a ficção pré-histórica

Entendemos como ficção uma narrativa sem pretensões de verdade.

Por mais problemática que seja a palavra verdade, todas as outras derivações e consequências daquilo que entendemos como ficção são secundárias diante deste pressuposto.

O número de personagens, o conteúdo dramático, o suporte ou mídia para o qual foi feita, quando, onde, e por quem tenha sido escrita ou contada, nada disso importa para o uso do termo ficção. Basta que seja uma história sabidamente inventada por alguém – quantos tenham sido tampouco é determinante para o emprego do vocábulo.

Imaginamos que, antes de depararem-se com a importância de saberem falsas ou verdadeiras suas narrativas, os povos do passado, ao redor de suas fogueiras, já tinham se acostumado a contá-las e a ouvi-las nos momentos certos.

Isso antes de serem cantadas pelos bardos, individualizadas e colocadas no papel, postas em circulação, antes de serem organizadas em bibliotecas e tudo o mais, quando ainda eram gestadas sob a inspiração de entorpecentes ou de entidades sobrenaturais – a partir do momento em que são destinadas ao público, tudo isso é de interesse para a divisão que será feita, quando postos em circulação no mundo moderno. A disposição dos textos ao gosto.

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anatomia de uma obra

eric fischl

O romance do escritor luso-argelino Aconcágua Mem, intitulado Looping Roliço (Editora Ventre & Vida), de 2011,  tornou-se, há pouco tempo, objeto de culto por uma parte da crítica literária especializada em coisa alguma, três anos após uma estreia que, ninguém discorda, passou-se bem desapercebida. A obra chamou a atenção daqueles que a leram, um grosso volume de 884 páginas, especialmente depois que Aconcágua supostamente deu-se por desaparecido seis semanas após o seu lançamento, tendo sido visto pela última vez em um café, em Medelín, a cidade colombiana em que residia.

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“Yo no estoy completo de la mente…”

insensatez5801164238744

Insensatez, o romance do salvadorenho Horacio Castellanos Moya, é, no mínimo, desconcertante. Escrito em 2004, o movimento que parece ilustrar as poucas páginas do livro (155, ao todo) é um debruçar vertiginoso sobre a violência e as incicatrizáveis feridas da América latina – e consequentemente de sua própria literatura. Mais do que isso, é também um potente testemunho do poder e da responsabilidade da leitura, ao mesmo tempo em que aponta certas tendências literárias do nosso tempo.

A história: narrador, cujo nome nunca é revelado, espécie de alter-ego de Moya, aceita a tarefa de ir a algum país da América Central (Guatemala) revisar certos documentos que tratam do massacre das populações nativas – massacre este perpetrado pelo próprio exército guatemalteca ao longo de mais de vinte anos de genocídio. O trabalho faz parte da iniciativa de uma diocese local interessada em expor a matança para os órgãos internacionais que se dedicam às questões que envolvem os direitos humanos. A recompensa pelo serviço prestado envolve uma quantia de mais ou menos cinco mil dólares. Trata-se, portanto, do romance de uma leitura – a leitura, feita pelo narrador, de um passado sangrento perpetuado em relatos que, muitas vezes, acabam ganhando dimensões ainda maiores nas vozes das próprias vítimas.

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