diários oníricos

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A literatura que recorre ao sonho enquanto matéria-prima ou fonte para a elaboração de narrativas é abundante, farta. De início, alguns nomes vêm à mente: tanto Jorge Luis Borges quanto Jack Kerouac possuem um Livro dos Sonhos – o de Kerouac é um diário, o de Borges vale-se daquilo que sonharam figuras e personagens da história humana e sua mostragem já seria numerosa o bastante para que qualquer exercício de recapitulação se fizesse redundante; há o Finnegans Wake de James Joyce, a contraparte onírica do atribulado dia do Ulysses, que levou 16 anos para ser escrita; há o psicodélico Alice in Wonderland, de Lewis Carroll; há a vasta ciência especulativa produzida por Sigmund Freud e por Carl G. Jung; há The Man who was Tuesday, de Chesterton, que tem como argumento um pesadelo, e The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hide, de Stevenson, que parece ter saído de um; há Confessions of an English Opium Eater, de Thomas de Quincey, um intermediário entre estados de delírio e de sonho profundo; La vida es sueño, de Calderón de la Barca, tem no monólogo de Segismundo os versos mais memoráveis sobre o tema (Yo sueño que estoy aquí/ destas prisiones cargado,/ y soñé que en otro estado/ más lisonjero me vi./ ¿Qué es la vida? Un frenesí./ ¿Qué es la vida? Una ilusión,/ una sombra, una ficción,/ y el mayor bien es pequeño:/ que toda la vida es sueño/ y los sueños, sueños son.), mas além dele há outros tantos poetas que versaram sobre o tema: Guilherme de Almeida, em Berceuse das Rimas Riquíssimas (Durma à sombra dos meus olhos/ como de uma árvore, e molhe os/ seus sonhos nas minhas lágrimas), Edgar Allan Poe, e o sonho dentro do sonho (Is all that we see or seem/ But a dream within a dream?); há o infeliz conto de Dostoiévski, O sonho de um homem ridículo; há as paisagens desoladas do Hebdomeros de De Chirico; há o belíssimo Sandman, de Neil Gaiman; e, sem pensarem em estar fazendo literatura, a quantidade de profecias e visões que se deram em sonhos também não deve ser desprezada (há pelo menos 40 sonhos no Velho Testamento, dos pesadelos de Jó ao José adivinho que interpretava os sonhos do Faraó), e não existe religião ou conjunto de mitos que não recorra aos sonhos, assim também o comprovam o Popol Vuh, o Corão, o Bardo Thodol; e há, também, aquilo que poderíamos chamar de sonho latente – uma certa aura presente na literatura que não trata diretamente de sonhos, mas que se vale de artifícios que saíram deles, e aí a quantidade de obras identificadas como tal seria vasta, indo de Kafka a Juan Rulfo, Philip K. Dick, e qualquer outro escritor e poeta identificado como surrealista.

O livro que tenho em mãos, contudo, é o diário de sonhos de Georges Perec, La boutique obscure, traduzido para o espanhol (porque o livro não existe em português) como La cámara oscura [Editora Impedimenta, 2010; tradução de Mercedes Cebrián].

São, ao todo, 124 sonhos (sonhados de 1968 a 1974) sem qualquer acompanhamento ou comentário além da data. Acredito que se trata do primeiro feito do tipo, e os sonhos, plenamente fiéis à prática onírica, que muitas vezes surpreende por sua trivialidade surreal, podem ser facilmente identificados por aqueles que estão acostumados a sonhar. Não há ali quaisquer revelações místicas, muito embora alguns sonhos guardem insights, sincronicidades e símbolos bastante intrigantes. O que mais chama a atenção, contudo, é como a mudança brusca de direção, comum ao fluxo desordenado dos sonhos (como nos vários momentos em que as pessoas começam a tirar a roupa sem aviso e tudo descamba pro sexo), pode servir pra que Perec desenvolva uma história curta de linguagem bastante objetiva, e ao mesmo tempo pessoal, porque tem como referente experiências totalmente subjetivas (algo que se torna mais evidente por exemplo nos sonhos em que aparecem figuras autoritárias ou regimes ditatoriais pitorescos e burocráticos, com prisões e coisas do tipo – algo que talvez se vincule à história trágica dos pais de Perec, que morreram em campos de concentração nazistas).

