palavras de um xamã yanomami a respeito de Stonehenge

“As viagens que fiz para defender nossa floresta contra os garimpeiros acabaram me levando para muito além do Brasil. Assim, certo dia, brancos que tinham escutado meu nome me chamaram de uma terra longínqua, da qual eu não sabia nada, a Inglaterra. Eu aceitei o convite, porque tinha curiosidade de conhecer aquela gente distante que parecia ter amizade por nós. Era a primeira vez que eu deixava nossa casa de Watoriki para voar num avião por tanto tempo. Era tão longe que eu acabei chegando até a terra dos antigos brancos, que eles chamam de Europa. Então, pude ver com meus próprios olhos os vestígios das casas dos primeiros forasteiros de pele clara, os napë kraiwa pë, que Omama criou há muito tempo com o sangue da antiga gente de Hayowari.

Durante essa viagem, os amigos ingleses que cuidaram de mim me levaram para conhecer um lugar onde os antepassados dos brancos viveram e trabalharam há muito tempo. Vi um círculo de grandes blocos de pedra erguidos no chão. Pensei logo que tinham sido plantados ali por Omama em sua fuga em direção ao sol nascente e que o círculo que formavam era o que restava de sua antiga casa. São rochas altas e muito pesadas, como as grandes estacas de uma moradia. Parecem postes de pedra. Omama decidiu construir sua morada desse modo porque a pedra não apodrece e, portanto, nunca morre. Mas não fez esse trabalho sozinho. Todos os antigos brancos se juntaram a ele, tanto velhos como jovens. Devem ter sofrido muito para levantar e içar aqueles blocos enormes! Como eram muito numerosos, Omama com certeza os ensinou a construir casas de pedra, para não destruir todas as árvores de sua floresta. Foi o que pensei. Aí, depois de ter visto tudo isso, à noite, durante o meu sono, os espíritos levaram minha imagem e me falaram a respeito dessas linhas de rochas. Apresentaram-me a passagam do ser sol Mothokari a jusante do céu e o caminho pelo qual os xapiri dessas terras longínquas vêm dançar até nós. Mostraram-me também o lugar do qual o ser vendaval Yariporari empurrava as fumaças de epidemia para longe dos antigos brancos e aquele onde aprenderam a morrer e enterrar os ossos dos seus mortos numa fossa tampada por uma imensa rocha.

Ter visto o rastro desses ancestrais, mortos há tanto tempo, me deu dó. Entristeceu-me tanto quanto ver os das antigas roças de nossos avós na floresta. Os que ergueram aquelas grandes pedras foram os primeiros forasteiros criados por Omama com a espuma do sangue de nossos antepassados carregados pelas águas do mundo subterrâneo. A terra dos primeiros brancos pode parecer muito distante da nossa, mas não devemos ter dúvida: trata-se da mesma e única terra. Só que se separou no tempo em que nossos ancestrais de Hayowari se tornaram outros. Foi arrancada pela força das águas que jorraram do chão, e depois foi carregada para longe, até se fixar onde está hoje. Então, foi bem longe de nós que nossos antepassados, depois de virarem brancos, fixaram essas grandes pedras no chão. Elas marcam os limites onde sua floresta à deriva parou, nos confins da terra, sustada pelos pés do céu. De modo que essas pedras alinhadas marcam os contornos da antiga terra dos primeiros brancos. Quis Omama que fossem assim dispostas para que nem eles nem seus filhos as esquecessem. Essa terra, que chamei de eropa urihi a, é deles desde que ali foram criados. Ninguém além deles jamais viveu lá.

Agora faz muito tempo que Omama se foi. No entanto, essas rochas ficaram de pé até hoje. Foi mesmo por isso que ele, no passado, decidiu utilizar blocos tão imponentes. Quis que permanecessem no lugar após sua morte para os brancos poderem continuar a olhá-los e dizer a si mesmos: ‘Esses são os rastros de Omama, que criou nossos antepassados!’. Ele pensou que, sem isso, eles ficariam confusos, perguntando-se em vão como vieram à existência. Todavia, todos os jovens que, hoje, vão ver essas pedras sem temer a ventania que as cerca parecem perdidos. Seus pais perderam as palavras sobre elas e não podem transmiti-las a eles. Então, ficam olhando para elas longamente, sem reconhecê-las. Perguntam-se apenas como os antigos conseguiram levantar tanto peso!

Essas rochas erguidas por Omama e pelos antigos brancos não devem ser destruídas. Os fantasmas desses antepassados continuam ali presentes, bem como junto das ossadas enterradas aos pés dessas pedras. Se fossem derrubadas, sua lei seria abolida e esquecida. Essa lei é o saber de seus antepassados. É a memória e o âmago do pensamento dos que nasceram depois deles. É para os brancos o que as palavras de Omama são para nós. Se essa lei, essa marca do primeiro tempo deixar de ficar levantada entre eles, perderão para sempre as medidas. Não pararão mais de maltratar a terra e de matar uns aos outros. Os antigos brancos que tanto se esforçaram para erguer essas pedras o fizeram para que pudessem ser contempladas depois de sua morte e sua memória não se perdesse. Trouxeram-nas de muito longe, sem máquinas. Foi assim que inventaram a pena do trabalho. Quanto a nós, habitantes da floresta, foi Koyori, o ancestral Saúva, que nos ensinou a dura labuta das roças sob o sol ardente. Se as máquinas dos brancos derrubarem essas grandes pedras de Omama, os fantasmas de seus ancestrais ficarão furiosos. Pensarão que aqueles que hoje em dia pretendem ser grandes homens em sua terra já não possuem nenhuma sabedoria.”

Davi Kopenawa e Bruce Albert, A Queda do Céu: Palavras de um xamã yanomami [Companhia das Letras, 2010]


 

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