maneiras curiosas de ir à guerra

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Os tehuelches e seus cogumelos

Os habitantes da planície da Patagônia pareceram ter, à primeira vista dos viajantes europeus que por lá aportaram, de dois metros e meio até três metros de altura. Fosse essa dimensão exagerada um efeito da silhueta de indivíduos naturalmente altos aumentada pela vasta paisagem desértica da região em que viviam tendo como comparação a baixa altura de um europeu comum, ou então um recurso dramático pra incrementar as próprias narrativas criadas pelos viajantes, os tehuelches que combateram o avanço da nação argentina em meados do século XIX durante a conquista do deserto patagônico empreenderam o uso de certas técnicas pouco convencionais na história militar, o bastante para que fossem recordados pelos seus inimigos ainda muitos anos depois de terem desaparecido.

Conhecidos pelo uso difundido do cavalo como veículo de guerra, o que facilitava a execução de manobras evasivas e ataques rápidos na região de planície, alguns poucos tehuelches teriam usado uma forma de estimulante natural bastante peculiar para adquirir capacidades sobre-humanas durante os conflitos.

É comum à dieta sagrada dos povos nativos da região, desde a aurora de sua existência, o cogumelo Psilocybe australis, uma variação nativa de um cogumelo que cresce na Oceania, o Psilocybe subaeruginosa, usado pelos aborígenes australianos em rituais religiosos, devido principalmente às propriedades alucinógenas contidas na psilocibina. A semelhança entre as espécies, contudo, têm servido para que alguns estudiosos concordem que sua ampla participação na sociedade tehuelche seja uma herança que os povos ameríndios trariam de uma época em que nem ainda habitavam este continente, o que indica a possibilidade de terem, tanto o fungo quanto os povos, migrados junto para América.

Como teriam essas gentes sido capazes de cultivar o cogumelo em suas longas e custosas viagens marítimas é algo que pode ser explicado pela mutação que a espécie sofreu nesse processo: a principal diferença entre o cogumelo que cresce em terras argentinas, o Psilocybe australis, tem em relação ao seu primo próximo, é a sua capacidade, muito rara no reino da natureza, de crescer em certos tecidos humanos, tais como própria epiderme. Sua ocorrência atravessava a cordilheira dos Andes, e chegava a ser comum também entre os mapuches, tribo indígena que coabita o sul do continente e que empregaram técnicas semelhantes em suas próprias guerras.

Há relatos que contam, por exemplo, sobre cavaleiros tehuelches que deixavam crescer colônias de cogumelos em suas costas, ou um grande chapéu com as abas sobre a cabeça. A simbiose tinha cunho severamente religioso para aqueles que a cultivavam, e a ingestão do fungo garantia a eles alguns talentos bastante úteis, tais como a visão noturna, o que os levava a atacar sempre durante a madrugada, sem o uso de tochas nem qualquer artifício que produzisse luz. As feridas cicatrizavam-se mais depressa, e o guerreiro sentia-se mais confiante e protegido, como se o cogumelo lhe enrijecesse mais a carapaça. Com os fungos à mostra, como uma espécie de cobertor natural, iam parcamente vestidos para o combate, até mesmo em situações de extremo frio. Cruzavam os campos de batalha às vezes com inúmeros ferimentos sem demonstrarem dor.

O massacre de indígenas e o sucesso da campanha do deserto dependeu de uma adoção de novos métodos de combate por parte das tropas argentinas. Combatendo nas planícies abertas, deve-se tampar as saídas – foi o que tiveram de aprender. Os cavaleiros tehuelches, impedidos de roubarem gado, tendo suas fontes drenadas cada vez mais, e as derrotas sempre se fazendo mais frequentes, minguaram até serem finalmente reduzidos a uma dúzia, o próprio poder de cultivo do cogumelo sendo banido e proibido, decrescendo a ponto de quase desaparecer.

O micélio, hoje, pode ser somente encontrado em algumas regiões mais ermas da Patagônia, longe de qualquer atividade humana, e o último caso conhecido de alguém que deixou crescer o cogumelo em sua própria pele é o de um senhor argentino, morto por intoxicação em 1963.


Imagem: Martin Gusinde

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