Atraente ali contudo, no meio das referências a pessoas que desconhecemos, é o exercício do sonho na esfera da vida particular. Daí a singularidade com que cada detalhe de cada sonho parece brilhar. Apartamentos sendo reformados, relações conflituosas, frustrações cotidianas com cores aberrantes, adaptações de obras, ofícios literários que Perec desempenhava em vida, membros crescendo descontroladamente, objetos inexplicáveis. Por exemplo o sonho nº 90, de outubro de 1971, Mi altura:

“Debo redactar una nota (tipo noticia de Who’s who) relativa a mi jefe.

Para facilitarme la tarea, Jean Duvignaud me entrega una <<libreta de entana>>, una libreta cuya cuberta rígida ha sido recortada en el interior (un poco como para pasaporte).

La <<libreta de ventana>> no tiene que ver con mi jefe, sino con L. También descubro que uno de sus nombres es Bertrand. Hojeando la libreta, me doy cuenta de que la información que contiene no está en absoluto al día.

Es una libreta de ventana, pero no es una libreta al día.

Estoy en casa de S. B. En un pasillo estrecho y tortuoso, me presenta a su madre mencionando mi altura: 1,65m y medio. Rectifico. Primero digo: 1,70m, después: 1,68m. tengo la impresión de ser desesperadamente pequeño. 

Ahora hay una multitude en los salones de S. B. Se cuenta – o quizás la vemos – la historia de un chico que se pone a levitar, provocando la admiración de los asistentes. Pero acaba cayéndose al suelo (por más que planease con gracia) y se precipita bajo un tren.

Antes mantuve una larga conversación con su padre, y quizás también con su tío. Los dos estaban abominablemente borrachos.” 

Mas há quem diga que não deve haver nem há nada mais chato do que ter de ouvir outra pessoa contando sobre o sonho que teve. As identidades se misturam, as pessoas aparecem duas em uma só, assim como os lugares. Sentimos saudades de lugares em que nunca estivemos, projetados em futuros mais que longínquos, passados coabitados. Neles lemos livros com letras embaralhadas, mas que, quando lidas pela voz do sonho, nos chegam acompanhadas de seu próprio sentido – e ao despertarmos o sentido nem sempre continua lá. Chato ou não, muita gente perdeu tempo pensando no assunto. Sobre isso o filósofo Arthur Schopenhauer produz uma bela metáfora em sua obra O Mundo como Vontade e como Representação  [Editora Unesp; tradução de Jair Barboza]:

“A vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro. A leitura encadeada se chama vida real. Quando, porém, finda  a hora da leitura habitual – o dia – e chega o tempo de descanso e recuperação, ainda folheamos com frequência descontraídos, sem ordem e encadeamento, ora uma folha aqui, ora outra ali. Muitas vezes se trata de uma folha já lida, outras de uma desconhecida, mas sempre folhas do mesmo livro” [página 61]

A ciência interpretativa dos sonhos não é o que interessa a Perec. Seu exercício transforma o sonho numa experiência de leitura a ser feito durante a vigília – porque obviamente não aprendemos ainda a ler dormindo. Necessário dizer: no livro as páginas não têm número. Não interessa a ordem. Pertinente a isso é interessante nos perguntarmos se porventura a sensação mais legítima e mais absoluta do sonho, do sonhar, não seja tão particular que qualquer tentativa de tradução do sonho para outra linguagem ou domínio que não o seu tenha de lutar pra não cair em solipsismo? La cámara oscura está bem longe de cair nessa vala. Logo de início, somos apresentados às suas intenções:

“De esos sueños demasiado soñados, demasiado releídos, demasiado escritos, ¿qué podría yo esperar a partir de ahora sino a convertirlos en textos, en manojo de textos depositados como ofrenda en las puertas de este <<camino real>> que me queda por recorrer – con los ojos abiertos?” 

