negociações de guerra

– Senhor presidente, com a sua licença.

– Pois não?

– O emissário estrangeiro já está aí fora.

– Mande-o entrar, porra.

Entra o emissário.

– Muito prazer, senhor presidente.

– Sente-se, fique à vontade, por favor.

– Muito obrigado. Vossa cordialidade será lembrada.

– É uma honra! Uma honra tê-lo aqui conosco. Estive no aguardo ansiosamente.

– Desculpe-me a demora, senhor, mas aconteceram imprevistos…

– Sem necessidade de desculpas, emissário! Eu entendo plenamente. As estradas estão muito complicadas nesta época do ano.

– De modo algum senhor, eu viajei de helicóptero.

– O caos aéreo, eu diria, muito pior! Deve ter sido um martírio!

– Já fiz viagens piores, senhor. Não tenho do que reclamar, na verdade. O piloto agiu corretamente.

– Pois bem, pois bem. Estou muito contente que tenha chegado. Muito já foi falado, muito já foi conversado entre nossas nações, mas finalmente temos a oportunidade de falar diretamente, face a face, tete-a-tete, o que é muito melhor. Não acha?

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maneiras curiosas de ir à guerra

A guarda surfista do Rei Kamehameha, o Grande

É de se imaginar o entusiasmo com que o Capitão James Cook e os primeiros navegantes europeus observaram a gente do Havaí surfando em suas grandes pranchas de madeira, de quando sua famosa presença no arquipélago, no distante século XVIII.

Seu relato extremamente simpático à atividade é também impregnado de uma certa admiração pelos ares exóticos que a história tratou de conservar na figura desses havaianos antigos. Considerava-se o esporte um pouco arriscado, mas pela animação dos que o praticavam, era impossível não enxergá-lo como um alimento para a alegria, podendo ser até mesmo um tanto relaxante.

A chegada desses exploradores europeus àquelas ilhas, deste modo, coincidia com um momento em que o esporte desfrutava de grande prestígio local. Inúmeras lendas dos grandes feitos surfistas, histórias de heroísmo, amor e traição, já povoavam a imaginação daquela gente há alguns séculos, e também serviam para dar nomes aos lugares onde teriam acontecido.

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maneiras curiosas de ir à guerra

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Os tehuelches e seus cogumelos

Os habitantes da planície da Patagônia pareceram ter, à primeira vista dos viajantes europeus que por lá aportaram, de dois metros e meio até três metros de altura. Fosse essa dimensão exagerada um efeito da silhueta de indivíduos naturalmente altos aumentada pela vasta paisagem desértica da região em que viviam tendo como comparação a baixa altura de um europeu comum, ou então um recurso dramático pra incrementar as próprias narrativas criadas pelos viajantes, os tehuelches que combateram o avanço da nação argentina em meados do século XIX durante a conquista do deserto patagônico empreenderam o uso de certas técnicas pouco convencionais na história militar, o bastante para que fossem recordados pelos seus inimigos ainda muitos anos depois de terem desaparecido.

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o tio que foi à guerra

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Depois de tanto insistirem pra que o tio lhes contasse da campanha da Itália, as crianças conseguiram tirá-lo de sua mudez casmurra, e dali, de sua cadeira de balanço, o que as crianças ouviram foi um discurso que jamais esperariam ouvir do tio, posto que quase nunca o ouviram falar tão depressa e com tanto volume:

– Meninos, se querem saber, eu conto, eu respondo, mas com a condição de que se faça silêncio. Querem saber como é ir à guerra? Pensem em duas coisas que, provavelmente, qualquer um de vocês já deve ter vivido. Coisas da infância. Comecem esquecendo os filmes, as explosões, os mocinhos e os bandidos. Não precisam de nada disso pra imaginar como é a guerra. Para quem esse destino terrível não se imponha, espero que nenhum de vocês, moleques, tenha de ir à guerra, é bem possível de imaginarem como é o conflito, a sensação terrível do front, sem terem até mesmo estado lá. As sensações que sentimos num lugar desses é só uma forma mais avançada de certos medos e temores que já sentimos na infância. Quero que se concentrem em duas sensações que todos vocês já devem ter sentido. A primeira é semelhante a certos momentos que experimentamos também em brincadeiras de esconde-esconde. Sabe, aquele segundo em que estamos escondidinhos, atrás da janela, ou atrás do arbusto, de uma pilastra, na sombra, aquele preciso instante em que estamos escondidos e nos acomete uma vontade repentina de dar uma mijada? Talvez seja o risco de sermos descobertos, não há quem não tenha sentido isso, pelo menos por uns dez segundos quando foi criança, quando brincou de esconde-esconde, principalmente pentelhos como vocês, que ficam na rua dia e noite¹. Agora imagine essa sensação triplicada, exagerada até o grau mais agudo, essa ânsia de mijar, de dar aquela urinada, mais ou menos como quando você, meninos, ficam segurando a vontade durante o futebol inteiro, as pernas contraídas, antes de voltarem pro intervalo da aula e depois se refestelarem no mictório do banheiro, pensem nessa sensação de dar essa mijada escandalosa como se fosse algo permanente, algo que não vai embora, e que persiste durante toda batalha. Ela dura tanto tempo que você se acostuma com ela, e quando vai mijar de novo, quando vai mijar de verdade, fica parado um tempão na frente da privada, sem saber se tem mesmo algo querendo sair dali ou não. E pode acontecer até de a vontade continuar com você, mesmo depois de ter esvaziado a bexiga. Conseguem imaginar algo assim? Talvez outros tenham desfrutado a guerra de maneira mais relaxada ou prazerosa do eu, porque a guerra em que lutei, fazendo o que eu fazia… Pra alguns deve ter sido divertido, eu não duvido! E olha, nunca me chamaram de covarde. Nada disso está em jogo. Nada a ver com covardia, bravura. É tão raro alguém encontrar alguma oportunidade que seja pra provar o próprio valor… Qualquer um pode ganhar ou perder medalhas! E se essas sensações não falharam comigo, que era um soldado, eu não quero nem saber como é que deve ser com os que estão desarmados, as pessoas comuns, as que chegam a abandonar o próprio país. Pois bem, como eu dizia! A segunda sensação crianças, como eu dizia!, também deve ter já acontecido com alguns de vocês. Isso é importante. Todos devem se lembrar. Envolve você, qualquer um, menino, menina, você, a sua família, e um supermercado, ou uma feira, que seja, a festa junina, e envolve você perder-se deles. É sempre por um breve momento até que se resolva, mas a duração é o bastante para que se cogite o fato de que nos perderemos para sempre, porque há evidências, não há? Todos sempre ouvimos falar de crianças que são sequestradas e que são separadas para sempre de seus pais. Imagine que entre os soldados que lutam juntos há algum tempo, todos são a família de todos. Então é mais ou menos como quando vamos aos lugares grandes, shows, carnavais, por exemplo, e ficamos preocupados de as pessoas não irem muito longe e se perderem, porque na guerra, se elas se perderem, elas nunca voltam, os da nossa família.

1. – Esse diálogo aconteceu em 1982, o que explica que as crianças ainda brincassem na rua, e não com os seus tablets e videogames em apartamentos cinzentos.


Imagem: Robert Knox Sneden

A guerra nas sociedades selvagens

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“Foi o descobrimento da América que, como se sabe, forneceu ao Ocidente a ocasião de seu primeiro encontro com aqueles que, desde então, seriam chamados de selvagens. Pela primeira vez os europeus viram-se confrontados com um tipo de sociedade radicalmente diferente de tudo o que até então conheciam, precisaram pensar uma realidade social que não podia ter lugar em sua representação tradicional do ser social: em outras palavras, o mundo dos selvagens era literalmente impensável para o pensamento europeu. Aqui não é o lugar de analisar em detalhe as razões dessa verdadeira impossibilidade epistemológica: elas se relacionam à certeza, coextensiva a toda a história da civilização ocidental, sobre o que é e o que deve ser a sociedade humana, certeza expressa desde a aurora grega do pensamento europeu do político, da polis, na obra fragmentária de Heráclito. A saber, que a representação da sociedade como tal deve encarnar-se na figura do Um exterior à sociedade, na disposição hierárquica do espaço político, na função de comando do chefe, do rei ou do déspota: só há sociedade sob o signo de sua divisão em Senhores e Súditos. Resulta dessa visão do social que um grupo humano que não apresente o caráter da divisão não pode ser considerado uma sociedade. Ora, quem é que os descobridores do Novo Mundo viram surgir nas praias atlânticas? “Gente sem fé, sem lei, sem rei”, segundo os cronistas do século XVI. A causa era assim entendida: esses homens no estado de natureza não haviam ainda chegado ao estado de sociedade. Quase unanimidade, perturbada apenas pelas vozes discordantes de Montaigne e La Boétie, nesse julgamento sobre os índios do Brasil.

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