ficção aumentada

I must download several copies of myself and storage them into security areas.

Terence McKenna

 

Num futuro em que a pesquisa com tecnologias de Realidade Aumentada seguiu desimpedida, imaginemos sua conjunção com os ramos da robótica responsáveis pelo desenvolvimento de inteligências artificiais e de equipamentos portáteis para realidades virtuais. Pensemos neste futuro como situado em lugar do final do século XXI, ao mesmo tempo a intersecção entre uma Idade de Ouro da tecnologia e uma Idade das Trevas emocional que obterá como resultados sociais uma enorme confusão entre os distintos níveis de trânsito de informação, até que, claro, devido à incrível plasticidade do cérebro humano, adequemos devidamente nossa linguagem a esse ultra-futuro pós-pós-humano de velocidades simultâneas incomensuráveis por meio de sofisticadíssimos implantes neurobiológicos de aumento de capacidade sensorial e de memória.

Todavia, considerando que nem todas essas maravilhas de ponta serão prontamente disponibilizadas a preços acessíveis para os cidadãos comuns, imaginemos diversões mais sutis, arquitetadas pelos artistas, arquitetos, engenheiros da programação e da informática, todos esses mestres espirituais vindouros que terão às suas mãos tantos e tão fascinantes instrumentos de criação e não hesitarão em exibir ou esconder os seus produtos por aí, nas áreas acessadas por realidades indefinidamente maiores, espalhadas pelos espaços tangíveis aos corpos e às mentes futuras.

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as consequências psicossociais das viagens no tempo

Na sala de experiências transtemporais, no subsolo de uma universidade brasileira não mencionada, os cientistas, moliéres e ômis, aguardam ansiosamente pela chegada da viajante do futuro. Atrasos eram previstos. Por se tratar de um evento inédito, a demora em se consumar faz com a crise se acelere e produza uma expectativa muito além daquela suportada até agora pela turma de cientistas escalada para o turno.

As coisas evoluíram depressa. Há exatamente um ano o primeiro memorando, diretamente enviado do futuro, aparecia pra eles na telinha de um monitor. A mesma localização, o mesmo laboratório, indicado pelas coordenadas. Resultados previstos, mas nem por isso isentos de euforia. Haviam acabado de comprovar, antes que qualquer outro centro de pesquisa do mundo chegasse aos mesmos resultados, a possibilidade de se enviar e receber dados digitais para o passado e para o futuro, algo através do continuum espaço-temporal canalizado por um terminal transdimensional construído pelo pessoal da escola de engenharia, com a ajuda de uma consultoria virtual prestada por uns alemães surpreendentemente insubordinados.

A mensagem, ao que tudo indicava, havia sido enviada por eles mesmos. Num futuro próximo de daqui a duas horas.

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o deus-verme e o impítima

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em conturbérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Augusto dos Anjos

Preparando-se para a maratona televisiva, Maykon, vestido com a usual bermuda de depois do almoço, começa a expelir pelo bóga os primeiros gases que a feijoada de hoje vem forjando desde a ingestão, nos lençóis freáticos do cuecão…

O controle-remoto numa mão e o baseado na outra e o isqueiro na outra, pois que Maykon é um marmanjo com três mãos, ele prolonga um suspiro cansado, de dever cumprido. Sem contestar qualquer arroto, uma sacolejada saborosa, como que couve com farofa, sobe-lhe à garganta só pra ser mandada de volta pelo esôfago.

Há uma maratona televisiva pela frente. Um programa sem intervalos nem comerciais. Sem cortes, com a prometida duração de, pelo menos, oito horas. Sem replays, nem narradores obsoletos. Sem comentaristas folgados, nem ex-atletas sendo salvos do ostracismo.

Maykon acompanha, em tempo real, os comentários e as piadas que seus contatos soltam pela rede e compartilham pela rede. Contatos, porque seria equivocado confundir essa relação com qualquer coisa próxima de uma amizade.

Maykon acredita que está se divertindo muito mais que todos eles. Acredita que está diante do entretenimento mais prenhe de sentido em toda a História do Brasil.

Mais do que a Copa de 70, por exemplo.

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maneiras curiosas de ir à guerra

As guerreiras bafudas

O aventureiro e explorador espanhol Francisco de Orellana é o responsável pela primeira menção às amazonas feita em terras do Novo Mundo, no início do século XVI. A lenda das mulheres guerreiras conhecidas por tal nome remete a um repertório de conteúdo clássico, mas a sua ocorrência não se limita apenas à Europa ou ao mundo helênico. As amazonas citadas pelo grego Heródoto habitavam em algum lugar próximo ao reino dos sármatas, na costa do Mar Negro. Para Orellana, as amazonas sul-americanas habitariam algum lugar da densa floresta tropical, hoje bem próximo às Guianas.

