anatomia de uma obra

eric fischl

O romance do escritor luso-argelino Aconcágua Mem, intitulado Looping Roliço (Editora Ventre & Vida), de 2011,  tornou-se, há pouco tempo, objeto de culto por uma parte da crítica literária especializada em coisa alguma, três anos após uma estreia que, ninguém discorda, passou-se bem desapercebida. A obra chamou a atenção daqueles que a leram, um grosso volume de 884 páginas, especialmente depois que Aconcágua supostamente deu-se por desaparecido seis semanas após o seu lançamento, tendo sido visto pela última vez em um café, em Medelín, a cidade colombiana em que residia.

O romance, considerado “excêntrico”, “um gosto pela pirotecnia sem efeito, o estilo pelo estilo”, “um manual de como não tentar ser sarcástico ou irônico”, “vulgar assim como a geração de leitores que o adora”, “uma fracassada locupletação que leva a cabo inúmeros lugares comuns da cultura brasileira”, posto que o autor a teria escrito após um longo período de vivência em terras tupiniquins, mais precisamente, dentro e ao redor do altiplano paulista, não adquiriu uma nota muito positiva entre os críticos culturais. A atenção que o tornou disponível ao grande público deve-se, contudo, a uma foto vinculada há mais ou menos um ano em um fórum de Internet, postada por um usuário anônimo, onde Aconcágua aparecia amarrado ao mastro de uma embarcação não-identificada, e de formato muito pouco usual, que, pelo pouco que podemos compreender pelo que há na foto, se assemelha a um tipo de submarino circular nunca dantes visto. O que bastou para que certo burburinho tomasse conta do caso, posto que tampouco sabemos quando e onde foi tirada a bendita foto.

A história de Looping Roliço, ou trama, se é que assim podemos nos referir ao fio-condutor que une o calhamaço, narra uma tarde ordinária, ou não-tão-ordinária-assim, de um pitoresco churrasco feito e desfrutado por membros de uma família participante do poder local de uma cidade que nunca é mencionada. A data tampouco sabemos qual é. Alternando entre momentos de minuciosa descrição, como por exemplo a do ritual de preparação de um vinagrete (a cena possui 75 páginas), e virtuosa poesia, cuja expressão máxima seria um poema em verso-livre chamado Górgia Cabra Uma, lido involuntariamente por qualquer um que passasse pelos capítulos 4 e 6, Aconcágua Mem teria na verdade logrado criar uma extensa e repetitiva demonstração de seu ilimitado desprezo pelas convenções dramáticas da novela moderna.

Se fruto de um talento pouco compreendido, ou um esforço disciplinado que produziu um resultado totalmente indisciplinado, o sucesso literário de Aconcágua dividiu opiniões. O conteúdo da obra, ao qual o crítico literário Jorge Eracy Ramos imputou os adjetivos “nefasto” e “criminoso”, chama a atenção pelo imenso desfile de bizarrices que ocorre em ritmo desenfreado. Há quem diga que, por baixo da camada de surreal banalidade, possa existir um mapa para o desaparecimento de Aconcágua, que, de alguma forma, pôde prevê-lo sem poder se prevenir. A escolha por um enorme churrasco funcionado como palco para sua história de alguma forma justifica-se pelas suas opções dietéticas, que era vegetariana, como sabem todos que o conheceram, e sua insistente militância contra os rituais churrasqueiros compartilhados por alguns povos de culturas mais carnívoras. Mas supor que o único valor da obra de Aconcágua pudesse estar cifrado ao longo do texto e que o sentido aí encontrado seja apenas um comentário às aventuras pessoais do próprio autor é algo que para muito críticos já lhe anularia a relevância literária, uma vez que tal valor fincaria seu alicerce fora do âmbito estético. Eracy Ramos é um dos que considera isso um exagero, preferindo abster-se e abrir mão de emitir um parecer um juízo a respeito do “valor” da obra de Aconcágua, uma vez que, segundo ele, “o papel do crítico vai muito além de dizer se uma coisa é simplesmente boa, ruim, relevante ou irrelevante”.

