o mundo está ficando mais chato?

Habiéndose negado él al entendimiento y a la voluntad, le queda sólo el juego de la memoria: quando lo presente ya nada nos insinúa y lo futuro no tiene color delante de nuestros ojos, ¡bueno es dirigirlos a lo pasado, sí, allá, donde tan fácil es reconstruir las bellas y sepultadas islas de júbilo!

Leopoldo Marechal, Adán Buenosayres

É um dia nublado. O Imortal decide colocar sua cadeira de fio colorido trançado no passeio à frente da sua casa pra mó de contemplar melhor a vizinhança. Além da contemplação tranquila e desinteressada, há em sua pequena ação uma escolha consciente de cumprir também com este bem estabelecido ritual que há nas cidades interioranas.

O Imortal, sentado em seu trono, olha para o céu nublado – as nuvens que são o cérebro do deus Ymir. Algum tipo de conexão estabelece uma correspondência metafórica entre as informações que hoje são armazenadas em nuvens virtuais, a mente do Imortal, e o céu nublado que paira sobre a cidade.

Ele captura um pensamento que estava de passagem no trânsito à meia-altura. Um pensamento que, delineado e lapidado, consegue se expressar num enunciado bastante desconfortável: “o mundo está ficando mais chato.”

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A alma na visão de um imortal

The Lovers' Whirlwind illustrates Hell in Canto V of Dante's Inferno

 

“Já contei como foi que começamos entre nós a ideia de alma? É uma ideia tão antiga que dizemos que nasceu junto com a própria consciência. A consciência de si e do outro, e também todas as variantes daquilo que vieram a chamar de metempsicose, que é a migração das almas. Mas, entre nós, essas ideias só floresceram e criaram vínculos depois de vermos morrer muitos. Da destruição dos vínculos. É que encontrávamos semelhanças demais entre os distantes. Distantes no tempo, separados pela morte. À primeira vista não podíamos aceitar o fato de que eram gentes diferentes, pessoas diferentes, mundos diferentes. Corpos imateriais resolviam bem essa questão da semelhança. Não morríamos nós, os imortais, e entre os outros, os que morriam, acabávamos notando uma continuidade muito grande de espírito. De fluência. Não sei se foi buscando algum consolo, dando vazão a desejos simbólicos inconscientes, reprimindo ceticismos, foi porque éramos uns, poucos, e eles eram outros, muitos. Algumas almas tornavam-se maiores pela frequência com que se perpetuavam nas heranças que deixavam aos gestos. Não se tratava apenas de uma semelhança física, ou da defesa de ideias parecidas. Era algo muito mais profundo (nos termos de hoje daríamos à superfície o nome de fenótipo, e genótipo à profundidade). Essa gestualidade atemporal, compartilhada por gentes que eram estranhas entre si, nos entregava à consulta constante de figuras que só ousavam se pronunciar em circunstâncias muito específicas, quase sempre em sonhos, como ideias permanentes, almas permanentes. Dos dois atributos que competem para a constituição do humano, a vida e a morte, era o segundo que nos faltava, e era precisamente essa ausência que estilhaçava em nós qualquer princípio de humanidade que pudéssemos querer germinar. As almas, partindo e regressando em voos imêmores, nos traziam essas fagulhas de humanidades distintas e distantes. O efeito foi terrível. Liberdade seguida de enclausuramento: nós, imortais, ou não possuíamos alma nenhuma, ou, aquela que tínhamos, estava condenada à prisão perpétua do corpo, sem nunca poder se libertar na hora da morte, e tinha como breve amostra da liberdade somente algumas poucas horas de sono e pesadelo, horas em que se entregavam esvoaçando pelos firmamentos, encontrando outras almas que há muito já tinham se libertado e que bem poderiam regressar quando assim quisessem. Então a alma sempre foi para nós esse secreto grau de parentesco que os descendentes possuíam com os seus ancestrais sem que soubessem. Mas a verdade é que nunca existiu porcaria de alma nenhuma, e, mesmo não existindo, como se fosse permitido a alguma coisa que não existe a faculdade de exceder-se, outra verdade ainda mais dolorosa é a de que, todavia, já há almas demais. E morrer…”

 

 

 

 


Imagem: William Blake.