Notas sobre o Deserto Patagônico

deserta

– Kant diz que se o mundo é redondo e, portanto, finito, então as gentes são obrigadas a suportarem umas as outras, sem a opção de poderem debandar em direção ao infinito, caso o mundo fosse uma planura sem fim.

– Kepler dizia que os corpos celestes eram todos do mesmo tamanho. Talvez estivessem distribuídos em círculos. Sem um telescópio para observá-los com mais nitidez, ninguém, em sua época, pôde oferecer uma contestação mais fundamentada. A diferença de brilho, de uma estrela para outra, provinha da distância que nos separava delas – é o que ele pensava.

– Se a paisagem é monótona, como no caso dos oceanos e dos desertos, então a principal referência para navegação está nas estrelas do céu noturno – um mapa que só aparece de noite. Antes olhávamos para elas e víamos centauros, hidras, escorpiões. Hoje vemos a aridez gigantesca de astros estéreis, um universo que não foi feito para nós.

– A paisagem é uma invenção, uma ilusão inscrita nas coisas, mas experimentada como verdade. Tem sua moradia num relato, em uma outra descrição. O mundo existe antes de converter-se em paisagem, mas sair nomeando as coisas do mundo é também, de certa forma, inventá-las. Chama-se isso de deserto por falta de um nome melhor, porque quem deu tal nome a essa região só pôde fazê-lo a partir de uma comparação, com as referências que já tinha em sua cultura. É um deserto porque seus detalhes estão na ausência. mas o que há para se nomear num deserto?

– Uma paisagem monótona é, inevitavelmente, um problema estético. Como captar a imobilidade? Mas o desafio inverso também parece apresentar dificuldade: como captar o movimento absoluto em uma paisagem? Como retratar um terremoto ou o correr de um rio? Como pintar o absurdo de uma paisagem que é capaz de produzir uma vertigem horizontal, em que cada momento parece anunciar a surpresa de ver aparecer na distância um bando de saqueadores, a própria barbárie que brota do vazio? Não foram poucos os que pensaram ser o deserto um território análogo à linguagem da loucura: não há hierarquias, leis, e até o próprio tempo parece escapar. É na imensidão dessa latitude que Darwin teria concebido a sua desumana narrativa: o vislumbre de um tempo tão além da pequenez humana, em que as lápides do cemitério sepultam espécies inteiras, e não apenas indivíduos mesquinhos deslumbrados com suas próprias ilusões de singularidade. Interessante contraste: a aridez vazia do deserto parece ser fértil para as imaginações – um deserto que, antes de perpetuar na memória do naturalista que o testemunhou, parecia pouco digno de interesse. A paisagem percebida pressupõe um observador que deveria ser sempre o mesmo: só sendo o mesmo um indivíduo é capaz de coletar os elementos que uma paisagem tem a nos oferecer e, no entanto, eis que, depois de cristalizada em uma imagem a memória, já não somos os mesmos depois dela.

– O que aparece de maneira crucial: só a lente da poesia, baú de metáforas, poderia oferecer alguma alternativa interessante para a nossa miopia descritiva. As representações científicas não são suficientes para descrever o deserto e suas infinitudes. E se lograssem sê-lo já as teríamos abandonado, como naquele conto de Borges em que a cartografia de um país distante desenvolveu-se ao ponto de os mapas, tão grandes quanto as fronteiras daquela pátria, confundirem-se com o próprio território – as representações confundidas com as coisas.

– Só que, tão viciadas em subjetividade, o que as lentes da metáfora podem oferecer são apenas distorções do real, organizadas segundo alguma misteriosa lógica que parece reger as ilusões. E, no caso do deserto, a própria ilusão de que há algo além do horizonte, espécie de gnosticismo geográfico: uma cortina sempre em vias de abrir nossa janela para o vislumbre direto do sol.

– O mundo apresenta uma certa unidade de sentido. Uma unidade complexa, grande demais para caber na compreensão de um indivíduo só, e, no entanto, aí está ela, espalhada pela verborragia da nossa cultura. Mas o mundo é um só, e aquilo que se expressa no deserto de Gobi também se expressa no deserto da Patagônia. A terra é porosa, e quem se banhou no Rio da Prata, também se banhou no Ganges. Os canais de Tenocthitlán são os canais de Veneza – há semelhança onde deveria haver diferença.

– A guerra que opunha civilização e barbárie derramou tanto sangue sobre a planície do deserto patagônico que, para Darwin, seu fim já estava decretado. Uma guerra tão sangrenta não pode durar. Índios e católicos, nutrindo um ódio estranho e inesgotável um pelo outro, não deixavam de encontrar razões para matarem-se uns aos outros. Mata-se o inimigo pelo que ele fez, e também pelo que ele representa. O deserto precisa ser povoado: é esse o mote da aventura governamental. É este o lema da civilização: os espaços precisam ser preenchidos, administrados. O que se acrescenta à tal empreitada, no auge de nosso século filosófico, é a técnica que nos ensina a precisar e a medir os espaços. Primeiro o vazio é testemunhado, depois divulgado, medido. e por fim, habitado. Mas um vazio tão absoluto como o deserto patagônico parece ter resistido até hoje, depois de passados dois séculos. E o que este deserto de agora diz é que não há viagem que não tenha sido feita. Não há caminhos que não tenham sido percorridos. Não há mais Terra Incognita. E, todavia, sobre que terreno se ergue o acumulo de nossas experiências? No deserto elas parecem todas desabar.

– Para o imperialismo do conhecimento, os fósseis são mais honestos que os viajantes. A planície, em si, é ambígua, e  a sua ambiguidade é o que a torna, para o viajante, um desafio narrativo. Como narrar uma viagem numa paisagem que se repete por milhas e milhas? O viajante, depois de dormir, pensa ter acordado no mesmo lugar.

– Na guerra contra a distância os sextantes, astrolábios, bússolas, são as melhores armas.

***

FONTE: Un Desierto para la Nación: La Escritura del Vacio; Fermin A. Rodriguez.

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