a ficção pré-histórica

Entendemos como ficção uma narrativa sem pretensões de verdade.

Por mais problemática que seja a palavra verdade, todas as outras derivações e consequências daquilo que entendemos como ficção são secundárias diante deste pressuposto.

O número de personagens, o conteúdo dramático, o suporte ou mídia para o qual foi feita, quando, onde, e por quem tenha sido escrita ou contada, nada disso importa para o uso do termo ficção. Basta que seja uma história sabidamente inventada por alguém – quantos tenham sido tampouco é determinante para o emprego do vocábulo.

Imaginamos que, antes de depararem-se com a importância de saberem falsas ou verdadeiras suas narrativas, os povos do passado, ao redor de suas fogueiras, já tinham se acostumado a contá-las e a ouvi-las nos momentos certos.

Isso antes de serem cantadas pelos bardos, individualizadas e colocadas no papel, postas em circulação, antes de serem organizadas em bibliotecas e tudo o mais, quando ainda eram gestadas sob a inspiração de entorpecentes ou de entidades sobrenaturais – a partir do momento em que são destinadas ao público, tudo isso é de interesse para a divisão que será feita, quando postos em circulação no mundo moderno. A disposição dos textos ao gosto.

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A guerra nas sociedades selvagens

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“Foi o descobrimento da América que, como se sabe, forneceu ao Ocidente a ocasião de seu primeiro encontro com aqueles que, desde então, seriam chamados de selvagens. Pela primeira vez os europeus viram-se confrontados com um tipo de sociedade radicalmente diferente de tudo o que até então conheciam, precisaram pensar uma realidade social que não podia ter lugar em sua representação tradicional do ser social: em outras palavras, o mundo dos selvagens era literalmente impensável para o pensamento europeu. Aqui não é o lugar de analisar em detalhe as razões dessa verdadeira impossibilidade epistemológica: elas se relacionam à certeza, coextensiva a toda a história da civilização ocidental, sobre o que é e o que deve ser a sociedade humana, certeza expressa desde a aurora grega do pensamento europeu do político, da polis, na obra fragmentária de Heráclito. A saber, que a representação da sociedade como tal deve encarnar-se na figura do Um exterior à sociedade, na disposição hierárquica do espaço político, na função de comando do chefe, do rei ou do déspota: só há sociedade sob o signo de sua divisão em Senhores e Súditos. Resulta dessa visão do social que um grupo humano que não apresente o caráter da divisão não pode ser considerado uma sociedade. Ora, quem é que os descobridores do Novo Mundo viram surgir nas praias atlânticas? “Gente sem fé, sem lei, sem rei”, segundo os cronistas do século XVI. A causa era assim entendida: esses homens no estado de natureza não haviam ainda chegado ao estado de sociedade. Quase unanimidade, perturbada apenas pelas vozes discordantes de Montaigne e La Boétie, nesse julgamento sobre os índios do Brasil.

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