bem-vindo seja quem vier por bem

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I

O relato transcrito abaixo encontra-se presente nos volumes do processo 211/70 e foi redigido por um agente em serviço, infiltrado na célula terrorista em questão, conhecida como MRI-67, e cuja participação foi cabal para o seu desbaratamento. Seu nome permanecerá incógnito. Chama-nos atenção, contudo, a liberdade da qual serviu-se o agente para compor um texto inadequadamente literário. O tom de cuidadosa onisciência que permeia a narrativa, e uma proposital e justificada omissão de seu redator, absolutamente incompatível com palavras que, ao serem empregadas ali, de certa forma denunciam um envolvimento grave e indesejado de sua pessoa com as dos terroristas, acabaram contaminando o funcionamento da máquina de vigilância com ponderações excessivamente subjetivas, além de povoá-la com perniciosas caricaturas. À guisa de uma comparação, segundo o jargão empregado pelos guerrilheiros subversivos, o agente teria aberto inúmeros “pontos” em em seu relato, muito pouco ou quase nada agregando ao andamento das operações, ainda que, como já foi dito, sua participação tenha sido elementar. Sendo um caso único na história da instituição, ademais, este texto terá como garantida a atenção dos superiores.

O revisor fez uso de asteriscos sempre que julgou necessário acrescentar alguma observação.


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Diagnósticos

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Se, no passado, a paranoia anticomunista justificou intervenções, hoje tal discurso não deixa de clamar por salvadores. Mas, se o comunismo, num cenário de 50 anos atrás, existia enquanto ameaça real, pertencente a um contexto de Guerra Fria, hoje, aquilo que os seus inimigos temem e atacam não é senão uma farsa. Aqueles que se opõem ao PT recorrem a motivos praticamente simétricos: os que enxergam no partido o germe da vontade comunista estão a ver uma caricatura de feições exageradas; os que o entendem como um veículo burguês que traiu suas bases operárias têm diante de si uma deformidade, uma anomalia.

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