o dia do exame

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O dia do exame

Paralelo 20º 32º 20 sul.

Meridiano 47º 24º 03º oeste.

Terça-feira, 24º, tempo parcialmente nublado.

Hora local 0800

Umidade Alta: 33%.

O cruzamento defronte ao CIRETRAN amanhece preenchido pelos veículos das 68 autoescolas do município. Apoiados às grades, com os pés nos muros, os braços cruzados, um clima perfunctório no humor da maior parte dos candidatos que discutem entre si os macetes da prova da baliza. Os carros populares rebatizados com os nomes de cada companhia, cada um em uma grafia própria – Central; Metrópole; Bom Jesus; Líder; Modelo; Nova; Dois Irmãos; o gentílico do nome da cidade ou do Estado – pastam bovinamente o asfalto das vagas ao redor do quarteirão.

Grupos de meninos vestindo moletons indiscerníveis, felizes que obtiveram uma dispensa da aula da escola, conseguem encontrar nisso motivação para comportamentos minimamente jocosos, ainda que estejam um pouco tensos. Qualquer risada, portanto, é extremamente rara no cenário em que logo se dará a prova prática. Um maço de cigarros é aberto e algumas unidades são distribuídas entre os fumantes, que aguardam com impaciência. O mesmo isqueiro acende a todos os cigarros. Há gente de toda a cidade aqui, e até mesmo vinda de povoados vizinhos. Dentre os repetentes, alguns trazem a consciência mais culpada.

Há pessoas mais velhas, jovens-adultos que já aprenderam a dirigir mais cedo e são capazes de conduzir seus próprios negócios e empreendimentos imobiliários, estes estão bem tranquilos; há também dois haitianos bem magros, e bem capazes, empolgados com a hospitalidade dos examinadores (a habilitação deles está sendo paga pela empresa); há uma senhora mais velha que pela semana funciona como pedicure/manicure, a Dona Cléo, de quem certas clientes suspeitam um talento para a quiromancia; há também o gerente de uma loja de artigos para RPG, quadrinhos e mangás, o tipo gordo nerd que, à época do evento, não dispunha de bons e descolados referenciais para a nerdice como aqueles da qual dispõe hoje a dita juventude bazingueira, e com seus grunhidos e reações interrompidas pela metade, consegue despertar um ambíguo sentimento de rejeição e empatia nos passageiros do carro em que será examinado; há Priscilla, ex-atriz-mirim que provoca comentários nos que a reconhecem; há Jefferson, o estudante de humanas que já reprovou uma vez porque foi de bermuda, não sabendo que estava vetado o uso de outra peça de vestuário inferior que não fosse a calça; há um grupo de amigas marxistas-católicas do curso de Serviço Social, amigas de Jefferson; há dois transformistas que ganham a noite travestindo-se nas quebradas do mesmo bairro em que é feito o percurso da prova, também amigos de Jefferson; há o Pastor Josias; há uma Carolina, a patricinha com tendências suicidas; há mais uma caralhada de gente que poderia ser ainda mais interessante. Há os instrutores, os temidos juízes e avaliadores, pranchetas e canetas nas mãos, e todos usam óculos escuros.

É óbvio para qualquer um dizer que ninguém, absolutamente nenhum participante dentre os participantes, e talvez menos ainda os examinadores, ninguém gostaria de estar ali de fato. Todos prefeririam estar fazendo outra coisa, certo? Claro.

Não é verdade. Há muitos jovens, especialmente meninos, que encontram na adoração aos veículos automobilísticos um verdadeiro motivo de pesquisa e interesse, o que mais ou menos acaba transformando a provação da prova prática numa ótima oportunidade de demonstração da perícia que andaram juntando ao longo desses anos de direção clandestina, ou de treinamento virtual simulado, demoradas observações de campeonatos de arrancada, competições de som automotivo. Para eles, o dia do exame é esperado com entusiasmo.

Manso, o instrutor de Jefferson, um tipo peculiar que durante as aulas no pátio chegava até mesmo a dormir e a roncar, agora passa cumprimentando e desejando boa sorte; Dona Cléo faz em-nome-do-pai; o Gordo Nerd respira de boca aberta; Priscilla, a estrela-mirim agora emancipada, tira uma selfie com o celular. Ninguém gostaria de ser o último e ter de ficar aqui até ao meio-dia, mas ninguém também quer ser o primeiro; ninguém gostaria de reprovar e ter de pagar a taxa novamente, porque é cara. A prova prática para a categoria B de veículos ligeiros acontece numa frequência maior do que a categoria A, de motocicletas. Uma vez que se trata de um exame mais demorado, porque é dividido em duas etapas, faz-se por bem a necessidade de dividi-lo em dois dias, porque nem todos que pretendem dirigir carros possuem quaisquer ambições em relação às motos. Mas, de qualquer forma, dois dias – (Fica a enquete: Na sua opinião, quais são os rituais mais obrigatoriamente entediantes em/de uma civilização regulada pela burocracia?).