Quando é conosco e acontece de certos sonhos mais coesos soarem mais inquietantes dos que os absurdos inefáveis, uma vez que podem, pelo menos, serem narrados – às vezes soam por demais cinematográficos, – não hesitamos em contá-los aos que nos cercam, outros que também podem prestar uma ajuda à interpretação com o auxílio de seus cérebros. O jogo-do-bicho, per esempio, sobrevive de relações ao mesmo tempo um tanto misteriosas e arbitrárias entre o conteúdo sonhado e os resultados do jogo – é costume entre os apostadores buscarem informações em sonhos que sequer são seus como palpite para apostas. No desespero tudo vale, e quaisquer relações soam verossímeis. Se choveu muito, jacaré. O cosmo é um tecido e o tempo uma ilusão. Os sonhos são vias de acesso que atravessam o tecido. A linguagem, a arte, os símbolos, são ferramentas para o mapa do universo. 

Mas nem sempre foi assim. Tal visão é sobretudo mística, herdeira de Pitágoras e Tertuliano, e corre por fora da maior parte do pensamento intelectual Antigo e Medieval, pois que, em solo europeu, restará também à Igreja Católica a administração dos sonhos enquanto fenômeno cultural. Para Pitágoras o sonho é o momento em que a alma se liberta do corpo – ideia que encontra eco em certas especulações espíritas. Aristóteles, alguém muito mais lido pelos medievais do que Pitágoras, é um dos que, pela razão, desvaloriza o sonho. Enquanto via de acesso ao futuro, deverá ser entendido como falso – e tudo o que vier do sonho, deve ser considerado fantasia ou delírio. Para os medievais: uma deformação do verdadeiro conhecimento de Deus, posto que somente Ele sabe do futuro. São também os medievais os responsáveis por estabelecer um tipo de “hierarquia” dos sonhadores, dando enorme importância aos sonhos premonitórios tidos por santos ou figuras políticas. Entretanto também durante o sono, na escuridão do quarto, seremos atormentados com tentações demoníacas que o pudor cristão rechaçará vigorosamente enquanto uma modalidade do pecado, a polução noturna, o sonho pecaminoso e erótico, os monges acordando suados e perturbados. E na decadência do sistema medieval, às vésperas da Renascença, os sonhos se tornarão mais exuberantes, exóticos, poéticos.

Ao passo que inúmeros adivinhos especialistas na oniromancia ofereciam seu serviço nas praças gregas e latinas, dentro os antigos tal arte foi considerada secundária se comparada a outras formas de adivinhação mais nobres, como as que se usavam das entranhas das vítimas e dos animais, ou as que acompanhavam o voo dos pássaros, praticadas respectivamente por arúspices e áugures. De qualquer forma, eventos singulares, observados na natureza, que trazem escondidos em si uma ordem geral apresentável apenas àqueles que sabem lê-la.

Anotar os sonhos, contudo, é prática corriqueira e comum em um mundo alfabetizado como o de hoje. É recomendado por aqueles que desenvolveram técnicas para sonhos lúcidos. Deve-se fazer uso de um caderno exclusivo, e de uma caneta que só será usada para isso. Dever-se-à rememorar o sonho logo assim que se acorda, porque ainda estão frescos na mente. Ao longo de todo o dia também será necessário que se retome o sonho, e que o usemos como critério para diferenciarmos o estado da vigília do estado onírico. Se se adquire o hábito de, enquanto acordados, nos inquirirmos se o que estamos vendo é ou não é real, e de com isso elencarmos aquilo que poderia indicar tanto que isso seja real ou fantasia, inevitavelmente nos pegaremos fazendo o mesmo quando estivermos o sonho. Quando isso acontecer, o treinamento entra na fase de aprender a controlar o sonho a partir da consciência de que se sonha – porque, ainda assim, ainda que dentro do sonho nos tornemos conscientes, as coisas continuarão fugidias.

A essa técnica deu-se o nome de reality check, e é procedimental à ação a escolha de algum objeto ou artefato que desencadeie o fenômeno durante o sonho. Há quem escolha as palmas das mãos, o relógio, o interruptor. Olha-se pra mão e conta-se os dedos; olha-se para o relógio afim de contar os números. Primeiro nos habituamos a fazer isso durante a vigília, acordados. O hábito naturalmente irá se transferir para o sonho.

