A TV no Mudo

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A TV no Mudo

Manhã cinzenta na sala da Capadócia. Neblina canábica sobre picos nevados. Lá pelas tantas, Djair diz para Kebab:

– Eu precisava falar com você, um negócio.

– Que negócio? – quis saber Kebab.

– Mas não se ofenda, ok? Eu sei que você sempre se ofende…

– Eu nunca me ofendo.

– E sempre que você se ofende, fica foda, e a gente termina discutindo a própria discussão, e enfim, não é isso, mas não se ofenda, certo? – não era um costume conversarem olhando um no olho do outro. O costume era ficarem sentados em seus respectivos lugares olhando para o teto.

– Quando foi que me ofendi? – perguntou Kebab.

– Não importa, não é sobre isso…

– Porque se você falou pra eu não me ofender, deve estar esperando que eu faça isso.

– Ã? – realmente não havia entendido, assim como também Kebab não entendeu o “Ã?” do amigo e imaginou que aquilo significasse algo como: “não seja idiota, parça”.

– Essas saídas noturnas suas, desde semana passada, eu não sei. – e a reação do olhar do amigo o fez acrescentar. – Isso não é uma intervenção, ok?

– Intervenção? – ao que ele teria respondido. – Sabe que fazer tanta cerimônia assim, que tipo de resposta você está esperando? Fala logo, porra. Que saidinhas noturnas?

– Eu ouço o carro saindo. Toda noite. É você, não é? – parecia que era o sovaco de Djair quem falava, as axilas brotando pra fora das regatas.

– O que é que tem?

– É que uma coisa que sempre honrei, uma coisa que nós dois temos e pra qual eu sempre dei valor, é essa liberdade pra que cada um fale pro outro o que estiver pensando. Isso é uma coisa necessária entre amigos, sobretudo entre amigos que vivem juntos. Dizer o que pensamos, mesmo que doa, pro outro, pra mim. Como aquela vez que você discutiu com o Silas.

– Esquece isso.

– Eu esqueci. – disse o sovaco. – Mas estou citando como um exemplo.

– Então você não esqueceu.

– Olha, mas é claro que eu esqueci, caralho, e isso também não importa. É que estou com umas dúvidas a respeito de um certo comportamento que você vem tendo. Algo que tem se tornado rotineiro.

(Kebab pensando:

– Comportamento, porra?)

Mas enquanto Kebab pensava, Djair passou uma goma no baseado, pra queimar mais lentamente.

– Eu sei que o carro é seu, eu sei que a vida é sua. – pausa pra tragar. – Você não me deve explicações, eu sei.

– Sem querer ser grosso. – ser grosso pra Kebab era meio inevitável. – Eu não devo explicações nem pra mim mesmo, teje ciente.

Mas pela demora em responder, e a demora deixou um vácuo de poder bem grande entre a televisão e eles, e pelo tom grave com que Djair começou tudo, e também por como Kebab pensou que fosse, a coisa parecia promissora e séria

– Essas suas saídas de carro, de noite. Eu sei que o carro é seu, Kebab. – tossiu, e passou o banza. – Desde aquela conversa que tive com sua mãe, me sinto um pouco mais responsável por você.

– Você nunca nem falou com minha mãe, Djair.

– Temos conversado em sonhos, meu caro. Sempre estivemos. – tomou uma baforada na cara. – Mas não é sobre isso que falávamos, e não mude de assunto. – continuou a tossir.

– É você que está mudando de assunto, porra. Do nada começou a falar da minha mãe.

Os dois, mas talvez mais Kebab do que Djair, desejavam que a televisão estivesse transmitindo algo interessante, mas tudo o que tinham era o Datena dando um chilique, e como o som estava mudo, não conseguiam muito bem entender qual a razão de uma foto do Ed Motta estar aparecendo no canto superior direito da tela.

– Mas é que eu achei um papel higiênico no carro hoje de tarde. Enrolado, meio desenrolado, meio às pressas. E parecia sujo de alguma coisa branca. – Djair tinha o ânimo de quem tem a chance de elaborar publicamente um assunto que já tinha se desdobrado muitas vezes em sua imaginação, ou melhor, em suas hipóteses. – Você está saindo pra transar no carro de noite? Isso é meio perigoso, cara. Aliás, todo mundo anda no carro, porra, é sujo, bicho.

