apocalipse e milenarismo

A cristandade (…) passou por uma série de revoluções e em cada uma delas o cristianismo morreu. Morreu muitas vezes e tornou a ressuscitar, pois tinha um Deus que sabia como sair da tumba.

G. K. Chesterton – O Homem Eterno

Vivemos tempos extremos? Estamos à beira de um Apocalipse? Desde quando foi que começamos a nos acostumar com a ideia de que o Fim está próximo? As profecias de Nostradamus, as profecias Maias, os filmes-catástrofe, a iminência do colapso climático…

E quando foi que começamos a constatar que são extremos estes tempos em que vivemos? Será que essa sensação possui alguma singularidade histórica, ou está apenas se repetindo desde outros tempos?

Desde o início do ano de 2020, a possibilidade de uma outra guerra mundial, a pandemia do novo coronavírus, ora, não faltariam motivos a qualquer um que ousasse proclamar que o fim está chegando. E, realmente, qual foi a religião que não teve a chance de confirmar sua mensagem neste contexto? Uma conjunção cósmica, a Nova Era, ora pois!

A polarização política, a degradação ambiental, a degeneração da cultura, a desigualdade e as contradições sistêmicas em níveis exorbitantes, e, finalmente, os sinais. Sim! Os sinais do fim! A coisa está próxima!

A verborragia do presente quer vaticinar um apocalipse por dia. Se retomarmos o sentido etimológico original, do grego, em que apokálypsis é precisamente uma revelação, a visão, parcial ou total, de algum tipo de conhecimento sobre os destinos dos povos, e sobre o porvir, seu fracasso jamais poderia ser computado a alguma falta de linguagem. Temos vocabulário de sobra. A vitória do Bem sobre o Mal, o fim dos tormentos, o Juízo! Qual é o grau de mistério embutido nos vaticínios de hoje em dia, ã? Sim, quão óbvios e estampados eles são? O fim do mundo desencadeado na lógica do feedback, do circuito de informação, da leitura dos gráficos, da Big Data.

O mistério vestindo uma máscara e nos dizendo que, olha, veja bem, talvez não seja mais preciso uma revelação. Considerar o Apocalipse é uma atitude obrigatória de qualquer corrente política: se não é o fim do mundo, é o fim das florestas, ou o fim da família. Sem que consigamos imaginar ao certo como será o fim, não podemos deixar de pensar nele, dia e noite. Não podemos deixar de calcular as chances de sobrevivência, e de sopesar o mistério – que é ao mesmo tempo ruído e informação. E, guardadas as devidas proporções, é assim que encontramos o Apocalipse de São João, no Livro das Revelações, o único texto profético do Novo Testamento, misterioso, praticamente insondável.

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versões indígenas

É considerável a quantidade de visões e lendas que envolvam a perspectiva de uma “queda”. Antes que se pense no Arcano da Torre, falamos aqui de uma situação cosmogônica – a origem da nossa existência, sulcada numa divisão dualista da natureza e do universo.

Pensemos no mito edênico: a queda de Adão e Eva, de um estado paradisíaco original onde não se distinguiam dos animais, para um mundo mais abaixo, marcado pelo trabalho, pela vergonha e pelo abandono. Adão e Eva, diferenciados  dos animais e da natureza, e, cientes do grau de sua condenação – dotados de uma linguagem verbal, e de uma certa noção de si mesmos. Curiosidade, conhecimento.

A situação do mito edênico é um momento arquetípico daquilo que chamamos de “dualismo” – a ideia de que o universo possui uma natureza dupla, uma parte divina, sagrada e absoluta, e a outra parte profana, sublunar, e que nós, humanos perdidos aqui na Terra, habitamos a sua contraparte mundana não-divina, ou seja: mundana.

Essa divisão postula uma diferença de linguagem entre ambas as instâncias: a parte divina é absoluta. Nela, a palavra já vem acompanhada com o seu sentido. No mundo mais abaixo tudo é temporário e marcado pelo signo da relatividade. As palavras são apenas palavras.

Existem outros dualismos filosóficos e religiosos com elaborações mitopoéticas e estéticas realmente ricas. Na Índia ou na Grécia, veremos estas noções se desenvolverem a partir da atividade e do debate de várias escolas filosóficas. Os debates requalificam os termos, e às vezes abrem-se para novas concepções – o monismo, do qual o Advaita Vedanta é um exemplo perfeito.

Ao lado de quais perspectivas dualistas e monistas as noções cosmogônicas indígenas podem ser colocadas? Pensemos no perspectivismo ameríndio e na contribuição que as visões indígenas teriam para o mito edênico. Ora, o perspectivismo ameríndio nada mais é que a generalização teórica do processo de produção do ponto de vista dentro de sociedades selvagens como os araweté, yanomami e juruna. Aqui, a Queda não é protagonizada pelo Homem, mas pelos animais. Em outras palavras: quem se diferiu da humanidade foram os animais, os quais ainda convivem de acordo com uma humanidade própria, camuflada por sua roupagem animal.

Como exemplo do primeiro caso, contudo, penso no mito dos marubo, bem representado pelo título do livro em que o encontrei, “Quando a Terra deixou de falar”, de Pedro de Niemeyer Cesarino [Editora 34; 2013].