Também ajuda muito se acordarmos e logo em seguida cairmos no sono de novo. É mais provável adquirirmos lucidez neste segundo estágio.

Mas há uma variedade bem grande de técnicas e módulos voltados para a obtenção de sonhos lúcidos: MILD, Tholey, são alguns dos quais me lembro, muito embora o mais recomendado seja a mistura de todos os métodos, uma vez que não há incompatibilidade. Xamãs e druidas de tempos imemoráveis devem ter alcançado estágios interessantes de sonambulismo, mas suas técnicas não estão tão facilmente disponíveis na Internet.

Fazendo uso dessas técnicas comuns disponibilizadas na internet, em mais de um caso fui capaz de obter o total controle dos meus sonhos a partir da lucidez:

Na primeira vez sonhei que estava na rua de minha casa presenciando uma batalha aérea que acontecia no céu logo acima de mim, os aviões dando rasantes, tiros, e arremessando bombas. Senti um pânico que me pareceu muito semelhante a algo que eu já havia sentido. Daí que me lembrei, dentro do próprio sonho, que já havia sonhado uma vez com algo que era também uma batalha aérea. A hipótese me fez considerar que aquilo pudesse ser um sonho, e daí me pus a andar pela rua sem medo, experimentando as sensações de tato, cheiro e sabor, pra que logo em seguida acordasse. Esse sonho me serviu de incentivo pra começar a exercitar as ditas técnicas.

Poucos meses de treinamento depois, sonhei que estava em uma casa e que uma festa acontecia. A casa era curiosíssima, de decoração excêntrica, cheia de detalhes, estátuas, quadros, e ornamentos infinitamente rebuscados. A luz era mágica, e todas as pessoas ali dentro pareciam estar tendo conversas interessantes, profundas. Uma penumbra de fumaça e música oriental parecia deixar todo mundo inebriado. Mas em seguida a isso, pareci acordar dentro do próprio sonho, e neste outro sonho me encontrava na mesma casa, só que com a festa tendo chegado ao fim, toda a decoração tinha sido retirada, e as luzes eram muito mais sóbrias. Vi que estava sonhando, e um pensamento esquisito me ocorreu: “Acho que serei abduzido”. Nesse instante, uma luz vinda do céu me sugou pra cima e acordei.

A minha abdução, em alguns círculos, poderia servir como evidência real de um contato com alienígenas. A maior parte dos relatos de abdução são provenientes de experiências ocorridas nesses estados intermediários, durante a dita paralisia do sono. Em um documentário intitulado The Phase, Michael Raduga (que eu não sei se é um neurocientista ou só um estudioso do assunto) defende que todas essas experiências transcendentais envolvendo anjos, demônios, e extraterrestres, na verdade, teriam acontecido durante essa tal fase. Essa zona intermediária feita de segundos antes do despertar seria capaz de abrigar esse Outro elusivo ao qual tantas culturas parecem aludir sincreticamente. A paralisia do sono, por sua vez, fenômeno frequente e assustador, decorrente d’A Fase, é facilmente explicado pelo stress cotidiano, por alguma alteração no lugar em que estamos dormindo e coisas do tipo. O cérebro é conhecido por pregar peças em si mesmo e se aproveita dessa situação de prostração e medo pra inserir aí criaturas sinistras e sombrias, como naquele famoso quadro O Pesadelo, de Johann Heinrich Füssli. O barato é que a criatura sinistra varia conforme o repertório simbólico disponível no momento histórico em que a coisa acontece: na Idade Média somos visitados por anjos ou demônios; em épocas contemporâneas, são E.T’s. Em todos os casos, contudo, somos abduzidos. O fato de eu estar com as informações desse documentário bem presentes em minha memória na época em que “fui abduzido” de certa forma acabou fazendo com que os alienígenas aparecem pra mim ali também – continuei tranquilo, sabendo que era tudo um truque da mente.

