a sífilis lunar

Eels are mysterious beings. It may be that what are called their ‘breeding habits’ are teleportations. According to what is supposed to be known of eels, appearances of eels anywhere cannot be attributed to teleportations of spawn. In the New York Times, Nov. 30, 1930, a correspondent tells of mysterious appearances of eels in old moats and in moutain tarns, which had no connection with rivers. Eels can travel over land, but just how they rate as mountain climbers, I don’t know.

Charles Hoy Fort, Lo! – 1931

Lua Europa, uma das grandes luas que orbitam o planeta Júpiter. Chamo-me Montezuma Lovejoy, sou um colono espacial, e a primeira vítima humana de uma doença que ainda não tem nome.

Estou há exatamente um mês trancafiado em quarentena, enquanto os médicos me submetem a baterias de exames, rotinas de medicamentos e dietas malucas. Enquanto isso vou recordando e pondo minha consciência à limpo. Deste doloroso exame emergem memórias nas quais me vejo sempre protagonizando alguma coisa ligada à colonização de Europa.

Sou um veterano do processo de terraforming que deixou habitável esta lua.

Operei tratores gigantes e explorei cavernas de gelo submerso. Pude acompanhar todo o processo de aquecimento da atmosfera, desde o começo. Tive o privilégio de assistir in loco ao derretimento da gigantesca crosta de gelo que cobriu, durante milhões de anos, o profundo oceano salgado que havia sob a virgem superfície do planeta.

Em outras palavras: tenho vivência.

O meu nome, se devo explicá-lo, foi escolhido por meu pai, um já falecido historiador fascinado pelos povos indígenas mesoamericanos – alguém que merece todas as devidas congratulações por ter conseguido convencer uma mãe a presentar sua prole com uma alcunha que jamais seria entendida na primeira pronúncia em qualquer lugar fora do México.

Logo em meus primeiros anos aqui vi desfazerem-se as famosas linhas que riscavam essa esfera gelada e flutuante, os padrões secretos que tanto intrigaram astrônomos e curiosos que observavam, através da frialdade passada de uma lente telescópica, nossa casa ainda selvagem orbitando um gigante gasoso.

Galileu, se bem me lembro, foi quem primeiro avistou a Lua Europa.

As linhas que desenhavam enormes riscos em nosso astro nada mais eram do que rachaduras de fatias continentais de gelo. A superfície do planeta, de alguma forma, girava em descompasso em relação ao núcleo.

Participei de todas as primeiras grandes obras da engenharia exoplanetária. Dentre elas, por exemplo, a fixação dos grandes cabos de aço que amarram ao fundo do mar a quilométrica plataforma sobre a qual vivemos.

Fui por isso um dos primeiros seres humanos a mergulhar no oceano que existia sob as grossas camadas de gelo que cobriam o planeta, em temperaturas ridiculamente baixas, que ultrapassavam os -150°, em uma gravidade quase nove vezes mais leve que a nossa, sendo também o primeiro a tocar, ver de perto e fotografar as estranhas criaturas que desde o início da criação nadavam naquelas águas misteriosas.

Também, porque haviam poucos entre nós naquela época, fui um dos primeiros a sentir no rosto a chuva que começou a cair desde então sem nunca mais parar. A atmosfera da Lua Europa é hoje, devido ao aquecimento da atmosfera conquistado pelo terraforming, uma chuvinha constante, o que terminou por aniquilar 95% da vida submarina do planeta e por colocá-lo no primeiro lugar dos índices pluviométricos deste quadrante da galáxia.

