maneiras curiosas de ir à guerra

A guarda surfista do Rei Kamehameha, o Grande

É de se imaginar o entusiasmo com que o Capitão James Cook e os primeiros navegantes europeus observaram a gente do Havaí surfando em suas grandes pranchas de madeira, de quando sua famosa presença no arquipélago, no distante século XVIII.

Seu relato extremamente simpático à atividade é também impregnado de uma certa admiração pelos ares exóticos que a história tratou de conservar na figura desses havaianos antigos. Considerava-se o esporte um pouco arriscado, mas pela animação dos que o praticavam, era impossível não enxergá-lo como um alimento para a alegria, podendo ser até mesmo um tanto relaxante.

A chegada desses exploradores europeus àquelas ilhas, deste modo, coincidia com um momento em que o esporte desfrutava de grande prestígio local. Inúmeras lendas dos grandes feitos surfistas, histórias de heroísmo, amor e traição, já povoavam a imaginação daquela gente há alguns séculos, e também serviam para dar nomes aos lugares onde teriam acontecido.

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a ficção pré-histórica

Entendemos como ficção uma narrativa sem pretensões de verdade.

Por mais problemática que seja a palavra verdade, todas as outras derivações e consequências daquilo que entendemos como ficção são secundárias diante deste pressuposto.

O número de personagens, o conteúdo dramático, o suporte ou mídia para o qual foi feita, quando, onde, e por quem tenha sido escrita ou contada, nada disso importa para o uso do termo ficção. Basta que seja uma história sabidamente inventada por alguém – quantos tenham sido tampouco é determinante para o emprego do vocábulo.

Imaginamos que, antes de depararem-se com a importância de saberem falsas ou verdadeiras suas narrativas, os povos do passado, ao redor de suas fogueiras, já tinham se acostumado a contá-las e a ouvi-las nos momentos certos.

Isso antes de serem cantadas pelos bardos, individualizadas e colocadas no papel, postas em circulação, antes de serem organizadas em bibliotecas e tudo o mais, quando ainda eram gestadas sob a inspiração de entorpecentes ou de entidades sobrenaturais – a partir do momento em que são destinadas ao público, tudo isso é de interesse para a divisão que será feita, quando postos em circulação no mundo moderno. A disposição dos textos ao gosto.

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o caso do marido KGB

O seguinte caso é uma história verídica acontecida no final dos anos de 1970, na cidade de Boston, Estados Unidos. Após ter ganho a primeira página em alguns jornais locais, contudo, a notícia foi rapidamente sufocada pelos órgãos de inteligência norte-americana. A conclusão da história, portanto, nunca veio a público.


Renée Garland conheceu seu marido, Joseph Botvinnik, em uma festa num clube de dança comumente frequentado pelos universitários e pela classe média protestante de Boston, em 1971. Ela tinha 18 anos e estava iniciando seus estudos em Direito na Boston University School of Law. Ele tinha 25, e dizia ser gerente de uma exportadora de grãos e alimentos com contratos na Europa e norte da África. Não possuíam nenhum amigo em comum. O moço, ela veio descobrir, era o filho único de uma família de imigrantes ucranianos, que teriam chegado em Nova Iorque no começo do século XX. Ela, por sua vez, era a mais brilhante das três filhas de um casal de fazendeiros do Oklahoma, criadores de milho e de suínos.

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a sífilis lunar

Eels are mysterious beings. It may be that what are called their ‘breeding habits’ are teleportations. According to what is supposed to be known of eels, appearances of eels anywhere cannot be attributed to teleportations of spawn. In the New York Times, Nov. 30, 1930, a correspondent tells of mysterious appearances of eels in old moats and in moutain tarns, which had no connection with rivers. Eels can travel over land, but just how they rate as mountain climbers, I don’t know.

Charles Hoy Fort, Lo! – 1931

Lua Europa, uma das grandes luas que orbitam o planeta Júpiter. Chamo-me Montezuma Lovejoy, sou um colono espacial, e a primeira vítima humana de uma doença que ainda não tem nome.

Estou há exatamente um mês trancafiado em quarentena, enquanto os médicos me submetem a baterias de exames, rotinas de medicamentos e dietas malucas. Enquanto isso vou recordando e pondo minha consciência à limpo. Deste doloroso exame emergem memórias nas quais me vejo sempre protagonizando alguma coisa ligada à colonização de Europa.

Sou um veterano do processo de terraforming que deixou habitável esta lua.