Em conversas com um amigo já tive de ouvir que trata-se DE FATO da existência de alguma entidade inteligente, e que essa consciência utiliza como vestimenta o material simbólico produzido por nós (anjos, demônios, animais fantásticos, alienígenas, formas geométricas). A teoria encontra eco na ampla literatura new age, e é bastante sedutora para os cérebros inquietos, mas há um problema. É uma teoria impossível de ser invalidada. Qualquer resistência ou teste afim de examinar as evidências pode ser contornado, como no caso clássico do Dragão na garagem, de Carl Sagan. De fato, trata-se de uma consciência deveras elusiva, e sua participação na história humana não deve ser desprezada em criatividade o tanto quanto deve ser desprezada em periculosidade. Em outras palavras: se o único momento em que tal Consciência encontra chance para nos fazer algum mal são esses parcos segundos antes de acordarmos, e se não há nenhum caso de alguém que tenha morrido de paralisia do sono, não há muitos motivos pra que nos preocupemos.

Muito mais assustador do que qualquer abdução ou paralisia do sono, contudo são as sincronicidades. Carl G. Jung dedicou um livro inteiro para a análise do assunto, e trata-se de um dos conceitos-chave de sua obra que mais ofereceu desafios e dificuldades pra ser explicado, uma vez que é algo irreprodutível, bem complicado de se observar. É uma consequência lógica dos avanços produzidos pela investigação dos arquétipos e do inconsciente coletivo, uma ocorrência contra-intuitiva o suficiente pra tensionar paradigmas científicos, uma vez que prescinde de casualidade ou de relações formais empíricas, aparecendo em lugares diferentes tanto no tempo como no espaço, sem correspondências muito claras. São áreas que não tiveram muita continuidade nos estudos psicológicos, e os principais expoentes continuam sendo seus fundadores.

Tive duas experiências que parecem de certa forma envolver sincronicidades e arquétipos:

Certa vez sonhei com um platô no qual haviam montanhas de ossos, crânios, troncos. O céu estava vermelho e escuro, como o céu apocalíptico dos quadros de El Greco. De alguma forma, dentro do sonho obtive a informação de que aquilo que eu estava a ver, aquilo, a cena toda, era Deus. Lembro-me de sentir medo, um medo terrível, na hora. Considerei o sonho absurdamente interessante, porque nunca sonho com Deus (e não estaria tão errado em dizer que tenho muitas dúvidas a respeito de Sua existência). Interessante o bastante pra que nunca me esquecesse dele.

Anos se passaram e resolvi me aventurar na leitura da Bíblia. Em uma leitura simultânea, um livro de Wu Ming, chamado New Thing que não tinha nada que ver com o tema, li a respeito da visão de Ezequiel, um dos profetas da Bíblia que teria profetizado sobre uma “planície de ossos”. Uma visão escatológica, metáfora da decadência de Israel. E existe inclusive uma música americana sobre o assunto:

Ezekiel cried, “Dem dry bones!”
Ezekiel cried, “Dem dry bones!”
Ezekiel cried, “Dem dry bones!”
“Oh, hear the word of the Lord.”

The foot bone connected to the leg bone,
The leg bone connected to the knee bone,
The knee bone connected to the thigh bone,
The thigh bone connected to the back bone,
The back bone connected to the neck bone,
The neck bone connected to the head bone,
Oh, hear the word of the Lord!

Dem bones, dem bones gonna walk aroun’,
Dem bones, dem bones, gonna walk aroun’
Dem bones, dem bones, gonna walk aroun’
Oh, hear the word of the Lord.

The head bone connected to the neck bone,
The neck bone connected to the back bone,
The back bone connected to the thigh bone,
The thigh bone connected to the knee bone,
The knee bone connected to the leg bone,
The leg bone connected to the foot bone,
Oh, hear the word of the Lord!

Algo bem menos assustador do que meu sonho. No entanto, à época, vivia recebendo de um amigo bastante religioso as admoestações de que se tratava de um sonho sério, e que eu deveria procurar uma mudança na minha postura: parar de relativizar as coisas, e me converter de vez à fé católica. O inconsciente coletivo junguiano oferece uma ótima explicação, com certeza mais econômica do que uma razão religiosa ou divina – é a mesma justificativa que Jorge Luis Borges encontra para o caso do poema Kubla Khan, sonhado por Coleridge muitos anos antes de ser encontrado o famoso palácio do imperador mongol, mencionado pelo seu poema. Ainda assim, esvaziado em seu valor metafísico, o sonho que tive pode continuar sendo verdadeiramente profético uma vez que traz em si embutidos alguns símbolos primitivos (e por isso mesmo atemporais) que já contam com raízes bem profundas em nossa cultura psíquica. O apocalipse se arrasta cotidianamente em nossa civilização. Pulei minha leitura da Bíblia para as profecias de Ezequiel e me deparei com um texto extremamente violento e misterioso, cheio de morte e guerra. De qualquer forma, um arquétipo de decadência, de sinal dos tempos, de profecia escatológica bastante referenciado em outras obras de arte. Até o céu, como eu disse, ecoava os traços de um outro artista que também pintou visões arrebatadoras: El Greco.