Segundo os marubo, o mundo teria passado por um processo de silenciamento, ocasionado pelo povo sol (Vari Nawavo) como punição para o comportamento sexual dos antigos. Em outro episódio, o silenciamento é resultado do feitiço de Kana Voã, um herói de suas narrativas, que decide silenciar o Céu, que, através de seus trovões, estaria cobiçando os habitantes da Terra daqui abaixo. A concepção que os marubo possuem dos espíritos, das formas da natureza, e da atuação do demiurgo que as criou é suficientemente complexa pra que eu não tente resumi-las aqui, mas o depoimento do xamã Armando Mariano é bastante curioso. Transcrevo:

As colinas de terra falavam…

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maneiras curiosas de ir à guerra

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Os tehuelches e seus cogumelos

Os habitantes da planície da Patagônia pareceram ter, à primeira vista dos viajantes europeus que por lá aportaram, de dois metros e meio até três metros de altura. Fosse essa dimensão exagerada um efeito da silhueta de indivíduos naturalmente altos aumentada pela vasta paisagem desértica da região em que viviam tendo como comparação a baixa altura de um europeu comum, ou então um recurso dramático pra incrementar as próprias narrativas criadas pelos viajantes, os tehuelches que combateram o avanço da nação argentina em meados do século XIX durante a conquista do deserto patagônico empreenderam o uso de certas técnicas pouco convencionais na história militar, o bastante para que fossem recordados pelos seus inimigos ainda muitos anos depois de terem desaparecido.

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ascenção e queda do bidê, parte 2

 

Há quem diga que o bidê, após o acoplamento da ducha, tenha se tornado o instrumento mais capaz e o maior responsável dentre os dispositivos modernos a dar uma dimensão verdadeiramente nova de significados à palavra “analógico”. O seu uso ancilar à higiene no século XX chegou até mesmo a tornar-se obrigatório em alguns países, como a Itália. Costumava instalar-se no quarto, de onde foi demovido, passando depois a habitar os banheiros. A origem da palavra vem do francês “bidet”, ou “bider”, que quer dizer “trotar” – uma óbvia comparação à posição em que montamos num cavalo sugere que também estaríamos montando este valoroso utensílio doméstico, que hoje, após a cansativa saga dos anos 80 e 90, sobrevive em grande parte dos apartamentos de classe média funcionando como um depósito de revistas velhas, em cujo acervo deveriam certamente constar algumas edições clássicas da Revista Isto É, Época, ou Veja, e Playboys da época em que vaginas ainda tinham pelos, sempre no fundo mais inalcançável da pilha de revistas que, erguendo-se de dentro do bidê, parece não ter fim. A comparação é pertinente. O coice proporcionado pela forte propulsão de alguns bidets que experimentei já me fez sentir violado.

Quando colocados ao lado da privada, em banheiros de menor espaço, distintos dos banheiros modelo europeu, podem acabar levando crianças ou idosos com problemas de vista a confundi-los com a própria privada, e as fezes, ao contrário de boiarem no confortável reservatório de água da privada, escorreriam pela fria louça do bidê antes de esvoaçarem pelo banheiro quando o defecante girasse a válvula pensando em ativar a descarga e, sem saber, desse vazão à água que, com forte impulso, saltaria pra fora do bidê, onde antes estava acostumada a entrar na cavidade anal ainda mais ou menos suja do defecante em questão e exercer ali o seu poder de limpeza, agora voaria livre, levando consigo dejetos nunca dantes vistos.

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a voz que vem das mãos

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“A língua deve ser introduzida e adquirida o mais cedo possível, senão seu desenvolvimento pode ser permanentemente retardado e prejudicado, com todos os problemas ligados à capacidade de ‘proposicionar’ mencionados por Hughlings-Jackson. No caso dos profundamente surdos, isso só pode ser feito por meio da língua de sinais. Portanto, a surdez deve ser diagnosticada o mais cedo possível. As crianças surdas precisam ser postas em contato primeiro com pessoas fluentes na língua de sinais, sejam seus pais, professores ou outros. Assim que a comunicação por sinais for apreendida – e ela pode ser fluente aos três anos de idade -, tudo então pode decorrer: livre intercurso de pensamento, livre fluxo de informações, aprendizado da leitura e escrita e, talvez, da fala. Não há indícios de que o uso de uma língua de sinais iniba a aquisição da fala. De fato, provavelmente ocorre o inverso.

Os surdos, sempre e em toda parte, foram vistos como ‘deficientes’ ou ‘inferiores’? Terão sempre sido alvo, deverão sempre ser alvo de discriminação e isolamento? É possível imaginar sua situação de outro modo? Que bom seria se houvesse um mundo onde ser surdo não importasse e no qual todos os surdos pudessem desfrutar uma total satisfação e integração! Um mundo no qual eles nem mesmo fossem vistos como ‘deficientes’ ou ‘surdos’.

