprometer a nossa tradição culinária, pela livre competição entre empresas, pelo fim do coronelismo e do funcionarismo público, pela reconstrução da malha ferroviária, pelo fim da intolerância religiosa, da distinção por classe…

– Senhor presidente…

– … pelo fim da polarização política entre os cidadãos, pelo fim do obscurantismo, pelo fim da guerra entre os sexos, pelo fim da chapinha progressiva, pelo fim do voto obrigatório e do serviço militar exclusivo para homens, pela melhoria e eficiência de todos os serviços, pelo banimento dos médicos falsos, pelo fim da contribuição sindical, pelo fim do horário político, pelo fim do pluripartidarismo, pelo fortalecimento de todas as instituições republicanas, pelo fim da censura, pelo fim do carnaval como único momento do ano tolerável para a nudez e para o extravasamento de ânimos contidos, pelo fim dos programas de competição em alta gastronomia…

– … perdão, senhor, desculpe…

– …

– Desculpe interrompê-lo, mas, acho que ainda precisamos discutir o caso das obras de arte.

– Hum, hum… Perdão se me empolguei, meu caro emissário. A que caso das obras de arte o senhor se refere?

– O nosso presidente tem dúvidas próprias a respeito do que será feito de vosso patrimônio cultural. Não quer que vosso povo abandone tão rica cultura e adote de cara os costumes do dominador. Ele possui ideias particulares sobre alguns fenômenos estéticos provenientes do vosso país.

– Do que o senhor está falando, emissário? Peço que seja mais claro.

– Como amigos de velha data, o senhor deve saber que meu presidente é fã incondicional do funk carioca.

– Ele nunca escondeu isso de ninguém. Mas tal informação é relevante em que ponto?

– O meu presidente quer que vosso exército prometa levar adiante um esquema de segurança máxima para proteger os artistas do gênero, para os quais nosso país proverá um fundo de assistência durante o tempo em que decorrer o conflito. Não queremos comprometer a capacidade criativa de vossos funkeiros sequestrando-lhes o cenário que tanto lhes serve de inspiração, caso aconteça de uma bomba de hidrogênio despencar sobre a cidade maravilhosa e acabar obliterando a paisagem.

– Bomba de hidrogênio, emissário? De quem foi a ideia?

– Não é o que pretendemos fazer, senhor. Mas se for o caso, nosso presidente mandou avisar que não hesitaremos em usar.

– Nobilíssimo emissário, qualquer um sabe que ninguém inicia um conflito usando armas nucleares, e que todos só estamos autorizados a usá-las em casos defensivos. É uma verdadeira lástima que o senhor tenha mesmo mencionado tal coisa.

– Peço mil perdões excelentíssimo presidente, não deixe que tal menção estrague o clima. São apenas avisos. De primeiro usaremos apenas os mísseis balísticos.

– Que assim seja, por favor. Apenas mísseis balísticos por enquanto.

– Pois, independente da arma de destruição escolhida para tanto, senhor presidente, minha fala não é tão gratuita quanto deve o senhor estar pensando. Isso vem ao caso porque exclusivamente pelo fato de que, pensando na salvaguarda dos funkeiros nacionais,  também alguns exemplares específicos das mulheres brasileiras tenham de ser preservadas para a posteridade, como sendo a única fonte de inspiração verdadeiramente capaz de insuflar o espírito criativo de seus artistas.

– Precisamente, nobre emissário, solicito portanto que façam uma lista com uns 50 nomes daquelas novinhas nas quais estejam mais interessados.

– Excelente ideia, senhor presidente! Um belíssimo exemplo da cooperação entre países!

– Obrigado, muito lisonjeiro de vossa parte, caríssimo emissário. Também providenciarei as melhores prostitutas e acompanhantes para divertirem e satisfazerem os vossos soldados. As melhores bundas de nosso país! A depilação brasileira! Um orgulho nacional!

– Hum…

– Está bem, emissário?

– Desculpe, senhor presidente. Tive um calafrio.

– Quer outro trago?

– Obrigado, senhor presidente. Kof… koff… Pois pegando o gancho, senhor presidente, pensando ainda na radioatividade e nos riscos da energia atômica, outro assunto sobre o qual não posso deixar de chamar vossa atenção diz respeito à situação da usina de Angra dos Reis.

– O que tem ela?

– Estamos permanentemente alertas sobre a possibilidade de vossos cientistas começarem a enriquecer urânio.

– E por acaso já demos alguma demonstração disso, emissário? De onde surgiu tamanha desconfiança?

– Senhor presidente, não se trata de desconfiança, apenas de precaução mútua. Estamos muito felizes de encontrar um líder tão apto para a cooperação.

– Será uma grande cooperação, esta nossa.

– Sim senhor, uma grandessíssima cooperação.

– Grandiosa!

– Em toda a sua glória.

– Uma beleza de cooperação!

– Assim será, senhor presidente.

– Assim será, meu caro emissário! Vou repassar imediatamente aos meus ministros e encarregados todas as informações concedidas a mim. Mais alguma coisa?

– Todos os pormenores e detalhes estão contidos nesta pasta, senhor presidente, esta que vou deixar sobre tua mesa. Ela estará disponível para a leitura por 48 horas, e depois então se autodestruirá. Façam bom proveito. Estamos contando com o fato de que, por mais fácil que seja a invasão, posto que as fronteiras de vosso país são vastíssimas, a ocupação será dificultada pela ação de vossos exércitos.

– Corretamente, emissário. Nossos exércitos adotarão uma tática semelhante às guerrilhas rurais, com ataques rápidos e precisos, cortando a comunicação e o abastecimento de tropas. Dificultaremos ao máximo a logística de vossos exércitos, então estejam preparados para combater desta forma. Embrenharemos nossos homens nas matas e os esconderemos nas montanhas. Todo canto desta terra será um reduto onde algum brasileiro possa estar escondido, pronto para sair e se render.

– Será uma longa rendição.

– A mais longa e mais bela, afinal, nunca perdemos nenhuma guerra, saibam disso.

– Não é verdade, senhor presidente.

– Ora, e como não?

– Os senhores perderam a Cisplatina, não te recorda, presidente?

– Um caso menor, pouco citado. Quem é que se lembra?

– Os uruguaios se lembram.

– E quem se lembra deles? Não importa, mensageiro. Não importa mesmo. Tirando esse pequeno evento, temos 100% de aproveitamento. Pois nossa próxima guerra será a nossa primeira rendição! Será uma longa rendição, uma belíssima e gloriosa rendição.

– Assim será, excelentíssimo líder, senhor de todo o território, pai de toda a república.

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