Anotei com entusiasmo nos meu diários daqueles tempos as observações que eu fazia de todas essas mudanças que puseram fim àquele velho mundo alienígena. Lembro-me do esforço de nossos biólogos, recolhendo e catalogando espécies que já imaginavam extintas, serpentes marinhas da espessura de fios de cabelo, vermes-tubo que eram como colunas dóricas, águas-vivas que se pareciam com guardas-chuvas do tamanho de estádios de futebol e que demoravam uma semana inteira pra se abrir e mais outra pra se fechar, plânctons surfistas, cânions de pólipos, fungos-anfíbios que emitiam ruídos estranhos, uma enciclopédia animal inteira esperando por nomes, gêneros, famílias, filos…

Na intenção de preservar estas formas de vida, biólogos e pesquisadores procuravam transferi-las para os laboratórios, bio-tanques, zoológicos e safaris submarinos, já se precavendo contra a extinção provocada pelo aquecimento da atmosfera. A maior parte desta natureza já chegava morta, então, além dos corpos preservados em formol, quase tudo o que temos desta época são as fotos e os vídeos, muitos dos quais eu mesmo filmei. Um ou outro animal ainda sobrevive, espécies aguerridas e fugidias, como por exemplo a serpente-ave que horas antes das tempestades mais fortes costuma ser vista voando para o sul, e cujo canto se parece com o das galinhas d’angola.

Mesmo que nos encontrássemos muito longe do nosso planeta natal, a Terra, vídeos e transmissões de cada nova façanha ligada ao processo de colonização iam ao ar e instantaneamente eram vistos e compartilhados por milhões de internautas. No entanto, pensando em minimizar a comoção, e também porque não queríamos dar início a uma grande campanha publicitária que inviabilizasse emocionalmente o nosso trabalho aqui, notícias sobre a extinção da fauna e da flora da Lua Europa só vieram à tona em alguns pequenos círculos de gente muito bem informada.

É bem provável que já estivessem imaginando as consequências que teríamos de lidar: mesmo que nossa colonização fosse movida por um sentimento de urgência, deveríamos ter feito um esforço maior que poupasse a todos dos efeitos desastrados que produzimos, sem que ao final não nos tivesse sido dada nem ao menos a chance de provar da carne destas bestas oceânicas, de conferir o sabor que teriam ou de inventar receitas de frutos do mar alienígenas.

Uma sensação ambígua de Desastre & Glória.

Ajudei a humanidade a erguer inúmeros monumentos para este novo antropoceno, e vi as gentes fazerem descer do céu uma cidade sobre as águas e sob a chuva. Cápsulas pré-fabricadas, com diferenças arquitetônicas mínimas, empilharam-se umas sobre as outras.

O resultado era como se sobre uma plataforma de petróleo do tamanho do estado de Nova York houvessem construído uma cidade que era a mistura de Tenotchitlán com Veneza – algo que, com o passar do tempo, tornou-se um esquisito formigueiro humano eternamente molhado e enferrujado.

Estive presente no nascimento de todas as crianças que nasceram aqui nos cinco primeiros anos, e, como bom pedagogo que eu era, acompanhei de perto as suas primeiras descobertas, suas primeiras brincadeiras, a formação de seu vocabulário, sempre me atentando para a forma com que construíam seus sistemas de referência, suas metáforas, seu limitado campo de comparações.

Tudo o que aprendiam e experimentavam chegava até eles por meio de tubos. Inevitavelmente cresceriam alimentando uma nostalgia latente de outra humanidade não-sideral, a lacuna jamais preenchida que para sempre habitará o léxico dos nativos de Europa.

Todos eles participantes vitalícios de uma orgia babilônica de doenças mentais.

A atmosfera chuvosa obriga os nossos habitantes a uma vida enclausurada, composta basicamente de ambientes fechados – um estilo de vida, ouso dizer, para o qual nossa raça jamais foi preparada, o que acabou criando nela uma variedade considerável de fobias, distúrbios e parafilias. Ataques de histeria e crises de pânico são comuns entre aqueles que nasceram e cresceram neste mundo.

O que torna bem dificultosa a manutenção de vinculações sociais. Leis comportamentais são decretadas e devem ser seguidas, sob a pena de exílio, pelo bem-estar e saúde geral. Há para todos um cronograma fixo de idas à academia, festas, jogos coletivos, trocas de casais. Um serviço de prostituição precário dá vazão aos ânimos reprimidos. Drogas de qualidade duvidosa são distribuídas a preços estratosféricos, e sempre terminam por viciar seus usuários.