Operei tratores gigantes e explorei cavernas de gelo submerso. Pude acompanhar todo o processo de aquecimento da atmosfera, desde o começo. Tive o privilégio de assistir in loco ao derretimento da gigantesca crosta de gelo que cobriu, durante milhões de anos, o profundo oceano salgado que havia sob a virgem superfície do planeta.

Em outras palavras: tenho vivência.

O meu nome, se devo explicá-lo, foi escolhido por meu pai, um já falecido historiador fascinado pelos povos indígenas mesoamericanos – alguém que merece todas as devidas congratulações por ter conseguido convencer uma mãe a presentar sua prole com uma alcunha que jamais seria entendida na primeira pronúncia em qualquer lugar fora do México.

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o nervo de haussmann

Sabemos que Sebastian Haussmann nasceu na Turíngia, na penúltima década do século XVI. Filho da união de um rico comerciante alemão com uma senhora italiana nascida no Vêneto, estudou medicina na Universidade de Pádua, onde foi aluno de Vesálio e de Girolamo Fabrizio.

O fascínio nele despertado pelas aulas dos anatomistas italianos foi o suficiente para que dedicasse o restante de sua carreira ao estudo do corpo humano. Ainda que saibamos pouco sobre sua vida, posto que além dos dois processos judiciais movidos contra ele o tempo só preservou algumas páginas de seu diário pessoal, não nos será difícil imaginá-lo à luz da liberdade intelectual da qual gozavam os estudantes daquela época, mergulhados na renascença esplendorosa da Sereníssima.

Entre a admiração pelas xilogravuras do grandioso volume De Humani Corporis Fabrica e a veneração por uma antiguidade povoada pelas pinturas de seus contemporâneos, Haussmann, pelo que consta em suas anotações, nutria uma profunda devoção pela figura e pela obra de Cláudio Galeno, e a imagem do médico ancestral vivissecando macacos e expondo suas grandiosas palestras sobre a higiene pessoal nos anfiteatros, na glória que deveria ter sido o mundo greco-romano, também motivava seus próprios sonhos pessoais de prestar um contributo à história da ciência e da medicina.

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ficção aumentada

I must download several copies of myself and storage them into security areas.

Terence McKenna

 

Num futuro em que a pesquisa com tecnologias de Realidade Aumentada seguiu desimpedida, imaginemos sua conjunção com os ramos da robótica responsáveis pelo desenvolvimento de inteligências artificiais e de equipamentos portáteis para realidades virtuais. Pensemos neste futuro como situado em lugar do final do século XXI, ao mesmo tempo a intersecção entre uma Idade de Ouro da tecnologia e uma Idade das Trevas emocional que obterá como resultados sociais uma enorme confusão entre os distintos níveis de trânsito de informação, até que, claro, devido à incrível plasticidade do cérebro humano, adequemos devidamente nossa linguagem a esse ultra-futuro pós-pós-humano de velocidades simultâneas incomensuráveis por meio de sofisticadíssimos implantes neurobiológicos de aumento de capacidade sensorial e de memória.

Todavia, considerando que nem todas essas maravilhas de ponta serão prontamente disponibilizadas a preços acessíveis para os cidadãos comuns, imaginemos diversões mais sutis, arquitetadas pelos artistas, arquitetos, engenheiros da programação e da informática, todos esses mestres espirituais vindouros que terão às suas mãos tantos e tão fascinantes instrumentos de criação e não hesitarão em exibir ou esconder os seus produtos por aí, nas áreas acessadas por realidades indefinidamente maiores, espalhadas pelos espaços tangíveis aos corpos e às mentes futuras.

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as consequências psicossociais das viagens no tempo

Na sala de experiências transtemporais, no subsolo de uma universidade brasileira não mencionada, os cientistas, moliéres e ômis, aguardam ansiosamente pela chegada da viajante do futuro. Atrasos eram previstos. Por se tratar de um evento inédito, a demora em se consumar faz com a crise se acelere e produza uma expectativa muito além daquela suportada até agora pela turma de cientistas escalada para o turno.

As coisas evoluíram depressa. Há exatamente um ano o primeiro memorando, diretamente enviado do futuro, aparecia pra eles na telinha de um monitor. A mesma localização, o mesmo laboratório, indicado pelas coordenadas. Resultados previstos, mas nem por isso isentos de euforia. Haviam acabado de comprovar, antes que qualquer outro centro de pesquisa do mundo chegasse aos mesmos resultados, a possibilidade de se enviar e receber dados digitais para o passado e para o futuro, algo através do continuum espaço-temporal canalizado por um terminal transdimensional construído pelo pessoal da escola de engenharia, com a ajuda de uma consultoria virtual prestada por uns alemães surpreendentemente insubordinados.

