apocalipse e milenarismo

A cristandade (…) passou por uma série de revoluções e em cada uma delas o cristianismo morreu. Morreu muitas vezes e tornou a ressuscitar, pois tinha um Deus que sabia como sair da tumba.

G. K. Chesterton – O Homem Eterno

Quanta novidade há na constatação de que os tempos são extremos? Qualquer teólogo diria: “nenhuma”, e acrescentaria que os tempos já têm andado extremos há muito tempo, sabendo soar nem um pouco alvissareiro nesta também óbvia anunciação.

A verborragia do presente, autorizada pela tecnologia e pelo conhecimento técnico, quer vaticinar um apocalipse por dia. Se retomarmos o sentido etimológico original, do grego, em que apokálypsis é precisamente uma revelação, a visão, parcial ou total, de algum tipo de conhecimento sobre os destinos dos povos e dos reis, sobre o porvir – um porvir cheio de tormentos, mas cujo final seria a redenção, a vitória do Bem sobre o Mal -, então as diferenças com os vaticínios diários que brotam dos nossos mananciais de informação poderia ser encontrada apenas no grau de mistério, os de hoje muito mais vulgares, óbvios e satisfatórios que os de outrora. E, guardadas as devidas proporções, é assim que encontramos o Apocalipse de São João, no Livro das Revelações, o único texto profético do Novo Testamento, misterioso, praticamente insondável.

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A guerra nas sociedades selvagens

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“Foi o descobrimento da América que, como se sabe, forneceu ao Ocidente a ocasião de seu primeiro encontro com aqueles que, desde então, seriam chamados de selvagens. Pela primeira vez os europeus viram-se confrontados com um tipo de sociedade radicalmente diferente de tudo o que até então conheciam, precisaram pensar uma realidade social que não podia ter lugar em sua representação tradicional do ser social: em outras palavras, o mundo dos selvagens era literalmente impensável para o pensamento europeu. Aqui não é o lugar de analisar em detalhe as razões dessa verdadeira impossibilidade epistemológica: elas se relacionam à certeza, coextensiva a toda a história da civilização ocidental, sobre o que é e o que deve ser a sociedade humana, certeza expressa desde a aurora grega do pensamento europeu do político, da polis, na obra fragmentária de Heráclito. A saber, que a representação da sociedade como tal deve encarnar-se na figura do Um exterior à sociedade, na disposição hierárquica do espaço político, na função de comando do chefe, do rei ou do déspota: só há sociedade sob o signo de sua divisão em Senhores e Súditos. Resulta dessa visão do social que um grupo humano que não apresente o caráter da divisão não pode ser considerado uma sociedade. Ora, quem é que os descobridores do Novo Mundo viram surgir nas praias atlânticas? “Gente sem fé, sem lei, sem rei”, segundo os cronistas do século XVI. A causa era assim entendida: esses homens no estado de natureza não haviam ainda chegado ao estado de sociedade. Quase unanimidade, perturbada apenas pelas vozes discordantes de Montaigne e La Boétie, nesse julgamento sobre os índios do Brasil.

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Notas sobre o Deserto Patagônico

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– Kant diz que se o mundo é redondo e, portanto, finito, então as gentes são obrigadas a suportarem umas as outras, sem a opção de poderem debandar em direção ao infinito, caso o mundo fosse uma planura sem fim.

– Kepler dizia que os corpos celestes eram todos do mesmo tamanho. Talvez estivessem distribuídos em círculos. Sem um telescópio para observá-los com mais nitidez, ninguém, em sua época, pôde oferecer uma contestação mais fundamentada. A diferença de brilho, de uma estrela para outra, provinha da distância que nos separava delas – é o que ele pensava.

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O Deus Ready-Made

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“Perguntei a ele se acreditava em Deus.

Qual Deus? Acredito em Deus apenas enquanto problema filosófico. Nada disso de uma força ou uma entidade maior regendo a nossa vida. Nada de destino, ou de vontades divinas. As gentes depositam muita confiança nos grandes acontecimentos, as fatídicas reviravoltas. Dá a impressão de que estão criando lugares nos quais Deus pode se esconder. Há muito mistério por aí. Deus é um bem grande. Talvez que do problema filosófico possamos derivar um ente metafísico, mas o Seu estatuto ontológico jamais será por nós conhecido. E sabe por quê? Porque Ele pode ser tanto sujeito como objeto. Aquilo que conhece e Aquilo que pode ser conhecido. Isso inclui os banheiros do Clóvis (fecha a porta, Brás!), o pinto que mija na privada, a urina que sai do canal peniano &  até mesmo a água da privada que o recebe. É a Sua insignificância que me atrai. Imagine uma transcendência tão poderosa que seu poder seja confundindo com a banalidade, com tudo que é mais corriqueiro, inclusive com a feiura. E não falo dos feios, da feiura da gente pobre e com fome, porque até mesmo os santos padres, que almoçam e jantam direitinho, são todos bem caquéticos. Nada de bondade, nada de maldade. Um Deus ambíguo, que depende de combinações ainda mais transparentes quando quer se apresentar. Estou falando de certas ruas inconscientes onde os cidadãos deixam os animais mortos, ratazanas de aqueduto, vistas panorâmicas sobre valas mortuárias, sacos de lixo, eletrodomésticos aposentados, botijões de gás. Um Deus que não pede por altares, e que seria capaz de reprovar qualquer conduta. Digo até que, de um ponto de vista mais formal, a existência deste Deus, enquanto conceito, pode ser questionada. Por que não confundimos Deus com o Mundo? Até hoje não encontrei nenhum problema filosófico maior que Ele. Até mesmo o Homem, no campo do conceito, há de perder esta batalha. E mesmo assim, Seu valor pragmático continua absolutamente nulo.

Respondi-lhe que seu Deus já havia sido patenteado por um holandês que outrora fora excomungado. Hoje é muito mais difícil ser excomungado. A Santa Sé não se ocupa dos Deuses insignificantes dos balcões. As elegias já vêm acompanhadas de blasfêmias. Quando quis saber o nome do holandês, aleguei que eu o havia esquecido, ou que, na verdade, ele também não me revelara. Coisas de albergues guardados em mochilas de litros. A teoria do holandês, todavia, era um pouco mais simpática que a sua.

É uma pena que o tal holandês tenha patenteado algo tão vulgar. Este Deus já foi contemplado e sugerido por muita gente, até por cantores de rádio. Eu lhe disse: insignificante! Qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer época, é capaz de acessá-lo.

Insignificante, banal, tens razão. E no entanto, não deixa de ser uma perspectiva muito poética.”

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“A vida do indivíduo, quando vista no seu todo e em seu geral, quando apenas seus traços mais significativos são enfatizados, é realmente uma tragédia; porém, percorrida em detalhes, possui o caráter de comédia, pois as labutas e vicissitudes do dia, os incômodos incessantes dos momentos, os desejos e temores da semana, os acidentes de cada hora, sempre produzidos por diatribes do acaso brincalhão, são puras cenas de comédia. Mas os desejos nunca satisfeitos, os esforços malogrados, as esperanças pisoteadas cruelmente pelo destino, os erros desafortunados de toda a vida junto com o sofrimento crescente e a morte ao fim, sempre nos dão uma tragédia”

Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação [Editora Unesp; tradução de Jair Barboza]