Da miséria humana que alastrou-se aqui, vi a evolução de todas as condutas, em mim e nos meus companheiros. Participei de assembleias, julgamentos públicos, sessões de intriga à porta fechada. Fui voto vencido na maioria das vezes.

De minha coleção de feitos restam ainda outras pequenas porém boas demonstrações de meu vanguardismo: fui o primeiro ser humano a marcar um gol em uma partida oficial de pólo aquático, cá nesta lua; o primeiro a se fantasiar de Papai Noel, na primeira ceia de natal que as crianças comemoraram por aqui; fui também o primeiro a lecionar uma aula para a primeira turma escolar composta inteiramente de crianças nativas; e, não menos importante, também fui o primeiro a cultivar com algum êxito sementes de Cannabis sativa indica em estufas montadas sob minha supervisão, as quais depois serviram para sediar o cultivo de diversos gêneros alimentícios importados da Terra.

Quis o destino, todavia, que todo esse meu pioneirismo não se limitasse a estas heroicas e lendárias participações que porão meu nome nas ruas, avenidas e escolas que esperam para serem inauguradas neste novo mundo, mas que fosse também eu o primeiro ser humano a apresentar certos sintomas inéditos que não constam ainda em nenhum catálogo interplanetário de doenças sexualmente transmissíveis.

É verdade que encontrei grandes dificuldades iniciais para rastrear a origem do mal que me aflige, posto que, pelo receio de uma exposição inconsequente aos perigos de uma atmosfera ainda não de todo conhecida, sempre fomos desencorajados a manter relações sexuais fora dos ambientes recomendados para tanto, esterilizados e controlados.

Pois foi por isso que uma iniciativa pública instalou há alguns anos pequenas cabines para sexo em lugares estratégicos, na saída de bares e baladas, onde os habitantes de Europa podem procurar uma área protegida por paredes de chumbo.

A sensação de segurança absoluta, devo dizer, nunca foi o suficiente para alguns, e, para uma humanidade cada vez mais longe de sua vitalidade original e livre, cada vez mais vulnerável à paranoia, as tentativas em desempenhar performances sexuais minimamente satisfatórias em ambientes fechados e climatizados tiveram como resultado, de minha parte e de meus semelhantes, uma quantidade quase que existencialista de brochadas.

As consequências desse experimento social são de conhecimento público: mais de 60% da população de Europa diz ser autossexual, encontrando na masturbação toda a fonte de prazer que necessitam.

Eu, de minha parte, também me tornei adepto do onanismo, e um supérfluo consumidor da pornografia produzida nesta atmosfera.

A pornografia produzida em Europa, acreditem em mim, é algo plenamente capaz de atender a todos os gostos.

E, justamente, considerando toda essa cultura erótica colonial que foi fundada aqui, também muita dificuldade tive em convencer os meus médicos de que minha moléstia era de fato uma doença sexual, mesmo que os sintomas não deixassem quaisquer dúvidas (pelo menos para mim não deixavam).

Como sempre me senti à vontade nas posições dianteiras daquilo que chamo de assuntos fronteiriços, tenho ocupado confortavelmente, já há alguns meses, o posto de primeiro ser humano a portar um tipo inédito de DST em um ambiente totalmente alienígena.

Ou seja: o primeiro ser humano a ser contaminado por uma doença alien.

Como nunca tive nenhum contato sexual ou qualquer experiência real de troca de fluídos com as criaturas deste planeta (o que acaba por deixar meu prêmio bem menos saboroso), ficou difícil de provar cientificamente qualquer relação entre a doença e as criaturas, muito embora sempre tivesse sido essa a minha suspeita.

Desde então, tenho vivido uma rotina de especulações sem freio e desesperadoramente inconclusiva, entremeada por sonhos perturbadores.Se eu sair dessa, dificilmente será sem qualquer sequela.

Os médicos e psicólogos associam as minhas alterações de comportamento à doença. Mudanças de humor, insônia, e sobretudo a hipotesomania que me permite elaborar teorias e a unir pontos que eles se negam a entender como sequer relevantes para a condição em que me vejo, e que refutam como se fossem a mera opinião de um leigo.