– Faz tempo demais que eu tô solteiro, cê sabe. – Kebab não quis rir de tão sério que estava. – Você sabe. São só alguns lanchinhos que ando indo fazer na padaria de madrugada. Aquela que é 24h. Meio que estou viciado na torta de limão deles. Acabo ficando acordado de madrugada, às vezes fumo um baseado, e me bate uma larica.

– Acordado fazendo o quê, Kebab?

– E às vezes deve ter caído um pedaço de torta de limão, não lembro.

– Acordado fazendo o quê, Kebab?

– Eu devia estar muito chapado.

– Acordado fazendo o quê, Kebab?

– Caralho, bicho, que noia é essa?

– Noia é você estar escondendo alguma coisa assim, sem nem esconder que você está escondendo, sei lá, o que quer que você esteja escondendo.

(Kebab:

– Quê?!)

– Você está juntando provas contra mim? – perguntou. – Porra, você perguntou três vezes a mesma coisa, bicho! Quão inquisitorial é isso?

– Não estou te acusando de nada, Kebab, caralho. Tá vendo, porra? Já estamos discutindo a própria discussão. É só falar, não tem problema. – aí ele olhou pro amigo. – Quem você tá comendo? Eu sei que não é torta de limão.

– Na verdade… – aí o amigo olhou de volta, pensando que talvez nunca devesse ter dado tanta liberdade assim pra ele, e que a relação ali talvez fosse um pouco mais assimétrica do que estava imaginando que era, porque nunca tivera ele nenhum interesse em escrutinar a vida dos outros bróders da casa, não como Djair estava fazendo agora, isso tudo mesmo assim sendo bem legal de um ponto de vista jurídico, na silenciosa jurisprudência que havia entre eles; compatível com o espírito republicano da Capadócia.

Djair já estava com a mão estendida pra pegar o baseado, e pegou, deixando cair no chão, queimando os dedos: – Tsc. Au. – os olhos bem vermelhos e a boca seca. – Tribo dos bocaseca.

– Ó, na verdade, bicho… É bem o seguinte. – disse Kebab, – É porra mesmo.

– O quê?

– É porra. O que tinha no papel higiênico.

– Eu sei disso, porra. Eu cheirei. Parecia Qboa.

– Que nojo, bicho, nossa.

Mas Djair não pensava que era um nojo. Pensava que, mais do que grotesco, aquilo era um sinal de cumplicidade entre os bróders. Algo como um elã que unisse os dois pra além do tradicional asco causados por certos fluídos corporais.

– Mas assim, você podia ter jogado fora, né?, o papel higiênico. – disse Djair.

– Olha, é que aconteceu um problema.

– Mas antes me diz quem você tá comendo.

– Não estou comendo ninguém.

– Como assim? – Djair nunca aventou aquela hipótese, apesar de tudo, dado o histórico tanto do amigo quanto do carro. – Quem tá te acompanhando?

– Estou indo sozinho.

(Djair:

– Vôte!).

– Comecei faz duas semanas, desde domingo. – disse Kebab, sentando-se como um índio no sofá, pra endireitar a fala. – Metade da história é verdadeira. Eu estava mesmo na padaria, era de madrugada. Acabei vendo uma garota, não sei porquê, acho que eu estava bêbado, ou chapado, saindo de alguma festa, não lembro, fiquei com muita vontade de transar com ela. Só que, obviamente, não tomei nenhuma atitude de me aproximar e falar com ela, não na padaria, claro, e também jamais naquele momento, porque eu estava meio que muito, realmente incomunicável. Sério. Exigiria um esforço sobre-humano, e obviamente fracassaria. Sério, a mina, ela tinha umas pernas, bicho, que, assim, eram um monumento. E ela percebeu que fiquei meio hipnotizado. E aí eu fui de embora com o pau duro, e no meio do caminho, enquanto voltava pra casa, meio que abri o zíper da calça e toquei uma punheta.

– Enquanto dirigia?

– Enquanto dirigia. É muito brisa. Quando percebo, estou indo muito devagarzinho, ou muito rápido, com o carro.

– E você chega a mudar de marcha durante o processo?

Kebab teve de pensar pra responder, e nesse meio tempo olhou para a parede, e viu o velho pôster do Mazzaropi. Uma das pontas já tinha se desprendido.

– Acho que às vezes sim.

– Que perigo… – Djair suspirou.

– Você acha que foi por causa do perigo que eu achei tão bom? Já pensei nessa possibilidade, mas não sei se é. Não sei se chega a ser. Talvez seja.

– Seje. – corrigiu-o, Djair.

– Seje, desculpa. Talvez seje isso. – corrigiu-se, Kebab.

