A guerra nas sociedades selvagens

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“Foi o descobrimento da América que, como se sabe, forneceu ao Ocidente a ocasião de seu primeiro encontro com aqueles que, desde então, seriam chamados de selvagens. Pela primeira vez os europeus viram-se confrontados com um tipo de sociedade radicalmente diferente de tudo o que até então conheciam, precisaram pensar uma realidade social que não podia ter lugar em sua representação tradicional do ser social: em outras palavras, o mundo dos selvagens era literalmente impensável para o pensamento europeu. Aqui não é o lugar de analisar em detalhe as razões dessa verdadeira impossibilidade epistemológica: elas se relacionam à certeza, coextensiva a toda a história da civilização ocidental, sobre o que é e o que deve ser a sociedade humana, certeza expressa desde a aurora grega do pensamento europeu do político, da polis, na obra fragmentária de Heráclito. A saber, que a representação da sociedade como tal deve encarnar-se na figura do Um exterior à sociedade, na disposição hierárquica do espaço político, na função de comando do chefe, do rei ou do déspota: só há sociedade sob o signo de sua divisão em Senhores e Súditos. Resulta dessa visão do social que um grupo humano que não apresente o caráter da divisão não pode ser considerado uma sociedade. Ora, quem é que os descobridores do Novo Mundo viram surgir nas praias atlânticas? “Gente sem fé, sem lei, sem rei”, segundo os cronistas do século XVI. A causa era assim entendida: esses homens no estado de natureza não haviam ainda chegado ao estado de sociedade. Quase unanimidade, perturbada apenas pelas vozes discordantes de Montaigne e La Boétie, nesse julgamento sobre os índios do Brasil.

Mas unanimidade irrestrita quando, em troca, tratava-se de descrever os costumes dos selvagens. Exploradores ou missionários, mercadores ou viajantes estudiosos, do século XVI até o final (recente) da conquissta do mundo, concordam todos num ponto: quer sejam americanos (do Alaska à Terra do fogo) ou africanos, siberianos das estepes ou melanésios das ilhas, nômades dos desertos australianos ou agricultores sedentários das selvas da Nova Guiné, os povos primitivos são sempre apresentados como apaixonadamente dados à guerra, é seu caráter particularmente belicoso que impressiona sem exceção os observadores europeus. Da enorme massa documental reunida em crônicas, relatos de viagem, relatórios de padres e pastores, militares ou traficantes, surge, incontestada, primeira, a imagem mais evidente que oferece de saída a infinita variedade das culturas descritas: a do guerreiro. Imagem suficientemente dominadora para induzir uma constatação sociológica: as sociedades primitvas são sociedades violentas, seu ser social é um ser-para-a-guerra.

Eis em todo caso a impressão que recolhem, sob todos os climas e ao longo de vários séculos, testemunhas diretas, muitas delas tendo partilhado durante longos anos a vida das tribos indígenas. Será tão fácil quanto inútil constituir uma antologia desses julgamentos relativos a populações de lugares e épocas bem diferentes. As disposições agressivas dos selvagens são quase sempre severamente julgadas. Como cristianizar, civilizar, convencer das virtudes do trabalho e do comércio povos preocupados principalmente em guerrear contra seus vizinhos, vingar as derrotas ou celebrar as vitórias? Na realidade, a opinião dos missionários franceses e portugueses sobre os índios Tupi do litoral brasileiro, na metade do século XVI, antecipa e condensa todos os discursos do porvir: não fosse, dizem eles, a guerra incessante que essas tribos umas contra as outras, o país estaria superpovoado. É a aparente prevalência da guerra na vida dos povos primitivos que primeiro chama a atenção dos teóricos da sociedade. Thomas Hobbes opõe ao estado de Sociedade, que é para ele a sociedade do Estado, a figura não real mas lógica do homem em sua condição natural, um estado dos homens antes de viverem em sociedade, isto é, “sob um poder comum que mantém a todos em respeito”. Ora, pelo que é que se distingue a condição natural dos homens? Pela “guerra de todos contra todos”. Mas dirão, essa guerra que opõe uns aos outros homens abstratos, inventados para as necessidades da causa defendida pelo pensador do Estado civil, essa guerra imaginária nada tem a ver com a realidade empírica, etnográfica, da guerra na sociedade primitiva. É possível. No entanto, o próprio Hobbes acredita poder ilustrar o fundamento de sua dedução com a referência explícita a uma realidade concreta: a condição natural do homem não é apenas construção abstrata de um filósofo, mas sim a sorte efetiva, observável, de uma humanidade recentemente descoberta. “Pensarão talvez que um tal tempo jamais existiu, nem um estado de guerra como esse. Acredito, de fato, que jamais tenha sido assim, de ma maneira geral, no mundo inteiro. Mas há muitos lugares em que os homens vivem desse modo atualmente. De fato, em muitos lugares da América, os selvagens, excetuado o governo de pequenas famílias cuja concórdia depende da concupiscência natural, não têm governo nenhum, e vivem até hoje da maneira quase animal que mencionei mais acima.”1 Não nos supreenderemos demais com o tranquilo desprezo de Hobbes em relação aos selvagens; são as ideias aceitas de seu tempo (mas ideias recusadas, repetimos, por Montaigne e La Boétie): uma sociedade sem governo, sem Estado, não é uma sociedade; logo, os selvagens permanecem no exterior do social, vivem na condição natural dos homens, em que reina a guerra de todos contra todos. Hobbes não ignorava a intensa belicosidade dos índios americanos; por isso via em suas guerras reais a confirmação manifesta de sua certeza: a ausência do Estado permite a generalização da guerra e torna impossível a instituição da sociedade.

