no bambuzal dos boatos

Uma comissão sem nome perambula pelos corredores do Palácio do Planalto. Ninguém sabe quem convocou seus membros. Ninguém sabe de onde veio a ideia. Ninguém sabe a que serve e o que se pretende fazer.

A comissão discutirá a situação do país e fará reuniões deliberativas. A comissão paga hora extra e tem pausa pro cafezinho.

O terno é o uniforme dos canalhas. Os funcionários podem ser corruptos, cretinos, estelionatários, picaretas, o que quer que seja, mas têm sentimentos e sabem se emocionar. O heroísmo é proporcional ao melodrama.

Um dia recebemos uma moção, vinda de um representante de outro ministério. No outro dia noticiaram cortes no orçamento. No instante seguinte, boatos desmentem boatos anteriores. Listas negras, infogramas, quadros de avisos, informes – de repente alguém olhou e viu o tamanho do trabalho que teríamos pela frente, e aí já era tarde. Não dava mais pra desistir.

A comissão ficará responsável pela tarefa de sustentar mentiras e prolongar boatos. O objetivo do grupo é fornecer, ao conjunto público dos cidadãos deste país, evidências empíricas que ajudem a comprovar como verdadeiros os complôs que se sustentam no imaginário popular.

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Os futuros pretéritos

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É ato um tanto falho medir a qualidade de uma obra de ficção a partir da quantidade de previsões “acertadas” que seu autor fez em relação ao futuro. Se 1984 ou Admirável Mundo Novo possuem alguma qualidade, ela não se destaca de sua forma literária. O modo com que uma obra pode ajustar-se à época em que foi feita, ou às épocas posteriores, sendo aí melhor desfrutada ou entendida, pode servir como indício de algo?

Que algumas dessas obras acabem produzindo visões maravilhosas, claro está desde os tempos bíblicos. O mundo que penetrou-a, que ali no texto viu-se traduzido, acabou vestindo-se destas roupas, e ninguém, autor ou profeta, previu nenhum futuro que já não estivesse se anunciando no presente em que foi visto ou antecipado. Os germes, os desdobramentos de certas ideias que ecoam e que vão acrescentando acentuações ou grafias diferentes em cada pronúncia, muita literatura é feita simplesmente disso. A ninguém cabe o monopólio deste ofício – quantos mundos irrealizáveis o próprio mundo produz? O novo é inevitável, mas a procura por sintomas originais, mitos de origem e cultos à criatividade, que tal procura tenha se tornado ela mesma um sintoma do fracasso destas lendas, eis aí um atestado não muito original. Da genialidade convém dizer que não há nenhum atributo mais execrável, e que dentre seus adoradores destacam-se aqueles que outorgam aos seus gênios dotes mais ou menos proféticos, e, até mesmo, a ideia de que estariam eles “à frente de seus tempos”.

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Gosma

“Todo brasileiro já se irritou com o próprio país. Todo cidadão deste país, alguma vez na vida, já esteve diante de alguma situação absurda que o fez dizer para si mesmo: “isso é o Brasil!”. Mas o que é “isso”? À frustração do “isso” soma-se também uma satisfação. Ambos os sentimentos, frustração e satisfação, contudo, derivam de uma ilusão anterior até mesmo à experiência que os produz: “isso” é um elemento de diferenciação. É o que torna o Brasil um monumento de espanto e admiração para o próprio brasileiro – é o que os torna especiais e diferentes dos outros povos e culturas, que eles sequer conhecem. Estou frustrado porque somente neste país em que vivo tal absurdo é permitido e até mesmo recorrente; estou satisfeito porque isto diferencia o meu país de todos os outros. Mas essa satisfação é uma satisfação torpe, como qualquer emoção promovida por uma alucinação. Qual droga causou em nós esse efeito? Dizemos “isso é o Brasil” em situações extremas: o Brasil é tanto o samba de Pixinguinha quanto aquele castelo construído por um deputado com o dinheiro desviado de algum quinhão qualquer. Nenhum absurdo é exclusividade do Brasil, tampouco da Rússia ou da Índia. O prejuízo é sempre público – o tolo que comemora sua singularidade nas feições da região da qual provém é um tolo que apenas ficou no meio do caminho. Nenhuma vitória pode constatar a pátria ou redimi-la – apenas o esporte (e até mesmo só alguns deles), o Prêmio Nobel e o Oscar são instituições suficientemente válidas para fazê-lo em nome do povo.”