– E aí toda noite você vai e faz isso, agora?

– Quase toda noite. Fumo um baseado, vou na padaria pra ver se acho de novo essa mulher, não sei nem se é mulher, deve ter só uns 19 anos.

– Pode ser um homem?

– Não, porra. É claro que é uma mulher. Tô dizendo, assim, que ela parece ser bem nova também. Não é uma balzaquiana, pode ficar tranquilo, que eu sei que você gosta das balzaquianas. – apagou o baseado, e continuou apagando-o ainda muito depois de já tê-lo apagado. – Aí, já que estou por lá, acabo comendo alguma coisa, às vezes realmente é uma torta de limão, às vezes só um café. Mas ela nunca apareceu lá de novo.

– Estou vendo que você está mesmo um pouquinho mais gordo.

– Vá se foder.

– Mas e as punhetas? Continuaram?

– As sessões masturbatórias, você diz? Sim. Já tive de parar uma vez num terreno baldio, numa ocasião em que a coisa tornou-se mais intensa. Olha, eu precisava encontrar de novo essa garota.

– Já pensou em perguntar o nome dela pra uma das atendentes?

– Perguntei, e elas nada sabem. – havia uma tristeza em sua voz.

– Você é detestável. – disse, com um riso de reconhecimento, digno de quem quer ser igualmente detestável. – E você começou a levar o papel higiênico?

– É claro. Só que aconteceu que na última vez, isso foi ontem, aconteceu uma merda.

– O quê?

O cão da casa se ajeitava numa almofada majestosa, num canto amontoado de pó e pelúcias velhas tão vira-latas quanto ele. Soltava agora um gemido. A televisão entrou na propaganda. Era uma torrente frenética de imagens coloridas, sugerindo algo como uma montanha de promoções mal intencionadas.

– A polícia me parou, numa blitz. – disse Kebab.

– Ah, não…

– Quando eu estava gozando. Daí tive que me livrar do papel higiênico, e joguei pro banco de trás. Olha, não conta pra mais ninguém isso, ok? Por favor?

– Você tem ideia do valor que tem um segredo desses? Seria bem menos custoso se já contássemos pros outros. Ninguém está nem aí mesmo, pra porra nenhuma. – os argumentos de Djair eram convincentes para ambos. – Uma história dessas é muito boa pra se perder assim, você me desculpe, mas você, enquanto sujeito da ação, não devia querer se apropriar do evento todo.

– Não. Vocês são língua-preta demais. Isso é muito queima-filme. É muita exposição. Vai chegar em outros círculos, logo logo tá todo mundo sabendo. – olhou para a TV. – Cara, vamos desligar essa merda. Põe um som aí. Vamo ouvir alguma coisa. – ajeitou-se no sofá, voltando para a posição em que estava antes, deitado, com os pés cruzados no braço do sofá. – Ou então um Fifa?

– Mas viu, espera aí, o que o policial falou? – perguntou ainda Djair. – Ele não falou nada quando te parou? E se os caras te pegam e te enquadram? Isso não dá cana, caralho?

– Tipo atentado leve ao pudor? Mas eu tava dentro do carro…

– Será que já aconteceu isso antes? Com alguém? Acho que porque você tá dirigindo com uma mão só, não sei, não dá algum problema? Tipo dirigir de chinelo?

– Não sei, bicho. Eu consegui guardar o bendito dentro da calça a tempo. Sou ágil como um gato quando estou no volante. Sou capaz de pôr um cinto em questão de milésimos. Não tinha nada de errado com o carro. Blitz de rotina, e os documentos do veículo estão todos em dia. E o som do carro também nem tava ligado. Só que, cara, olha só que sorte, felizmente dessa vez eu deixei pra fumar o baseado em casa, por algum motivo, e não na rua, no carro, com os vidros fechados, como tinha me acostumado a fazer. Olha, você garante que não vai contar pra ninguém?

Djair pensou bem antes de dizer:

– Com uma condição.

– Qual? – Kebab tirou os olhos da TV, e do outro lado do sofá olhou pro dedos dos pés do amigo, que se esticavam na ponta do sofá no extremo oposto da sala.

– Eu quero ir junto na próxima vez.

Leonardo Stockler


Imagem: William Eggleston

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Um comentário sobre “A TV no Mudo

  1. Essa vida de república é uma punhetação mesmo. No caso da minha vida universitária, foda não era ir à padaria, mas à biblioteca da faculdade. Várias homenagens foram feitas no banheiro da biblioteca. E uns poeminhas tbm.

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