Acredito que a vida em ambientes fechados afetou para sempre a nossa capacidade cognitiva de entender as casualidades. Os doutores fazem cara feia quando eu digo que esta terra é um terreno extremamente infértil para a etiologia.

A presunção e a arrogância natural das autoridades médicas.

Mas continuo com as minhas verdades: talvez porque não houvéssemos estudado devidamente a atmosfera de nossa lua, não nos atentamos para a possibilidade de caminhos que pareceriam impossíveis ou metafísicos demais na Terra, já previstos ou pelo menos sugeridos por doutrinas filosóficas antigas, como o pampsiquismo.

Por exemplo caminhos tais como canais por onde transitassem fluxos coloidais de informação e biomassa, vias que entrassem em contato com o corpo humano durante visitas noturnas, onde sonhos eróticos interespécie faziam nossos colonos despertar com poluções noturnas, recordando haverem sonhado com criaturas incrivelmente semelhantes aos velhos seres que habitavam os mares gelados deste mundo no passado anterior ao terraforming. Ou então uma simbiose entre a nossa mente individual e uma mente coletiva ancestral composta por esse manancial de criaturas alienígenas que tão irresponsavelmente teríamos varrido para o reino de não-existência.

Algo exatamente como descrito acima foi o que aconteceu comigo. Alcancei orgasmos intensos conduzido pelos sons indescritíveis emitidos por essas criaturas das profundezas, que ecoavam em meus sonhos mais marítimos. Seus órgãos vocais eram tão complexos que involuntariamente massageavam vários chakras meus.

Junto com outros poucos escolhidos, éramos levados para banhos gelados em fossas abissais, onde então nos envolviam em chaminés de plasma escura, e permanecíamos mergulhados em um líquido quase amniótico, com todos os sentidos sendo estimulados simultaneamente por órgãos tentaculares de ventosas bioluminescentes em sessões que pareciam se prolongar por séculos, onde ocasionalmente éramos frequentados por serpentes marinhas que nos apresentavam algumas sensações corporais que nem sabíamos ser humanamente possíveis.

Contudo, jamais entendi o que queriam me comunicar estes seres mais que inteligentes em suas abduções pelágicas. Essa incompreensão obteve de mim um resultado nada animador: sou muito mais burro e mais limitado do que imaginava. Ou não estou à altura da linguagem destes seres que aportaram em meu corpo, durante os meus sonhos, ou a humanidade, enquanto consciência coletiva, está apenas se acostumando com essa outra simbologia que só será plenamente compreendida pelas próximas gerações dos habitantes de Europa.

Se Carl G. Jung estava certo, é provável que aquilo tudo que ele apenas sugeriu com a ideia de um inconsciente coletivo, uma espécie de fundo falso, seja mesmo uma dimensão transportável, um tecido navegável que vai do reino da não-existência para o reino da existência, e por meio do qual estas criaturas marítimas estejam conquistando a vida eterna, ao mesmo tempo em que aprisionam os seres humanos nesta névoa esquisita de orgasmo e terror.

Os escritores de ficção científica do passado, quando narraram suas viagens de colonização espacial, foram muito generosos. A realidade é bem mais mesquinha do que tento descrevê-la aqui, juntando as melhores partes. Mas acredito que, ainda assim, os escritores e poetas, arquitetos da imaginação, tenham sempre alguma culpa, uma parcela no cartório, algum dedinho nisso tudo.

Procurar indícios dessas criaturas ao longo da história, nos sonhos e delírios, na literatura, seria preciosismo de minha parte, e redundante. As vítimas da sífilis lunar é melhor nem serem apresentadas umas às outras.