O outro sonho, bem mais singelo, mas igualmente significativo para mim, envolve uma coincidência emocional que, à bem da verdade nem deve ser lá uma coincidência. Sonhei que dava um abraço em uma amiga no exato dia em que ela sonhava o mesmo, antes de partir em uma viagem da qual sabíamos que demoraria muito tempo para regressar. Há outra explicação para esse caso que não reincida sobre os nossos laços afetivos?

Ainda há uma montanha de obras cinematográficas e plásticas sobre o tema. Na cultura pop não poderia ser diferente. É, portanto, mais que comprovada a participação dos sonhos na confecção de histórias, sejam elas religiosas ou puramente artísticas. Dos antigos ao presente. Também é do sonho que recebemos inspiração, e é para o sonho que levamos angústias e vontades. As categorias mapeadas por Jung e Freud, para quem os sonhos são redutos de impulsos reprimidos, uns mais selvagens que os outros, misturados à memória de eventos que testemunhamos e estímulos que recebemos ao longo da vida (visão com a qual estão em débito alguns surrealistas¹), podem parecer inconciliáveis. Talvez que a ciência do sonho lúcido seja uma boa forma de levar adiante o caminho aberto pela literatura científica produzida pelos dois grandes nomes da psicologia². Há inúmeros esboços de um mapa da nossa geografia onírica, e a aventura psiconáutica não pode abrir mão de nenhuma amostra desse rico e inesgotável manancial, seja ela ciência ou religião. Não há nenhuma forma de arte pela qual os sonhos tenham passado desapercebidos, e tem até quem diga que a vontade de representar os animais e as coisas do mundo possa ter aparecido primeiro em um sonho para depois impor-se à realidade – os homens e mulheres primitivos sonhando com planícies povoadas por manadas de animais.

Somente quando a humanidade entediar-se com seus próprios sonhos é que o seu suicídio coletivo se tornará inadiável.

  1. O conceito de Sombra, por exemplo, empregado por Carl G. Jung quando refere-se a certos instintos primitivos camuflados em nossos sonhos obviamente pode sugerir áreas obscuras e ocultas de nosso Ser, ou Ego. Grande parte da relação do homem com a linguagem, no último século, foi mediada por uma consciência bem grave de seus limites. E o tempo todo recebemos estímulos provenientes de domínios que vão muito além do da linguagem falada, codificada em símbolos fonéticos ou arquétipos culturais. É abundante a quantidade de elementos que em nosso sonho aparece como que camuflada, vestindo um enigma que sugere seu próprio desvendamento. A existência de um “lado negro”, contudo, condiz com a versão muito difundida entre crenças e teorias que vão do cristianismo ao marxismo, essa ideia de que o homem está separado, alienado de alguma coisa, fraturado, ou que sua visão sobre a Realidade (e sobre si) é sempre parcial (um consenso irrefutável de nossa época), a promessa de uma reconciliação (reunião, religare, aquisição de consciência resultante da desalienação do trabalho, que seja) sempre residindo mais à frente, de forma até mesmo um tanto apocalíptica: o fim do Estado e o milenarismo do reino de Deus na Terra. O homem dividido, como no livro de Ítalo Calvino, O Visconde Partido ao Meio.
  2. Já tive a possibilidade de uma vez testemunhar o exato momento em que peguei no sono, quando o fluxo de ideias tornou-se mais confuso e avolumado, associações bizarras e surpreendentes eram feitas, narrativas espontâneas eram produzidas e desfeitas em segundos.

Imagem: P. Wyss

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