E há também, além dos críticos resmungões de sempre, quem diga que o autor tenha provado já, em seu romance de estréia, um valor inconteste para a literatura luso-afro-brasileira. Chamam atenção para a poética vertiginosa de uma simbologia que guarda paralelos com a literatura cabalista, como por exemplo o Zohar, com o qual Aconcágua Mem teve um contato a partir de uma tradução para o inglês. É um livro difícil, que demanda muito de seus leitores, alguns deles tendo até mesmo, à guisa de comparação, sugerido que a obra fosse uma mistura entre as influências de George Gurdjieff, Charles Hoy Fort, Helena Blavatsky e Terence McKenna, mas com um estilo narrativo herdeiro de Joyce, de Chirico, Thomas Pynchon e Campos de Carvalho.

Ao longo do romance, somos expostos a:

– quatro assassinatos de alguma maneira envolvendo lhamas, um deles cometido por um menor de idade;

– apologias explícitas ao consumo de maconha e alucinógenos por parte de um dos personagens, o namorado da filha mais velha, que possui dreads e se comunica em dialetos neo-hippies;

– oito cirurgias de mudança de sexo, duas delas feitas em animais ruminantes;

– uma cena breve, porém memorável, em que a mãe de família cobra um escanteio com a cabeça de um poodle;

– quinze fotografias em preto e branco, e bem pouco nítidas, de algo que foi discernido como sendo a silhueta de manadas de bisões e búfalos;

– quatro cenas de linguagem altamente experimental nas quais uma vaca holandesa é ordenhada até a morte pelo patriarca da família em contextos, espaços, e idiomas diferentes;

– uma longa cena de perseguição envolvendo uma senhora de 80 anos montada em uma caixa de engradados e um monstro saído do patê de alho;

– 20 violações de leis da física que só um leitor mais atento poderá perceber;

– uma ode de duas páginas dedicado à Fórmula Truck;

– o depoimento verídico de João Ricardo Nunes, um brasileiro que alega que, em uma noite de 1987, teria sido violentado sexualmente e em grupo pelas peças brancas de um tabuleiro de xadrez que ganhara como herança de seu avô paterno;

– um detalhado manual de 28 páginas sobre como construir uma jacuzzi, em coreano;

– 211 menções a “marakulikula lia” (ninguém possui a menor pista do que seja isso, e o nome, ao longo da história, vincula-se tanto a objetos da indústria dos cosméticos, quanto ao cinema indiano, e entidades alienígenas provenientes da periferia da galáxia);

– repetitivas menções, da primeira à última página, a uma suposta corda pendurada e balançante em algum galpão no qual a família da história, a família Schiavonarelli, evita entrar;

– uma missa, escrita em latim, destinada a um certo São Davos, o santo da grelha e do carvão, morto em uma fogueira no ano de 1291 de nosso Senhor;

– um vasto receituário de medicina homeopática e a versão para o cliente de um catálogo de essências florais;

– um prólogo e um epílogo que o autor recomenda e reitera serem lidos antes ou durante algum churrasco;

– inúmeras metáforas e aliterações feitas com os ingredientes da refeição, e isso inclui 1,5kg de alcatra, a linguiça comari; a farofa com bacon; os já mencionados vinagrete e patê-de-alho; um molho de pimenta obstinadamente forte, que somente dois personagens são capazes de comer; vinte pães franceses capazes de render parágrafos de anagramas e jogos de palavras; 2kg de picanha; 1kg de contrafilé; 1kg de coxinhas e asinhas de aves marítimas não nomeadas; 1,25kg de carne de pinguim; dois engradados de cerveja Kaiser; e 4 litros de refrigerante de laranja;

– um repertório dos processos fisiológicos e digestivos expresso em todos os recursos possíveis das figuras de linguagem do idioma português;

– diálogos diretamente transcritos de gravações que o autor teria feito em campo, isto é, em churrascos que ele mesmo frequentou;

– uma cena de afogamento na piscina, seguida de ressurreição com um aparelho desfibrilador, protagonizada pela matriarca da família, Dona Maura Schiavonarelli, que logo em seguida morre novamente, devorada por engano pelo seu genro, Dr. Rodrigues;

– um mapa do cenário do churrasco feito com o uso de mosaicos semi-controlados e cartas planimétricas;

– um glossário para termos que não apareceram nenhuma vez ao longo do livro, tais como xantodontetrilebigêsso, gelassenheit e desiderio;

– uma cena inicial que sugere uma suruba em meio a pães-de-alho e linguiças recheadas e uma situação de penetração dupla;

– um belíssimo monólogo final recitado pelo personagem do tio encarregado da churrasqueira, interrompido bruscamente pelo mugido conjunto do estômago das personagens sobreviventes;

– pautas para uma uma trilha sonora composta pelo próprio autor, Aconcágua Mem, feita para ser executada por um quinteto de sopros;

