8 de Março

22-Lacemaker

Katherine, a rendeira mulher amante

“Nasceu em meados do século quinze, na rua de la Parcheminerie, próxima à rua Saint-Jacques, num inverno em que fez tanto frio que os lobos correram em Paris sobre a neve. Recolheu-a uma velha mulher, de nariz vermelho sob o capuz, que a criou. E de início ela brincou sob os pórticos com Perrenette, Guillemette, Ysabeau e Jehanneton, que usavam pequenas cotas e mergulhavam nas valetas as mãozinhas vermelhas para pegar pedaços de gelo. Também observavam os que lesavam os transeuntes no jogo de tabuleiro chamado Saint-Merry. E, nos alpendres, espiavam as tripas dentro das selhas, e as compridas salsichas balançantes e os enormes ganchos de ferro em que os açougueiros penduram a carne. Nas proximidades de Saint-Benoît le Bétourné¹, onde ficavam os scriptorium, escutavam o ranger das penas, e ao entardecer, pelas frestas dos ateliês, sopravam as candeias na cara dos clérigos. Na Ponte Pequena, escarneciam das peixeiras e escapuliam ligeiro para a praça Maubert, escondiam-se nas esquinas da rua de Trois-Portes; então, sentadas à beira da fonte, tagarelavam até as brumas da noite.

Assim transcorreu a adolescência de Katherine, até que a velha lhe ensinasse a sentar-se diante de uma almofada de rendeira e entrecruzar pacientemente os fios de todos os carretéis. Mais tarde, fez da renda o seu ofício, tendo Jehanneton se tornado capuzeira, Perrenette, lavadeira, Ysabeau, luveira, e Gillemette, a mais ditosa, salsicheira, com um rostinho carmesim que reluzia como se o tivessem esfregado com sangue fresco de porco. Quanto aos que brincavam no bairro de Saint-Merry, enveredavam por outros caminhos; uns estudavam no Monte Sainte-Geneviève², outros jogavam baralho na taberna Trou-Perrette, outros brindavam com vinho de Aunis na Pomme de Pin e outros tinham altercações no hotel da Gorda Margot, e eram vistos à hora do meio-dia na porta da taberna da rua dos Fèves, e à hora da meia-noite, saíam pela porta da rua dos Judeus. Quanto a Katherine, entrelaçavam os fios de suas rendas, e nos entardeceres de verão tomava o sereno no banco da igreja, onde era permitido rir e tagarelar.

Katherine usava uma blusa de linho cru e uma sobreveste de cor verde; tinha loucura por adornos, e não havia nada que detestasse tanto como o barrete que assinala as moças que não são de nobre linhagem. Gostava igualmente das moedas de prata, brancas e, mais nada, dos escudos de ouro. Foi o que a levou a se relacionar com Casin Cholet, sargento a pé do Châtelet; ele ganhava pouco com seu ofício. Ceou diversas vezes em sua companhia na estalagem da Mula, defronte à igreja des Mathurins; e, depois de cear, Casin Cholet ia apanhar galinhas no reverso dos fossos de Paris. Trazia-as debaixo de seu amplo tabardo e as vendia muito bem para Machecroue, viúva de Arnoul, bonita vendedora de aves na porta do Petit-Châtelet.

Não demorou e Katherine largou seu ofício de rendeira: pois a velha de nariz vermelho apodrecia no Ossuário dos Inocentes. Casin Cholet encontrou para a amiga um quartinho subterrâneo, perto da Trois-Pucelles, e ali vinha visitá-la ao entardecer. Ele não a proibia de se exibir à janela, os olhos escurecidos com carvão, as faces untadas de branco de chumbo; e todos os jarros, xícaras e pratos de frutas nos quais Katherine oferecia de comer e beber a todos que pagassem bem haviam sido roubados no Chaire, ou no Cygnes, ou no hotel do Plat d’Étain. Casin Cholet sumiu certo dia depois de empenhar o vestido e o semicorpete de Katherine na Trois-Lavandières. Disseram seus amigos à rendeira que ele fora espancado no fundo de uma charrete e expulso de Paris, a mando do preboste, pela porta Baudoyer. Nunca mais tornou a vê-lo; e sozinha, sem ânimo para ganhar dinheiro, tornou-se mulher amante, residindo em todo lugar.

De início, esperava à porta das estalagens; e aqueles que a conheciam a levavam para trás dos muros, debaixo do Châtelet ou junto ao colégio de Navarra; depois, quando o frio se fez demasiado, uma velha complacente deixou que entrasse nos banhos, onde a patroa lhe deu abrigo. Ali viveu num quarto de pedra atapetado de juncos verdes. Mantiveram seu nome de Katherine, a rendeira, embora ali não fizesse rendas. Davam-lhe, às vezes, a liberdade de passear pelas ruas, com a condição de estar de volta à hora em que as pessoas costumam ir aos banhos. E Katherine vagava frente aos ateliês da luveira e da capuzeira, e não raro se demorou a invejar o rosto sanguíneo da salsicheira, rindo em meio às suas carnes de porco. Depois voltava aos banhos públicos, que a patroa alumiava ao crepúsculo com candeias que ardiam vermelhas e derretiam pesadamente por detrás das negras vidraças.

Katherine por fim se cansou de viver encerrada num quarto quadrado; fugiu para as estradas. E, desde então, deixou de ser parisiense, ou rendeira; foi como aquelas que rondam os arredores das cidades francesas, sentadas nas pedras dos cemitérios, para dar prazer aos que passam. Essas meninas não têm outro nome se não aquele que combina com sua imagem, e Katherine recebeu o nome de Focinho. Andava pelos prados e, ao entardecer, ficava à espreita à beira dos caminho, e se avistava o seu vulto branco entre as amoreiras das sebes. Focinho aprendeu a suportar o medo noturno em meio aos mortos, quando seus pés tiritavam ao roçar os túmulos. Já não havia moedas de prata, nem escudos de ouro; vivia pobremente de pão e queijo, e de uma tigela d’água. Teve amigos miseráveis que lhe sussurravam de longe: “Focinho! Focinho!”, e os amou.

A tristeza maior era escutar os sinos de igrejas e capelas; pois Focinho recordava as noites de junho em que se sentava, de sobreveste verde, nos bancos dos pórticos santos. Era no tempo em que invejava os atavios das donzelas; já não lhe restava agora nem barrete, nem capuz. Cabeça descoberta, esperava por seu pão, encostada a uma laje dura. E sentia falta, em meio à noite do cemitério, das candeias vermelhas dos banhos públicos, e dos juncos verdes do quarto quadrado em lugar da lama pastosa em que seus pés afundavam.

Certa noite, um rufião se passando por homem de guerra cortou o pescoço de Focinho para lhe tomar seu cinturão. Dentro dele, porém, não encontrou bolsa nenhuma.”

¹ Capela construída no século VI em Paris, demolida em 1854 para dar lugar à universidade da Sorbonne.
²  No Monte Sainte-Geneviève, situado no Quartier Latin de Paris, construíram-se ao longo de dois mil anos de história inúmeros edifícios, igrejas, abadias, universidades, entre os quais o Collège Saint-Barbe, fundado em 1460 (fechado em 1999).

Marcel Schwob, Vidas Imaginárias [Hedra, 2011; tradução de Dorothée de Bruchard]

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