o nervo de haussmann

Sabemos que Sebastian Haussmann nasceu na Turíngia, na penúltima década do século XVI. Filho da união de um rico comerciante alemão com uma senhora italiana nascida no Vêneto, estudou medicina na Universidade de Pádua, onde foi aluno de Vesálio e de Girolamo Fabrizio.

O fascínio nele despertado pelas aulas dos anatomistas italianos foi o suficiente para que dedicasse o restante de sua carreira ao estudo do corpo humano. Ainda que saibamos pouco sobre sua vida, posto que além dos dois processos judiciais movidos contra ele o tempo só preservou algumas páginas de seu diário pessoal, não nos será difícil imaginá-lo à luz da liberdade intelectual da qual gozavam os estudantes daquela época, mergulhados na renascença esplendorosa da Sereníssima.

Entre a admiração pelas xilogravuras do grandioso volume De Humani Corporis Fabrica e a veneração por uma antiguidade povoada pelas pinturas de seus contemporâneos, Haussmann, pelo que consta em suas anotações, nutria uma profunda devoção pela figura e pela obra de Cláudio Galeno, e a imagem do médico ancestral vivissecando macacos e expondo suas grandiosas palestras sobre a higiene pessoal nos anfiteatros, na glória que deveria ter sido o mundo greco-romano, também motivava seus próprios sonhos pessoais de prestar um contributo à história da ciência e da medicina.

Passou a juventude acompanhado pelos outros estudantes da universidade, cujo lema Universa Universis Patavina Libertas servia como um abrigo para reunir alunos provenientes da França, da Áustria, e de todas as regiões da Itália, as quais ele pôde conhecer em poucas e curtas viagens.

À guisa de contornar as lacunas deixadas pelo silêncio que circunda sua figura, completemos este vazio com a nossa imaginação, a partir da qual poderemos encontrar a silhueta deste jovem estudante acompanhado por outras silhuetas semelhantes à sua, frequentando tavernas, passando por ruas escuras ao voltar para casa, dedicando os dias e as noites de lampião de suas semanas aos estudos e às especulações abundantes de uma época e um lugar cujo terreno era fértil o bastante para sediar uma revolução científica. E ainda e sempre, é claro, encontrando tempo para dedicarem-se às paixões que costumam florescer nessa idade, em qualquer século se esteja.

Mas o destino às vezes impõe-se com certa truculência, e, para Sebastian, a morte da mãe e o consequente avanço de uma doença degenerativa que acometia seu pai fez com que retornasse à Turíngia, deixando para trás aquele mundo colorido cheio de intelectuais, de poetas e musas. Tentou, como pôde, gerenciar os negócios da família, sem que obtivesse muito sucesso, pois que lhe faltava o tino para o comércio. Assim, continuou com seus estudos de anatomia a partir dos livros que trouxera consigo de Pádua, dentre eles De Curandi Ratione, De Motu Cordis e Operationes Chirurgicae, encontrando ainda vez ou outra oportunidade para prestar seus auxílios aos pacientes da aristocracia local.

Ali casou-se com Szybilla Schütze, a primeira e mais bela das seis filhas de Herr Nicholau Schütze, famoso mestre cervejeiro e velho parceiro de negócios da família Haussmann. Juntos tiveram quatro filhos: Thomas, Hans, Josephine e Brünhyld, esta última morrendo pouco antes de completar dez anos, vitimada pela tuberculose.

Com a morte do pai e a escalada dos conflitos na chamada Guerra dos Trinta Anos, o colapso financeiro dos negócios da família tornou-se iminente, e Haussmann foi levado a aumentar o número de seus atendimentos, chegando a conduzir algumas cirurgias muito bem-sucedidas e uma operação de traqueotomia em um membro do conselho de Fernando II, do Sacro-Império Romano, que lhe garantiu uma boa remuneração, e a viagem de seu nome aos ouvidos da corte.

O renome local herdado por essas bem-sucedidas operações serviu de certa forma como alimento para ambições que até então se encontravam adormecidas pelas dificuldades financeiras com que sua família lidara desde a morte do pai. Como forma de dar prosseguimento às suas investigações anatômicas, teve de burlar as leis que proibiam o uso de cadáveres humanos, chegando mesmo a sequestrar corpos de indigentes nos cemitérios de Erfurt e de Weimar, onde também funcionava como médico-cirurgião e contava com os auxílios de alguns poucos ajudantes e alunos.

Sua importância para a história da medicina anatômica e das descobertas do corpo humano deve-se ao empréstimo feito em seu nome a um nervo misto jamais encontrado em outros corpos além dos dois irmãos que ele atendeu em seu laboratório por volta do ano de 1628.

Levados até ele por insistência do pai, preocupado com os espasmos musculares que haviam se tornado frequente nos últimos anos e que havia suscitado na imaginação da família a hipótese de algum tipo de possessão demoníaca restrita aos membros inferiores, Tobias e Saul eram dois irmãos gêmeos ainda muito novos, e que foram examinados por Haussmann até a exaustão, durante meses, antes que finalmente morressem por algum tipo de choque séptico que terminou por levar a pessoa do médico ao tribunal, do qual se viu absolvido após um fastidioso litígio.