Em sua viagem, que atravessou todo o Rio Amazonas, não há nenhuma menção às guerreiras bafudas que aparecem nas lendas mati – distantes de Orellana tanto no tempo como no espaço, uma vez que seu reino estaria mais próximo do Peru, no Vale do Javari, no Alto Solimões, e suas histórias remetam a acontecimentos mais recentes.

Os contadores de histórias da tribo dos mati oferecem uma imagem bastante exótica dessas guerreiras, tanto medo e terror elas levaram aos seus inimigos, brancos ou até mesmo outros índios. Diferentemente de suas parentes históricas, que, pelo que contam, tinham o hábito de arrancar o seio esquerdo para facilitar o manejo do arco, as guerreiras bafudas (é assim que os mati as chamam em seu idioma) não faziam uso de qualquer tipo de arma que não fosse o tacape.

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carne de e.t


I prefer the time of insects to the time of stars.” – Wislawa Szymborska, ‘Nothing Twice’.

Enquanto caminha pelo parque num domingo ensolarado, Casemiro pensa no futuro.

Ao olhar para a maneira despreocupada com que os pais brincam com seus filhos, todos portando sorrisos em seus rostos, quentes como o calor que faz naquele dia, ele imagina um futuro diferente, sombrio, impessoal, cheio de rancor, ressentimento, tédio e desespero. Contemplando um casal de namorados trocando carícias em um banco só para os dois, Casemiro é preenchido por uma certeza cada vez mais cabal de que, neste futuro que começa a tomar forma em sua mente, a vida terrestre será uma sucessão de tragédias monótonas e asquerosas, bem diferentes daquele cenário que ele tem no momento à sua volta.

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ó a lama lá

Inter urinas et faeces nascimur. – Santo Agostinho

 

Uma multidão de pás, enxadas, tochas acesas, abominável gente feia e suja e esbravejante na rua se aglomera. Não hesitam em destruir as vidraças dos bancos, nem os automóveis. A polícia é chamada pra resolver a situação, mas os policiais não pensam em nenhum momento em resolver coisa alguma. Com as armas em mãos, apenas assistem. À frente da turba, de coleiras no pescoço e roupas rasgadas, forçados a rastejarem de quatro, com lama tóxica esparramada por todo o corpo e enfiada até o preenchimento total em cada orifício destes corpos, inclusive nos olhos e orelhas, vão aqueles que foram identificados como responsáveis pelo crime. Não são os primeiros a passarem pelo ato de humilhação pública – mas no momento, são os únicos vivos. Políticos, funcionários premiados, empregados perfunctórios. Todos os outros culpados já foram mortos, seus corpos deixados pelo caminho no enorme rastro de destruição e revolta percorrido pela turba furiosa.

Diante do imenso edifício da Companhia a rua é um rebuliço em chamas. Uma placa de PARE é arrancada junto de uma enorme porção de concreto e terra. A gritaria é ensurdecedora. Os policiais, contrariados, discutem o que fazer. O contingente é muito pequeno – foram pegos desprevenidos. A tropa de choque espera, assanhada, mas algo a impede de chegar. Por enquanto são apenas algumas poucas viaturas. Bombas de efeito moral não parecem surtir efeito. E os sprays de pimenta são revidados com pedras e paus. Um enorme lodaçal infectado acompanha o povaréu. Não há líderes, não há porta-vozes, e o único laço de comunhão entre estes miseráveis plebeus é o ódio, o furor, o desespero.

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bem-vindo seja quem vier por bem

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I

O relato transcrito abaixo encontra-se presente nos volumes do processo 211/70 e foi redigido por um agente em serviço, infiltrado na célula terrorista em questão, conhecida como MRI-67, e cuja participação foi cabal para o seu desbaratamento. Seu nome permanecerá incógnito. Chama-nos atenção, contudo, a liberdade da qual serviu-se o agente para compor um texto inadequadamente literário. O tom de cuidadosa onisciência que permeia a narrativa, e uma proposital e justificada omissão de seu redator, absolutamente incompatível com palavras que, ao serem empregadas ali, de certa forma denunciam um envolvimento grave e indesejado de sua pessoa com as dos terroristas, acabaram contaminando o funcionamento da máquina de vigilância com ponderações excessivamente subjetivas, além de povoá-la com perniciosas caricaturas. À guisa de uma comparação, segundo o jargão empregado pelos guerrilheiros subversivos, o agente teria aberto inúmeros “pontos” em em seu relato, muito pouco ou quase nada agregando ao andamento das operações, ainda que, como já foi dito, sua participação tenha sido elementar. Sendo um caso único na história da instituição, ademais, este texto terá como garantida a atenção dos superiores.

O revisor fez uso de asteriscos sempre que julgou necessário acrescentar alguma observação.


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