E por mais procedimental que tudo seja, as mãos esfriam, suam. Aquela sensação de uma bola sendo inflada em seu estômago é cada vez maior – a sensação que nos acomete antes de enfrentarmos situações de risco: um salto de pára-quedas, uma prova do colegial para a qual nos preparamos durante dois meses, um show com sua banda, um exame de auto-escola. Poucos são os que conseguem manobrar com tranquilidade, com serenidade, budicamente.

O momento da prancha, o ponto alto do percurso da prova prática de moto, é continuamente citado pelo professor do Curso de Formação de Condutores.

– Sempre pode ser pior. Sempre pode ficar mais difícil do que já é. – diz o Seu Jairo, alguém excessivamente fatalista para o cargo que ocupa.

No Celta o cinto de segurança não vem se o carro estiver inclinado. Já é sabido entre os alunos da Autoescola Metrópole que no câmbio do Pálio a quarta marcha é demasiadamente próxima da segunda, e, como o motor é meio curto, o carro acaba morrendo, e aí fodeu. 2 pontos. Infração média. Mais uma e você tá eliminado. A prova teórica ainda está fresca na cabeça de alguns participantes, sobretudo a Cruz de Santo-André, e o tal do eixo-cardã, que nunca sairá da cabeça de alguns deles.

A ninguém interessa que a prova teórica seja muito difícil. Em uma prova que funciona pelo método de alternativas, certas respostas chegam a ser bem cretinas – como aquela que afirma que a conduta correta ao passarmos defronte a uma escola é basicamente acelerar, buzinar, e gritar. Mesmo que muita gente habilitada se comporte assim, todos sabem que a resposta não é essa. Só com muita preguiça mental e em um ou outro caso é que as perguntas podem confundir. Reprovar gente nessa etapa do processo não é conveniente. Na prova prática até pode ser compensador do ponto de vista financeiro, mas ninguém é levado a cometer injustiças por conta disso. As provas não são verdadeiramente difíceis. Percurso e baliza. Todo cidadão brasileiro, na posse de suas plenas faculdades mentais e motoras, é capaz de fixar certos movimentos a partir do número de aulas às quais devem ser por lei submetidos. Os que de alguma forma já aprenderam a dirigir e querem dispensar as aulas, ainda assim se viram obrigados a comparecer presencialmente, posto que devem emprestar o dedo, indicador ou polegar, ao leitor de impressões digitais, para que assim conste no sistema.

Os instrutores de autoescola já chegaram a fazer greve uma vez. Melhores salários e melhores condições. Estacionaram os seus veículos no pátio do CIRETRAN e bloquearam a saída e entrada. Não tiveram muita adesão.

Iniciados os trabalhos, a Dona Cléo, por alguns segundos pânicos, acelerou o motor com o freio de mão puxado, e o carro ainda estava em ponto-morto. O barulho alto soou constrangedor para os que estavam próximos, todos reprimindo a imensa vontade de intercederem em ajuda. Um bom começo o ronco intenso interrompendo os segundos de silêncio das conversinhas ciciosas que o precederam. As garotas do Serviço Social, que se afeiçoaram à Dona Cléo, comentam o caso com apreensão. Sabemos que ela não reprovou por isso.

Um dos haitianos entrou na contramão e o examinador chegou a cobrir o rosto com a prancheta. O amigo, enquanto isso, observava do banco de trás o Léo, um futuro motoboy apressado tendo de ouvir o seu algoz pedindo calma enquanto ainda estão parados sobre a faixa de pedestres diante de uma movimentada rotatória. O avaliador tem também um copo de isopor com café pela metade, e pretende dosar seus goles e distribuí-los uniformemente pra que o café não acabe antes de sua última vítima ter acabado também. Ele espera que movimentos bruscos não o façam derrubar a bebida – felizmente nunca algo assim chegou a acontecer, e em seu trabalho nunca nem mesmo participou de colisões.

A primeira pessoa a reprovar o faz à vista de todos, quando sobe o carro sobre a sarjeta em ré indevidamente engatada. Seu olhar decepcionado rende entre as testemunhas compaixão e cinismo. Para os avaliadores, que nem estavam prestando atenção, que tantas vezes já viram a mesma coisa, é tudo processual e indiferente. Sabem que a verão de novo em uma semana próxima.

É normal que estabeleçamos com o nosso instrutor alguma relação mínima de conversa ou troca de ideias. Fazemos isso ou porque realmente estamos interessados na conversação e no que ele possa ter pra dizer, ou também porque, de alguma forma, é impossível que um dos dois não se pegue um dia perguntando ao outro a respeito do clima ou da crise política – é questão de tempo.

Porque também cabe ao instrutor algum tipo bem breve de consolo a ser dado ao reprovado, no caso, essa dita Primeira Pessoa Que Reprovou:

  – Pôxa, mas você se saiu tão bem nas aulas! – e não demora até que alguém comece a chorar em prantos.

As nuvens vão ficando pretas e uma chuva se anuncia, bem quando a coisa já está começando a terminar. Uma fila se forma no banheiro e outra no filtro d’água – porque às vezes bebemos água como alternativa à falta do que fazer. Sob o teto, aqueles que já terminaram, tendo sido aprovados ou não, esperam a chuva passar pra irem embora.

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