O caso, no entanto, era curioso desde o início. Incapazes de controlar os movimentos e de entender os estímulos que provocavam estranhas reações nas panturrilhas direita e esquerda, os dois irmãos foram submetidos a todo tipo de exame, ao passo que Haussmann também fazia o possível para mantê-los sob seu cuidado exclusivo.

Empregando métodos cada vez menos ortodoxos, o médico tornou-se uma figura excêntrica aos olhos do restante da população. O uso de massoterapia, recuperando a receita clássica utilizada na Grécia e em Roma, a partir da leitura de tomos antigos, era algo que naquele momento ia de encontro a certas recomendações que durante tanto tempo transformaram o contato físico em um tipo de tabu na Europa Medieval. E foi justamente a partir da massagem terapêutica que Haussmann conseguiu induzir nos dois irmãos, Tobias e Saul, um estado de êxtase jamais descrito em qualquer outro caso da medicina, a partir de uma pressão repetitiva exercida delicadamente sobre a panturrilha, o que permitiu ao médico localizar um nervo misto inédito.

Por nervo misto entende-se aquele tipo de nervo que é composto tanto por fibras nervosas motoras quanto por fibras sensitivas. Dentre alguns deles se encontram por exemplo os nervos faciais, que permitem ao mesmo tempo a sensibilidade e o movimento, além de produzirem uma variedade bastante grande de respostas fisiológicas motivadas por estímulos quaisquer sejam.

O que Haussmann percebeu, estudando os corpos dos dois irmãos, era que ambas as panturrilhas, de cada um deles, eram atravessadas por um nervo bastante superficial, que séculos mais tarde poderia ser classificado como um mecanorreceptor, mas que, devido ao seu ineditismo, nunca pôde ser devidamente estudado pela medicina posterior, terminando sem qualquer solução a dúvida sobre o seu pertencimento ao sistema nervoso central ou ao sistema nervoso periférico.

De início, aquilo que eram alguns movimentos involuntários, com a massagem localizada, transformaram-se num canalizador sensorial extremamente potente, que, com o devido estímulo, conseguiam produzir nos jovens irmãos sensações que iam de uma dor profunda e aguda até um orgasmo pleno e imobilizante cuja duração poderia ser prolongada por horas, envolvendo aí riscos enormes para a saúde pulmonar dos seus indivíduos, além da possível ocorrência de algum trauma nervoso.

Impedido de obter maiores informações, sem qualquer autorização para vistoriar a parte interna dos membros a partir de alguma operação, Haussmann conseguiu pelo menos convencer o pai dos dois irmãos a respeito da origem dos espasmos, e prescreveu uma série de massagens diárias que, com o tempo, atenuariam os movimentos involuntários de suas pernas. Dessa época é datada uma longa e relativamente precisa descrição dos músculos da perna, do nervo tibial e do nervo fibular, acompanhada de uma rica ilustração feita por um artista local, a quem Haussmann pagou do próprio bolso.

No entanto, pouco tempo depois de controlados os espasmos, os dois irmãos sucumbiram à morte em circunstâncias estranhas, sem qualquer identificação da causa do óbito, o que levou a família a mover uma ação judicial contra o médico, responsabilizado pela morte dos dois, mas sem que jamais conseguissem condená-lo de fato, sua absolvição sendo conseguida por um triz, graças à resiliência do magistrado de Erfurt.

A literatura da área manteve o devido silêncio sobre o caso Haussmann, preferindo classificá-la como um tipo muito particular de folie à trois, se levando em conta o final trágico e mortal de seus pacientes, e o consequente enclausuramento voluntário do médico responsável por eles, que terminou por morrer de uma parada cardíaca, no verão de 1635.

O seu pertencimento a um período em que as noções sobre o corpo humano ainda eram um tanto incipientes, e a pouca documentação produzida pelo caso, servem como argumentos para os céticos. Alguns deles sustentam que a morte dos dois irmãos teria sido causada por alguma infecção deflagrada pelas más condições de seu laboratório, o que teria provocado nos seus pacientes uma falência circulatória – na época associada ao excesso de massagem concentrada na região da panturrilha.

As informações encontradas sobre o assunto, disponíveis em algumas poucas enciclopédias, nada mais são do que uma atualização dos termos empregados por Haussmann à linguagem científica moderna, na qual o sistema nervoso encontra uma descrição mais apropriada e completa. O jargão do qual se valeu o médico chama atenção pela imprecisão técnica e pela criatividade da qual se valeu para dar nome a reações e associá-las a músculos e sistemas que não haviam sido inteiramente descritos até então.

Deste modo, nunca qualquer menção a algum nervo ou tipo de reação mais ou menos próxima àquela descritas pelo caso do nervo de Haussmann pôde ser encontrada em outro exemplar da espécie humana, e, ainda assim, sua ocorrência única já fez reacender algumas vezes debates inconclusivos acerca dos caminhos trilhados pela mutação genética e pela evolução. Mas o restante do caso parece bizarro o suficiente para evitar quaisquer considerações mais demoradas.

Uma cópia do diário de Sebastian Haussmann e de suas investigações científicas pode ser encontrado na biblioteca da Universidade de Erfurt, para a qual foi doado todo o seu acervo pessoal.


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