A equação mundo dos selvagens = mundo da guerra, por ver-se constantemente verificada “no local”, atravessa toda a representação, popular ou erudita, da sociedade primitiva. É assim que um outro filósofo inglês, Spencer, escreve em seus Princípios de Sociologia: “Na vida dos selvagens e dos bárbaros, os acontecimentos dominantes são guerras”, como num eco ao que, três séculos antes dele, dizia dos Tupinambá o jesuíta Soares de Souza: “Como os Tupinambá são muito belicosos, toda a sua preocupação é saber como farão a guerra a seus adversários””. Mas os habitantes do Novo Mundo detêm o monopólio da paixão guerreira? De modo nenhum. Num livro já antigo2, Maurice R. Davie, refletindo sobre as causas e as funções da guerra nas sociedades primitivas, empreende uma amostragem sistemática do que ensinava a esse respeito a entografia da época. Ora, de sua meticulosa prospecção resulta que, com raríssimas exceções (os esquimós do Centro e do Leste), nenhuma sociedade primitiva escapa à violência, nenhuma delas, quaisquer que sejam seu modo de produção, seu sistema tecno-econômico ou seu ambiente ecológico, ignora ou recusa o desdobramento guerreiro de uma violência que envolve o ser mesmo de cada comunidade implicada no conflito armado. Parece bem estabelecido, portanto, que não se pode pensar a sociedade primitiva sem pensar também a guerra, a qual, como dado imediato da sociologia primitiva, adquire uma dimensão de universalidade.

A essa presença maciça do fato guerreiro responde, se é possível dizer, o silêncio da etnologia mais recente par a qual, diríamos, a violência e a guerra só existem nos meios próprios a conjurá-las. De onde provém esse silêncio? Em primeiro lugar, seguramente, das condições em que vivem atualmente as sociedades das quais se ocupam os etnólogos. Sabemos bem que praticamente não existem mais, no mundo, sociedades primitivas absolutamente livres, autônomas, sem contato com o ambiente sócio-econômico “branco”. Em outras palavras, os etnólogos quase não têm mais ocasião de observar sociedades suficientemente isoladas para que o jogo das forças tradicionais que as definem e sustentam possa manifestar-se livremente: a guerra primitiva é invisível porque não há mais guerreiros para fazê-la. […] Em suma, se a etnologia não fala da guerra, é que não há ocasião de falar, é que as sociedades primitivas, quando se tornam objeto de estudo, já estão a caminho do desmembramento, da destruição e da morte: como ofereceriam o espetáculo de sua livre vitalidade guerreira?”

1Thomas Hobbes, Leviatán (Paris: Sirey, p.125)

2Maurice R. Davie, La Guerre dans les societés primitives (Paris: Payot, 1931).

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Pierre Clastres, A Arqueologia da Violência [tradução de Paulo Neves; Cosac Naify, 2004]

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