ascenção e queda do bidê, parte 2

back-to-nature

Há quem diga que o bidê, após o acoplamento da ducha, tenha se tornado o instrumento mais capaz e o maior responsável dentre os dispositivos modernos a dar uma dimensão verdadeiramente nova de significados à palavra “analógico”. O seu uso ancilar à higiene no século XX chegou até mesmo a tornar-se obrigatório em alguns países, como a Itália. Costumava instalar-se no quarto, de onde foi demovido, passando depois a habitar os banheiros. A origem da palavra vem do francês “bidet”, ou “bider”, que quer dizer “trotar” – uma óbvia comparação à posição em que montamos num cavalo sugere que também estaríamos montando este valoroso utensílio doméstico, que hoje, após a cansativa saga dos anos 80 e 90, sobrevive em grande parte dos apartamentos de classe média funcionando como um depósito de revistas velhas, em cujo acervo deveriam certamente constar algumas edições clássicas da Revista Isto É, Época, ou Veja, e Playboys da época em que vaginas ainda tinham pelos, sempre no fundo mais inalcançável da pilha de revistas que, erguendo-se de dentro do bidê, parece não ter fim. A comparação é pertinente. O coice proporcionado pela forte propulsão de alguns bidets que experimentei já me fez sentir violado.

Quando colocados ao lado da privada, em banheiros de menor espaço, distintos dos banheiros modelo europeu, podem acabar levando crianças ou idosos com problemas de vista a confundi-los com a própria privada, e as fezes, ao contrário de boiarem no confortável reservatório de água da privada, escorreriam pela fria louça do bidê antes de esvoaçarem pelo banheiro quando o defecante girasse a válvula pensando em ativar a descarga e, sem saber, desse vazão à água que, com forte impulso, saltaria pra fora do bidê, onde antes estava acostumada a entrar na cavidade anal ainda mais ou menos suja do defecante em questão e exercer ali o seu poder de limpeza, agora voaria livre, levando consigo dejetos nunca dantes vistos.

Não é surpreendente que seu uso tenha se difundido no século XVIII, na sociedade francesa. O bidê, em formato e em essência, é francês, e os seus entusiastas são intelectualmente franceses – a ambiguidade prazerosa com que seus usuários demoram-se em estimulantes lavagens foi durante muito tempo motivo de piada entre os prussianos, e teria sido pior se eles chegassem a testemunhar as possibilidades adquiridas com o jato d’água frio ou quente. Mas, acredito, nunca ninguém morreu por conta de um cu sujo.

Os modelos mais antigos, folheados a ouro, sem o mecanismo de ducha, resplandecem com tanta nobreza agora que estão aposentados, que é natural perguntar-se se algum dia chegaram mesmo a ser usados, e qual bunda foi capaz de sentir-se à vontade de verdade ali – como quando nos encontramos em certos ambientes que de tão limpos torna-se difícil nos sentirmos à vontade neles. Nos banheiros das casas hodiernas, bem menos espaçosas que os templos antigos, as grandes mansões e palacetes, é obrigatório que o cagante sinta-se à vontade, posto que muitos consideram um tanto dispendiosa a tarefa de defecar e de limpar-se em tronos alheios.

Mas crianças lavam os pés sujos no bidê. E também é possível que gatos façam dos bidês mais inativos algum tipo de cama ou local de repouso no qual se encolhem pra praticar aquela espécie de yoga furtiva em que ficam com os olhinhos quase inteiramente fechados indicando uma forma naturalmente avançada de stand-by que, se prestarmos atenção em como as orelhas seguem o som ao redor, veremos que sim, de fato, os nossos amigos felinos desenvolveram capacidades cínico-budistas bastante convincentes. Além disso, em se tratando também de perversão humana, são ilimitados os usos que alguém com uma mente doentia pode fazer do bidê durante esses jogos eróticos que se encafuam nos recantos mais sujos das metrópoles.

Quando há a necessidade de reduzir ainda mais os espaços, abole-se o formato do bidê, e emprega-se a ducha conectada ao cano da parede, a vulgar mangueirinha, que encontra vida curta em banheiros públicos. Não há solução para os banheiros públicos. Ficamos com os papeis licha-de-cu porque não há alternativas melhores, e, não obstante, o desperdício de papel é nababesco, como assim atestam os shoppings centers e as escolas e universidades públicas, onde os garotos gastam metros e metros secando o próprio suor. Em círculos de maior concentração monetária, como reuniões secretas em câmaras ou sindicatos, onde hábitos sanitários adquirem maior discrição, o papel pode até ser um pouco menos áspero, mas se porventura encontrarmos a ducha ou a “chuveirinha” em qualquer um desses ambientes, então estaremos, é verdade, diante de uma ocorrência muito rara.

O poeta indiano Amit Chaudhuri (1962 – ) chegou até mesmo a escrever um poema para o bidê. Chama-se, sem surpresa alguma, The Bidet Poem:

In my cousin’s mansion in California
my uncle and aunt, tourists
saw it separately.
At first, they didn’t know what it was –
neither basin nor commode
neither bowl nor bathtub
they circled round it anxiously
and silently.
Could it be a drinking-water fountain?

Later, when they knew, they tried
it tentatively; the dwarf-
like jet of water sprang ceilingward
and surprised their secret regions.

O que nos põe a imaginar a impressão que pode ter causado em indivíduos de culturas e povos distantes, que sequer conheciam o conceito de saneamento.

Recentemente um amigo visitou um estabelecimento que deu um uso decorativo ao bidê que se encontrava obsoleto já há algum tempo. Transformaram-no num vaso, colocando terra e plantas falsas dentro. Inspirado por esse bravo ato de ousadia estética, considerarei adiante algumas formas de apropriação e de transformação que podem ser capazes de ressignificar o histórico utensílio.

O bidê pode ser transformado em:

– um aquário para peixinhos dourados;

– um abajur;

– um instrumento de percussão para o Hermeto Pascoal;

– um substituto para a caixa de areia do seu gato;

– uma fazenda de formigas;

– uma pia de batismo;

– um jardim zen com aquela areia pra você ficar rastelando enquanto defeca;

– um depósito pra dispensar pontas;

– um altar para sacrifícios e oferendas;

– um ready-made, se você assinar seu nome embaixo;

– uma poltrona anatomicamente exótica;

– um chuveiro para recém-nascidos.

– um recipiente para armazenar gelo e long-necks.

(irei acrescentando novos itens à lista ao longo do tempo)

texto escrito ao som desse disco:


Imagem: Jacek Yerka

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