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a lealdade

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A história, entre a hipótese e a ficção, deve começar com um grupo de caçadores, distantes de nós por pelo menos trezentos séculos, encontrando uma ninhada de filhotes de lobos. Aqueles que deveriam ser os pais jaziam mortos ainda ao lado, um grande lobo cinza, maior, de dentes terríveis e de pelagem farta, ele atravessado com a lança de um dos caçadores, e a loba, caída ao lado dele, com os seios cheios de leite e o focinho destroçado por uma pedrada.

Alguém tem a ideia de recolher os filhotes. Não matá-los. Por empatia? O caçador lembrou-se de uma das crianças, um dos novos bebês da tribo, a quem deu ao mundo sua mulher. Impediu, com um grito, que os outros caçadores derramassem qualquer sangue novo. E tendo esse grupo de caçadores regressado à tribo, que destino teriam dado aos filhotes dos lobos?

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8 de Março

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Katherine, a rendeira mulher amante

“Nasceu em meados do século quinze, na rua de la Parcheminerie, próxima à rua Saint-Jacques, num inverno em que fez tanto frio que os lobos correram em Paris sobre a neve. Recolheu-a uma velha mulher, de nariz vermelho sob o capuz, que a criou. E de início ela brincou sob os pórticos com Perrenette, Guillemette, Ysabeau e Jehanneton, que usavam pequenas cotas e mergulhavam nas valetas as mãozinhas vermelhas para pegar pedaços de gelo. Também observavam os que lesavam os transeuntes no jogo de tabuleiro chamado Saint-Merry. E, nos alpendres, espiavam as tripas dentro das selhas, e as compridas salsichas balançantes e os enormes ganchos de ferro em que os açougueiros penduram a carne. Nas proximidades de Saint-Benoît le Bétourné¹, onde ficavam os scriptorium, escutavam o ranger das penas, e ao entardecer, pelas frestas dos ateliês, sopravam as candeias na cara dos clérigos. Na Ponte Pequena, escarneciam das peixeiras e escapuliam ligeiro para a praça Maubert, escondiam-se nas esquinas da rua de Trois-Portes; então, sentadas à beira da fonte, tagarelavam até as brumas da noite.

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A guerra nas sociedades selvagens

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“Foi o descobrimento da América que, como se sabe, forneceu ao Ocidente a ocasião de seu primeiro encontro com aqueles que, desde então, seriam chamados de selvagens. Pela primeira vez os europeus viram-se confrontados com um tipo de sociedade radicalmente diferente de tudo o que até então conheciam, precisaram pensar uma realidade social que não podia ter lugar em sua representação tradicional do ser social: em outras palavras, o mundo dos selvagens era literalmente impensável para o pensamento europeu. Aqui não é o lugar de analisar em detalhe as razões dessa verdadeira impossibilidade epistemológica: elas se relacionam à certeza, coextensiva a toda a história da civilização ocidental, sobre o que é e o que deve ser a sociedade humana, certeza expressa desde a aurora grega do pensamento europeu do político, da polis, na obra fragmentária de Heráclito. A saber, que a representação da sociedade como tal deve encarnar-se na figura do Um exterior à sociedade, na disposição hierárquica do espaço político, na função de comando do chefe, do rei ou do déspota: só há sociedade sob o signo de sua divisão em Senhores e Súditos. Resulta dessa visão do social que um grupo humano que não apresente o caráter da divisão não pode ser considerado uma sociedade. Ora, quem é que os descobridores do Novo Mundo viram surgir nas praias atlânticas? “Gente sem fé, sem lei, sem rei”, segundo os cronistas do século XVI. A causa era assim entendida: esses homens no estado de natureza não haviam ainda chegado ao estado de sociedade. Quase unanimidade, perturbada apenas pelas vozes discordantes de Montaigne e La Boétie, nesse julgamento sobre os índios do Brasil.

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Crates, O Cínico

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“Nasceu em Tebas, foi discípulo de Diógenes e também conheceu Alexandre. Seu pai, Ascondas, era rico e deixou-lhe duzentos talentos. Certo dia, ao assistir uma tragédia de Eurípedes, sentiu-se inspirado com a aparição de Télefo, rei da Mísia, vestindo molambos de mendigo e carregando uma cesta na mão. Levantou-se no teatro e anunciou com voz forte que distribuiria a quem quisesse os duzentos talentos de sua herança, e que doravante lhe bastariam as roupas de Télefo. Os tebanos puseram-se a rir e se amontoaram em frente à sua casa; ele, contudo, ria mais do que eles. Jogou-lhes seu dinheiro e seus móveis pelas janelas, apanhou um manto de linho e um alforje, e então se foi.

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Notas sobre o Deserto Patagônico

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– Kant diz que se o mundo é redondo e, portanto, finito, então as gentes são obrigadas a suportarem umas as outras, sem a opção de poderem debandar em direção ao infinito, caso o mundo fosse uma planura sem fim.

– Kepler dizia que os corpos celestes eram todos do mesmo tamanho. Talvez estivessem distribuídos em círculos. Sem um telescópio para observá-los com mais nitidez, ninguém, em sua época, pôde oferecer uma contestação mais fundamentada. A diferença de brilho, de uma estrela para outra, provinha da distância que nos separava delas – é o que ele pensava.

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