Trancafiado em meu quarto, assisti a uma velha película hollywoodiana, e fui visitado por uma grande corrente de insights e epifanias que me motivaram na elaboração de algumas hipóteses, dentre as quais destaco a minha preferida: as velhas espécies submarinas que habitavam esta lua, depois de desaparecerem, aprenderam a perambular pelas distintas dimensões de consciência que entrecruzam a atmosfera de Europa, como se nosso corpo humano se tornasse vulnerável aos espaços adjacentes da consciência, por onde os vírus descem até os genitais – ou então sobem dos genitais ao pensamento.

E assim, pela força mental exercida por meio de sonhos, estas sofisticadas criaturas submarinas acabaram contaminando os indivíduos que foram por elas visitados, a manifestação de algo que seria semelhante a um vírus.

Tudo isso só se tornou possível após o derretimento do gelo que cobria os mares – era uma espécie de barreira natural para todas estas manifestações psíquicas. Talvez, durante toda a existência, o gelo as tivesse impedido de estabelecerem qualquer tipo de telepatia com os outros seres do cosmo. Agora, desimpedidas, é provável que o calor acelere ainda mais as aventuras mentais destas criaturas, permitindo que alcem vôos maiores para dimensões e lugares cada vez mais distantes no Universo conhecido.

O que em breve poderia levá-las ao planeta Terra, onde a humanidade aguarda ansiosamente por completar seu adoecimento total.

Porque o objetivo de toda vida é perseverar, não importa como. Nem que para isso criaturas outrora tão belíssimas tenham de se metamorfosear nesse tipo angustiante de parasita da imaginação.

(Todas essas considerações parcamente elaboradas aqui estarão melhor expressas nos diários que estou preparando para serem publicados depois de minha morte – o que, desconfio, acontecerá em menos de um ano).

Muito embora os efeitos do vírus sejam visualmente mais nefastos do que o mais amoral dos nichos da pornografia espacial, nunca é demais repetir que nenhum dos doutores ou pesquisadores deste planeta quis levar a sério minhas hipóteses, mesmo depois de perderem o sono examinando as fotografias do meu membro genital.

Nas primeiras semanas um inchaço deixou meu saco escrotal do tamanho de uma bola de futebol americano. Meu canal peniano adquiriu uma coloração azulada, e perdi o controle sobre a urina, que muitas vezes me acordava empoçado na cama durante a noite.

Bolinhas rochas se espalharam pelo meu corpo, concentrando-se nas concavidades. Também tornou-se frequente uma coceira infernal na cabeça, toda vez antes de dormir.

Na quinta semana me foram reveladas uma série de visões submarinas. Em tons escuros uma vida dançante me hipnotizava com suas massagens prostáticas. Nos momentos de transe, eu balbuciava coisas incompreensíveis em uma língua desconhecida. Glossolalia.

Na sexta e sétima semana febres corporais intensas me davam acesso a alucinações auditivas. Sussurros, uma percussão vocal sutil se encarregava de produzir poluções noturnas acompanhadas de sangue.

Por fim, um par de asas nasceu no lugar próximo à base, e meu pênis divorciou-se do meu corpo, e saiu voando e batendo asas pela noite da lua Europa, retornando para mim somente após dois dias, com um cheiro esquisitíssimo de alga marinha que continuou impregnado mesmo depois de muito sabão e radiação.

A permissão para que me botassem em quarentena, no entanto, só foi concedida após um mau-sucedido furto que tentei cometer durante uma crise de sonambulismo, quando me pegaram em flagrante roubando dois raros pólipos preservados em formol do acervo de um museu de vida marinha que tiveram de lacrar para sempre depois de minha passagem por lá.

Ainda não faço a menor ideia do que eu iria fazer com esses pólipos.

A sala em que me colocaram é à prova de sonhos. Como gozo ainda de algumas condecorações, me foi reservado um quarto exclusivo e bem acomodado, bem diferentes daqueles calabouços em que guardam os outros pacientes mentais menos importantes do que eu.

E aqui tenho estado desde então, vítima de uma introspecção megalomaníaca, dentro da qual vejo todos os outros miseráveis sonhadores desta lua, trancafiados em suas cápsulas, solitariamente vitimados pelas monstruosas criaturas submarinas que os obrigam à masturbação ininterrupta.