– um personagem que deverá entrar para o rol dos antagonistas mais peculiares da literatura universal, Perquilhique, um indigente estereotipado definido tipologicamente como noia-de-roda, a saber, um daqueles mendigos que concentram em si toda a atenção nas rodas em que entram sem serem convidados;

– 44 menções indiretas a masturbação;

– 91 menções a alienígenas de diferentes raças, algumas inteligentes outras não, e procedências, algumas distantes tanto no tempo quanto no espaço;

– 166 menções a fetiches sexuais perversos, incluindo objetos inanimados, animais peçonhentos e mutilação;

– 78 menções a albatrozes ou pinguins, diretas e indiretas;

– inúmeras formas de assassinato e tortura surpreendentemente sofisticadas e pensadas para os membros do churrasco em questão, a maior parte deles tendo o patriarca da família como vítima;

– uma sequência cronológica de duas décadas de obituários fictícios noticiados pelo jornal inexistente da cidade não-mencionada em que se passa a história;

– elogios suspeitos à obra de Aby Warburg;

– críticas ainda mais suspeitas à política externa da Romênia.

– uma personagem principal (ou algo minimamente semelhante àquilo que convencionalmente chamamos de “protagonista” de uma novela) chamada Petúnia Tijuca Schiavonarelli, uma debutante de 18 anos que tem frustrado, no dia de seu aniversário, o seu sonho de tornar-se uma freira e entrar para o convento das carmelitas;

– dois personagens coadjuvantes, Joana e Josias, um casal de gêmeos siameses fiéis à Igreja Quadrangular, filhos da faxineira da família, Dona Edina, que introduzem Petúnia no universo da prostituição de luxo à base de ritalina;

– um pônei falante que exige ser chamado de Orestes;

– devaneios sexuais envolvendo o plantel de ao menos três clubes que já pertenceram à Primeira Divisão do futebol paraguaio, mas que hoje encontram-se amargando na segunda-divisão;

– um desenho minimalista representando uma serpente de fogo que o autor supostamente teria encontrado na rua Sarmiento, em Buenos Aires, Argentina;

– canções de ninar clássicas parodiadas com os ingredientes do churrasco, entre elas Boi da Cara PretaCapelinha de MelãoNana Neném, e Sambalelê tá doente, respectivamente Boi da Carne Vermelha (Boi boi boi / boi da carne vermelha / pega ess@ menin@ que tem medo da grelha), Churrasquinha de Coxão (mole), Manja o Acém, e O vegano não vê que é doente;

– menções a um colchão preenchido com barba rabínica que estaria hoje enterrado junto com os escombros do naufrágio de uma embarcação alemã (chamada Helga) no litoral norte do estado de São Paulo, em mar aberto, próximo a Illhabela;

– uma penosa lista de embaraçosas situações de constrangimento público oferecendo farta oportunidade para que empreguemos aí o termo vergonha alheia;

– uma cena de motim na fila de um drive-thru do McDonalds;

– receitas de versões gourmet dos lanches do McDonalds (destaque para o Quarteirão com Queijo feito com ossobuco e queijo cottage);

– instruções variadas para a desobstrução de fossas nasais (com ou sem ferramentas);

– uma guia de como organizar e construir coletivamente a sua própria comunidade alternativa, passando pela escolha do lugar seguindo critérios esotéricos, o encontro entre as partes interessadas, isto é hippies, artistas e doidões de BR, a coalizão harmoniosa de esforços e sintonia, e a arrecadação de capital para a empreitada através da confecção e venda de artesanato;

– uma cena de sexo lésbico acontecendo em uma banheira cheia de farofa com bacon;

– a hipótese de que o Capítulo 3, Ocre Vitela, tenha sido ditado por um espírito em uma brincadeira do copo da qual participaram tanto Aconcágua quanto sua mulher, Alejandra;

– economia especulativa aplicada às listas dos mais vendidos livros de auto-ajuda;

– cálculos probabilísticos envolvendo genéticas de espécies de aves marinhas, e fenômenos migratórios do reino animal vinculados a estranhas chuvas que acontecem fora da época prevista;

– um panegírico fúnebre a Adelir Antônio de Carli, o padre dos balões;

– uma exegese relativamente prolixa de três livros sobre ufologia escritos por Jacques Vallée.

