o deus fisiológico

O traje era mesmo um tanto quente, como havia comentado minha amiga.

“Não são lá muito tropicais na vestimenta”, foi o que ela me disse. “Os ritos são eslavos. O deus não é tão tradicionalista quanto parece, mas eles preferem manter as aparências do que se adaptar ao clima daqui”.

Fazia calor. A luz vinha das velas e de quatro tochas colocadas nas paredes. Mesmo em sendo lenta a música, e ainda mais lento o cântico, eu transpirava.

Dizia-se que naquele momento do ritual todos costumavam transpirar.

Lúcia, minha amiga, já se tinha infiltrado na seita há algum tempo. Graduou-se nos mistérios e havia galgado algumas posições la dentro. Éramos bons amigos, mas em se tratando de ocultismo sempre fui somente um diletante. A curiosidade me levou até ali, e me aceitaram entre os novatos. Fiquei satisfeito em participar do ritual com o papel que me cabia: um observador ou um coadjuvante que não faria falta e nem poderia comprometer os trabalhos da noite.

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o deus-verme e o impítima

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em conturbérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Augusto dos Anjos

Preparando-se para a maratona televisiva, Maykon, vestido com a usual bermuda de depois do almoço, começa a expelir pelo bóga os primeiros gases que a feijoada de hoje vem forjando desde a ingestão, nos lençóis freáticos do cuecão…

O controle-remoto numa mão e o baseado na outra e o isqueiro na outra, pois que Maykon é um marmanjo com três mãos, ele prolonga um suspiro cansado, de dever cumprido. Sem contestar qualquer arroto, uma sacolejada saborosa, como que couve com farofa, sobe-lhe à garganta só pra ser mandada de volta pelo esôfago.

Há uma maratona televisiva pela frente. Um programa sem intervalos nem comerciais. Sem cortes, com a prometida duração de, pelo menos, oito horas. Sem replays, nem narradores obsoletos. Sem comentaristas folgados, nem ex-atletas sendo salvos do ostracismo.

Maykon acompanha, em tempo real, os comentários e as piadas que seus contatos soltam pela rede e compartilham pela rede. Contatos, porque seria equivocado confundir essa relação com qualquer coisa próxima de uma amizade.

Maykon acredita que está se divertindo muito mais que todos eles. Acredita que está diante do entretenimento mais prenhe de sentido em toda a História do Brasil.

Mais do que a Copa de 70, por exemplo.

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