A mensagem, ao que tudo indicava, havia sido enviada por eles mesmos. Num futuro próximo de daqui a duas horas.

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o deus-verme e o impítima

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em conturbérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Augusto dos Anjos

Preparando-se para a maratona televisiva, Maykon, vestido com a usual bermuda de depois do almoço, começa a expelir pelo bóga os primeiros gases que a feijoada de hoje vem forjando desde a ingestão, nos lençóis freáticos do cuecão.

O controle remoto numa mão e o baseado na outra e o isqueiro na outra, pois que Maykon é um marmanjo com três mãos, ele prolonga um suspiro cansado, de dever cumprido. Sem contestar qualquer arroto, uma sacolejada saborosa, como que couve com farofa, sobe-lhe à garganta só pra ser mandada de volta pelo esôfago.

Há uma maratona televisiva pela frente. Um programa sem intervalos nem comerciais. Sem cortes, com a prometida duração de, pelo menos, oito horas. Sem replays, nem narradores obsoletos. Sem comentaristas folgados, nem ex-atletas sendo salvos do ostracismo.

Maykon acompanha, em tempo real, os comentários e as piadas que seus amigos soltam pela rede e compartilham pela rede. 

Maykon acredita que está se divertindo muito mais que todos eles. Acredita que está diante do entretenimento mais prenhe de sentido em toda a História do Brasil (com H e B maiúsculos).

Mais do que a Copa do Mundo de futebol de 1970, por exemplo.

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maneiras curiosas de ir à guerra

As guerreiras bafudas

O aventureiro e explorador espanhol Francisco de Orellana é o responsável pela primeira menção às amazonas feita em terras do Novo Mundo, no início do século XVI. A lenda das mulheres guerreiras conhecidas por tal nome remete a um repertório de conteúdo clássico, mas a sua ocorrência não se limita apenas à Europa ou ao mundo helênico. As amazonas citadas pelo grego Heródoto habitavam em algum lugar próximo ao reino dos sármatas, na costa do Mar Negro. Para Orellana, as amazonas sul-americanas habitariam algum lugar da densa floresta tropical, hoje bem próximo às Guianas.

Em sua viagem, que atravessou todo o Rio Amazonas, não há nenhuma menção às guerreiras bafudas que aparecem nas lendas mati – distantes de Orellana tanto no tempo como no espaço, uma vez que seu reino estaria mais próximo do Peru, no Vale do Javari, no Alto Solimões, e suas histórias remetam a acontecimentos mais recentes.

Os contadores de histórias da tribo dos mati oferecem uma imagem bastante exótica dessas guerreiras, tanto medo e terror elas levaram aos seus inimigos, brancos ou até mesmo outros índios. Diferentemente de suas parentes históricas, que, pelo que contam, tinham o hábito de arrancar o seio esquerdo para facilitar o manejo do arco, as guerreiras bafudas (é assim que os mati as chamam em seu idioma) não faziam uso de qualquer tipo de arma que não fosse o tacape.

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o mundo está ficando mais chato?

Habiéndose negado él al entendimiento y a la voluntad, le queda sólo el juego de la memoria: quando lo presente ya nada nos insinúa y lo futuro no tiene color delante de nuestros ojos, ¡bueno es dirigirlos a lo pasado, sí, allá, donde tan fácil es reconstruir las bellas y sepultadas islas de júbilo!

Leopoldo Marechal, Adán Buenosayres

É um dia nublado. O Imortal decide colocar sua cadeira de fio colorido trançado no passeio à frente da sua casa pra mó de contemplar melhor a vizinhança. Além da contemplação tranquila e desinteressada, há em sua pequena ação uma escolha consciente de cumprir também com este bem estabelecido ritual que há nas cidades interioranas.

O Imortal, sentado em seu trono, olha para o céu nublado – as nuvens que são o cérebro do deus Ymir. Algum tipo de conexão estabelece uma correspondência metafórica entre as informações que hoje são armazenadas em nuvens virtuais, a mente do Imortal, e o céu nublado que paira sobre a cidade.

Ele captura um pensamento que estava de passagem no trânsito à meia-altura. Um pensamento que, delineado e lapidado, consegue se expressar num enunciado bastante desconfortável: “o mundo está ficando mais chato.”

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