o caso do marido KGB

O seguinte caso é uma história verídica acontecida no final dos anos de 1970, na cidade de Boston, Estados Unidos. Após ter ganho a primeira página em alguns jornais locais, contudo, a notícia foi rapidamente sufocada pelos órgãos de inteligência norte-americana. A conclusão da história, portanto, nunca veio a público.


Renée Garland conheceu seu marido, Joseph Botvinnik, em uma festa num clube de dança comumente frequentado pelos universitários e pela classe média protestante de Boston, em 1971. Ela tinha 18 anos e estava iniciando seus estudos em Direito na Boston University School of Law. Ele tinha 25, e dizia ser gerente de uma exportadora de grãos e alimentos com contratos na Europa e norte da África. Não possuíam nenhum amigo em comum. O moço, ela veio descobrir, era o filho único de uma família de imigrantes ucranianos, que teriam chegado em Nova Iorque no começo do século XX. Ela, por sua vez, era a mais brilhante das três filhas de um casal de fazendeiros do Oklahoma, criadores de milho e de suínos.

Começaram a namorar em abril daquele ano, após certa resistência da parte dos pais de Renée, que não colheram boa impressão do rapaz. Os protestos contra a Guerra do Vietnã eclodiam em Washington D.C. O caso Watergate ainda não tinha vindo à tona, mas o clima em algumas universidades era de grande contestação ao governo Nixon e à política externa americana. Mas, talvez pelas suas convicções, ou pela falta delas, Renée não tomava parte em manifestações políticas. Pelo que contavam suas amigas, na verdade, pouco ou nenhum interesse ela tinha por estes assuntos. Diziam também que a verdadeira razão pela qual ela se apaixonara por Joseph eram os incríveis e sedutores olhos azuis do rapaz. Isso e a inevitável aura de mistério que o acompanhava.

Ele, durante alguns meses do ano, tinha de viajar a negócios. Voltava trazendo fotos e presentes. Mesmo assim, era bastante omisso a respeito das informações de seu trabalho. Apenas uma vez, naqueles anos anteriores ao casamento, Renée chegou a conhecer algum dos colegas de trabalho de Joseph, em uma situação brevíssima que não deu a ela tempo de tirar quaisquer conclusões. Tratava-se de um senhor de idade, com sotaque eslavo, que ela jamais chegou a encontrar de novo.

A família Botvinnik ela também nunca teve a chance de conhecer. Joseph contara que seus pais haviam morrido em um acidente de avião, numa viagem que teriam feito para Kiev há mais ou menos dez anos. Tudo o que tinha deles era um álbum de fotos e um apartamento em Nova Iorque, no Queens, onde tinham vivido, e que depois havia sido passado para o seu nome.

Casaram-se em 1973, numa cerimônia modesta, à qual compareceram os familiares de Renée, amigas e amigos da faculdade, e um ou outro colega de Joseph que ele jamais havia mencionado. Mudaram-se para uma casa no subúrbio, onde uma vizinhança pacata os recebeu com boas-vindas. Renée graduou-se e começou a advogar já no final daquele ano, engravidando logo em seguida.

O primeiro filho, Zachary, nasceu no verão de 1974. Tinha os olhos do pai e o nariz adunco da mãe. Não demorou para que tivessem o segundo, e no ano seguinte Renée deu à luz uma menina, Anastacia. As viagens de Joseph tornaram-se mais frequentes sob a alegação de que agora era o responsável por prover o sustento de todos os moradores da casa e, para tanto, incumbira Renée de criar os filhos, proibindo-lhe de continuar advogando.

“Isso é só uma distração estressante”, teria dito, “vai te afastar do lar e dos teus filhos. O salário não vale a pena pelo esforço”.

As amigas de Renée acreditam que teria sido essa a primeira desavença entre os dois. Na verdade, era a única de que vieram a saber, porque desde então ela se distanciou das amigas. Nas pequenas ocasiões e encontros que se sucederam, Renée dava apenas informações bem sucintas sobre como as coisas estavam indo. Na companhia dos filhos, quase nunca era vista em público com o marido. Também nunca chegou a ser convidada para os jantares de negócios que Joseph supostamente tinha com seus clientes e sócios.

Não sabemos se motivada por ciúme, ou se por um vacilo da personalidade de Joseph, Renée começou a nutrir certa desconfiança em relação à ocupação e às desculpas que envolviam o serviço de Joseph. Zachary havia completado 2 anos quando sua mãe passou a considerar a hipótese do marido estar mantendo um caso extraconjugal.

Ainda que fosse dono de opiniões duras, que a frieza no lar, com ela e com os filhos, fosse com o tempo desmanchando aquela imagem inicial pela qual Renée havia se apaixonado, Joseph sempre demonstrou ser um marido respeitoso. Nunca faltou com suas obrigações paternas, sempre proviu o sustento e, de fato, nunca chegaram a lidar com dificuldades financeiras. Durante os anos de casamento, nunca nenhum amigo do casal chegou a desconfiar de qualquer suspeita de violência doméstica. A imagem social do casal estava bem distante disso.