Tendo em vista uma diversidade tão grande e díspare de elementos, a crítica tem se perguntado a origem do argumento de Aconcágua, e pelo aval de qual editor teria passado a publicação da obra, difícil de ser enquadrada em qualquer gênero de romance. Foi o suficiente para que surgissem biógrafos da noite para o dia, dispostos a refazer cada passo da trajetória intelectual de Aconcágua Mem. E as pistas encontradas constroem uma imagem bastante heterogênea e colorida de sua figura.

Ele teria nascido em 1977, na cidade de Leiria, Portugal. Filho de pai português e mãe argelina, teria se formado em Biologia, levando adiante uma especialização na área da Biologia Marinha, já em terras brasileiras. De publicações esparsas em revistas literárias europeias e brasileiras, e com uma tímida participação ou outra em certos concursos, sua carreira enquanto escritor resume-se basicamente na produção deste grande romance, a única obra de valor e interesse, um monumento no meio de um deserto, o que serve para agregar ainda mais curiosidade à obra.

Sua temporada no interior do Brasil também é difícil de justificar-se, e o período constitui-se como uma parte obscura de sua biografia. Boatos indicam um momento de instabilidade pessoal grave e sérias desilusões profissionais com a pesquisa científica no Brasil, após o cancelamento da verba de seu projeto voltado para o estudo de aves marítimas, o que teria nele provocado uma vontade de pôr-se em movimento, levando assim uma vida relativamente nômade, feita de perambulações, caronas em estradas, andanças e vivências em comunidades alternativas na Bahia e em Goiás.

O romance foi gestado depois desta fase, ao longo de 5 anos, após Aconcágua conhecer e apaixonar-se por uma colombiana, a dançarina de nome Alejandra, a razão pela qual mudara-se para Medelín. A mulher, à época, encontrava-se em uma turnê no Brasil, e o destino foi inadvertidamente sábio de apresentá-los um ao outro em um ritual de ayahuasca, do qual Aconcágua saiu renovado e reformado. Ajudado pela companhia de sua mulher, que tem se negado a dar entrevistas desde o sumiço do marido, Aconcágua teria produzido um volume que destoava de todo o conjunto de sua obra até então, basicamente contos de temática científica, críticas literárias e musicais, e alguns poemas pouco inspirados e demasiadamente arcaicos sempre tendo como reduto simbólico o mundo da natureza e os animais.

A foto que veio à tona no fórum de internet, na qual Aconcágua Mem é visto de maneira muito semelhante ao Ulisses da Odisséia no episódio das sereias, amarrado ao mastro mas sem a cera nos ouvidos, tem motivado uma grotesca e oportunista, porém inevitável, especulação. Os fãs e teóricos da conspiração dividem-se entre aqueles que consideram a hipótese de uma abdução por OSNIs (Objetos Submarinos não Identificados), o que pode remeter ao passado turbulento que se sucedeu logo após a sua desistência profissional, indicando assim algo que Aconcágua pudesse saber a respeito de alienígenas, hipótese com a qual corrobora a farta citação a seres de outro mundo presente em seu romance, Looping Roliço, ou então, a outra hipótese, a de um hoax muito bem pensado e construído para impulsionar a venda de uma obra que se apoia em suas próprias e exageradas bizarrices e excentricidades. Há até quem tenha sugerido um sequestro por parte de uma organização secreta do ramo de tráfico internacional de gado, composta em sua maioria por membros de uma seita talmúdica que teria sido subliminarmente denunciada no capítulo 5 do romance, que leva o nome de Bem Passado ou Mal Passado, um dos mais herméticos e incompreensíveis de todos.

O sequestro, as fotos, e os boatos, contudo, verdadeiros ou não, só têm enriquecido a singularidade de seu trabalho. O porta-voz da editora pela qual Aconcágua publicou seu livro, Ventre & Vida, com sede em Lisboa, Portugal e uma filial no Rio de Janeiro, disse em entrevista dada ao telefone que lamentam profundamente o sumiço do escritor e que o silêncio de pistas, e a inércia da investigação toda, são absolutamente “um disparate”, e que toda a equipe estava muito triste em não poder esperar por um segundo volume, no qual a escrita de Aconcágua estaria ainda mais madura. Responsável pela publicação de inúmeras apostas arriscadas no mercado editorial brasileiro, Alice Villares desconversou quando foi perguntada a respeito de para onde estaria indo o dinheiro dos exemplares vendidos de Looping Roliço, e disse que isso não vinha ao caso.

Leonardo Stockler


Imagem: Eric Fischl

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s