À medida em que estimulam em nós nossos fetiches mais insólitos, a consciência doentia e azedada que sai pelo canal peniano junto com o esperma dá origem àquilo que seria o vírus, e que só chamamos de vírus na falta de um nome melhor.

Digo isto porque também acredito que o vírus seja apenas um efeito colateral do uso parasitário que dão aos nossos corpos, quando nos transformam em hospedeiros. A cada seis ou sete dias meu pênis foge de meu corpo e sai voando pela lua Europa. Desconfio que esteja indo fecundar enguias no fundo do mar, fazendo contatos, semeando novas criaturas hermafroditas.

Somos meros vetores. Não é pela estranheza ou pelo exotismo; é pela eficiência do vírus.

Eu, Montezuma Lovejoy, pelo visto, fui o escolhido para dar origem à epidemia. Dois outros moradores do meu condomínio já foram vistos tendo convulsões em becos escuros, balançando e estimulando seus genitais na chuva.

Outros ainda virão.

Talvez, venho pensando, seja tudo uma vingança. Uma mágica muito bem feita por meio da qual fomos seduzidos para uma prisão de abismo, treva, e flagelos. Um ar mefítico já toma conta de nossa cidade flutuante. A chuva ouço tamborilar dizeres pestilentos. Daqui, de minha janela, observo as naves que chegam com novos tripulantes, colonos ingenuamente entusiasmados com o futuro que os aguarda nesta lua, em meio à névoa masturbatória em que essa chuva gelada nos mergulhou.

Talvez que essa revanche seja o caminho mais inteligente encontrado por essas sofisticadas criaturas feitas de karma, que padeceram no mais mesquinho dos fins possíveis, nas mãos da mais tirana das espécies do sistema solar. Incubaram em mim seu vírus de sonho, e serei eu a Maria Tifoide a perambular pelos devaneios noturnos deste novo antropoceno que a colonização espacial inaugurou aqui. Devo jurar minha lealdade à esta cruzada? Devo tomar partido contra a espaçosa humanidade que se instalou aqui? – esta humanidade histérica e desenxabida que arrogou-se o direito de aquecer seus oceanos, e de fazer chover pra sempre o céu?

Talvez tudo tenha se iniciado muito antes. Estão executando agora a segunda fase de sua colonização ao inverso. As metrópoles estarão daqui pra frente proibidas de desfrutarem de suas colônias. Muito antes da engenharia aeronáutica ter tornado viável a colonização do espaço, quando ainda sonhávamos com a possibilidade de vida fora da Terra e a exobiologia era tão somente um ramo dedicado à especulação criativa, alguns poucos humanos ouviam os sibilos destes seres de outra procedência. A imaginação foi a isca que usaram. Primeiro ocupamos a nossa Lua, depois Marte. Mas não havia vida lá; era tudo um aprendizado. Foram eles, foram as próprias criaturas da Lua Europa que nos trouxeram pra cá, e agora estamos apenas cumprindo o papel que nos foi legado: derreter o gelo, libertá-las para que iniciem, dentro do espaço onírico, a sua própria colonização do cosmo – o fim da raça humana tal e qual a conhecemos, suas carcaças de esmegma parindo uma nova espécie, muito mais doente, mas muito menos solitária.

Isso tudo termina por turvar minhas ideias. De nossa parte, o que os terráqueos vieram fazer aqui? Qual foi a desculpa divulgada lá na Terra? Qual o real motivo alegado pelos nossos líderes? Em busca de quais mercadorias viemos? A descoberta de qual minério custeou as nossas vindas? Mas quando ouso levantar a voz e perguntar isso pra alguém, tudo o que fazem é desconversar.

E é por isso que começará por mim este que será um demorado apocalipse. Os doutores daqui não sabem de nada. Eles não sonharam ainda com essas profundezas. Mas talvez sonhem um dia. Talvez, depois, a Terra toda sonhe.

E seja lá o que for que sonharem, saberão que eu sonhei primeiro.


Imagem: Toshio Saeki

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