Em agosto de 1976 viajaram para a Argentina, no mesmo ano em que uma junta militar depunha a família Perón e iniciava no país um regime ditatorial que duraria até 1983. A única lembrança possível dessa viagem está conservada em uma foto singela, tirada em uma tarde cinzenta no bosque de Palermo, e na qual cada um aparece segurando um dos filhos.

Mas a viagem não teria sido o suficiente para dissipar as dúvidas de Renée, e uma vez retomada a rotina, as viagens e saídas misteriosas de Joseph se reiniciaram. Desencorajada pela presença cada vez mais distante do marido, Renée jamais conseguiu transformar o assunto em uma discussão de casal. Seu marido não dava espaço pra quaisquer iniciativas, ou então faziam parecer que eram injustificáveis e que o problema todo estava nela. Apreensiva e incomodada com as dúvidas, contratou um detetive particular, e o pôs para vigiar o marido. Queria saber se a hipótese de uma amante encontraria alguma solidez.

O detetive atendia pelo nome de Joshua Orton. Era um texano que havia servido na Guerra da Coréia e que, depois de aposentar-se do quadro militar como primeiro sargento, sobrevivia oferecendo seu serviço de investigação por todo o estado de Massachusetts. Era perito em resolver situações como aquela que julgava ser o caso de Renée. Para tanto, recomendou a ela uma série de precauções – era melhor que Joseph não desconfiasse de nada.

O pai de Renée faleceu no final daquele ano, vitimado por um enfarto fulminante, uma semana após Jimmy Carter ser eleito o novo presidente. Em seu testamento resolveu antecipar uma parte da herança para sua filha. Joseph não encontrou tempo de ir ao funeral. Sabemos que Renée teria conversado com sua mãe e dado a entender que as coisas não estavam muito claras entre os dois, muito embora não estivessem passando necessidades. Dizia que estava sobrecarregada com as crianças, e que sentia vontade de voltar a trabalhar. Como a mãe se encontrava abalada com a morte súbita do marido, Renée não insistiu, e só foi embora depois de tranquiliza-la, fazendo-a crer que na verdade estava tudo bem.

Foi a última vez em que se viram.

Como havia sido impedida pelo marido de trabalhar, as finanças e contas da família estavam sempre sob controle de Joseph, e qualquer movimentação estranha teria chamado sua atenção. A forma encontrada por Renée para remunerar o serviço de investigação particular que havia contratado estava em retirar o pagamento da poupança na qual havia sido depositada a pequena herança de seu pai. Assim, tentou manter as coisas na surdina como pôde, tendo passado a reprimir todas as dúvidas que até então havia levantado perante a conduta do marido.

As investigações prosseguiram até abril de 1977. Por ordem de Joshua evitavam o telefone e se encontravam sempre num café próximo à prefeitura.

Naquilo que teria sido o encontro mais decisivo de todos, o detetive Orton teria colhido informações que julgava importantíssimas. Sabia que na verdade Joseph não era funcionário de nenhuma exportadora de grãos. E que seus jantares de negócios na verdade eram fachada para os encontros sorrateiros que ele vinha tendo com grupos de homens ainda não identificados, muitas vezes tendo lugar na zona portuária de Boston. Joshua dizia que os encontros eram breves e que havia troca de documentos e de outros materiais. A hipótese extraconjugal estava descartada. No entanto, o detetive ainda não havia conseguido identificar que tipo de transações e encontros eram aqueles. Disse que precisava de mais tempo.

Mas logo em seguida Joshua sumiu do mapa. Deixou de comparecer ao café, e não retornava as ligações de Renée. Antes mesmo que fosse dado como desaparecido no noticiário, Renée foi sequestrada por Joseph e mantida em cativeiro por 72 horas antes de ser assassinada friamente com um tiro de calibre .22 na têmpora. As crianças foram entregues a irmã mais nova de Renée, que não possuía filhos e acolheu-os com o seu marido.

A vizinhança chocada com a história jamais pôde lidar com a elucidação total do crime. Com o andamento da investigação, a história ficou confinada nos círculos mais concêntricos do governo americano, sob responsabilidade da CIA e do FBI.

A razão para tanto se deve ao fato de que Joseph Botvinnik era na verdade um espião russo chamado Eric Yesikov, nascido na Crimeia, a quem os federais já haviam desistido de perseguir há alguns anos por insuficiência de provas. Sua função era confundir e despistar o serviço de inteligência americano, facilitando o trabalho de campo dos outros agentes soviéticos infiltrados na sociedade estadunidense desde 1950.

O final trágico e sua fuga desastrada para a proteção de Moscou serve como expressão da importância das informações que carregava, tornando-o um alvo vivo para os órgãos de inteligência norteamericanos. Em sua posse estava o contato de quase todas as listas de agentes duplos que o governo soviético mantinha em território americano.

Não sendo o único caso conhecido de agentes que levavam vidas duplas, a atuação estabanada de Joseph (Eric Yesikov), a morte de uma inocente e o final triste para as crianças coloca o caso no lugar dos mais traumáticos do período da Guerra Fria.

O cadáver de Joshua Orton foi encontrado dois meses depois, preso na tubulação de uma estação de tratamento de água.


Imagem: Pink Bedroom, Richard Tuschman

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